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Órbita terrestre está a ficar congestionada com satélites

ATG medialab / ESA HANDOUT

A quantidade de satélites e de lixo espacial tem aumentado nos últimos anos e várias empresas pretendem enviar ainda mais.

Desde 1978 que o cientista da NASA Donald Kessler tem vindo a alertar para a possibilidade de o espaço ficar demasiado congestionado, levando a que um pequeno embate possa gerar uma reação de choques em cadeia. Se tal acontecer, milhares de destroços serão projetados e o espaço à volta da Terra será transformado num deserto extraterrestre.

É como imaginar um acidente de carro, mas em que a velocidade ultrapassa os 27.000km/h. Os destroços do primeiro embate poderiam atingir outro satélite, que se destruía e provocava novos destroços que atingiam outro satélite e assim sucessivamente. A teoria ficou conhecida como “Síndrome de Kessler” e foi usada na base do enredo do fime “Gravity” (2013).

Apesar de a teoria ter 40 anos, só agora é que a situação começou a preocupar algumas companhias espaciais. Peter Beck, CEO da norte-americana Rocket Lab, disse à CNN que o aumento dos objetos no espaço – entre satélites em funcionamento, satélites desativados e detritos provenientes de lançamentos espaciais – está a tornar difícil encontrar um caminho livre para que os foguetes lancem os novos satélites.

“Isto tem um impacto massivo no lançamento”, explica Beck acrescentando que os foguetes “precisam de tentar traçar o seu caminho entre estas constelações [de satélites]”.

Desde 2018, a Rocket Lab lançou 12 missões de sucesso, colocando um total de 55 satélites em órbita – para investigação e com objetivo comercial. No último ano, a SpaceX construiu a constelação Starlink que, rapidamente, se tornou a maior constelação de satélites de sempre. É composta por mais de 700 satélites que são usados para a transmissão de internet.

Os planos não ficam por aqui: a companhia norte-americana pretende continuar a crescer e colocar entre 12.000 e 40.000 satélites em órbita – mais do que o total de satélites humanos lançados para o espaço desde o início da exploração espacial, na década de 1950.

O impacto do congestionamento espacial está a preocupar o CEO da Rocket Lab, mas não se sabe se o aglomerado de satélites tem provocado dificuldades à SpaceX. A companhia liderada por Elon Musk não respondeu às questões enviadas pela CNN.

Para além da Rocket Lab e da Space X, também outras empresas internacionais – como a Amazon e a OneWeb – têm ambições espaciais, o que irá aumentar o número de satélites em órbita. Cada empresa pretende enviar os próprios satélites tornando o problema do congestionamento ainda mais flagrante. Só este ano a Estação Espacial Internacional teve de alterar a sua rota por três vezes para evitar embates.

A região abaixo dos 1.200km de altitude é já considerada como uma zona de risco devido à elevada densidade de satélites. Moriba Jah, astrodinamicista na Universidade do Texas em Austin e especialista no tráfico aéreo, tem vindo a estudar esse fenómeno e criou uma plataforma onde é possível acompanhar os satélites que, a cada 20 minutos, estão em potencial risco de colisão. Cada objeto que se prevê passar a menos de 9,5km de distância de outro é representado num ponto e os número de pontos tem crescido ao longo do último ano. Os dados estão disponíveis num gráfico online.

Para além dos satélites ativos, é importante focar também no lixo que existe atualmente no espaço e que é praticamente impossível de limpar. Estes objetos que se mantêm em torno da Terra podem levar séculos até que saísse da órbita naturalmente.

Exploração espacial sem regulamentação atualizada

O tratado que está atualmente em vigor sobre a regulamentação do espaço data de 1967. O Tratado do Espaço Sideral foi assinado numa época em que apenas dois países procuravam a exploração espacial e, desde então, não houve qualquer atualização.

Apesar de as empresas espaciais terem beneficiado desta falta de regulamentação, o elevado número de satélites em órbita causa preocupação entre as companhias, que começam a defender o rastreamento dos objetos espaciais. É o caso da Rocket Lab que lançou uma investigação interna para tentar resolver o problema de mapeamento.

O controlo do tráfego espacial tem estado a cargo do exército norte-americano, por ter uma extensa base de dados onde junta os satélites ativos e os lixo espacial. Mas o exército não quer manter esta função e, em conjunto com a NASA, tem pressionado o governo norte-americano para transferir essa função para o Departamento de Comércio. Até agora ainda nada foi decidido.