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O sistema estrelar raríssimo que vai ter um final trágico

European Southern Observatory

Composto por duas estrelas Wolf-Rayet que orbitam em torno uma da outra, este fenómeno irá transformar-se numa explosão de supernova.

A 8.000 anos luz da Terra, entre os vizinhos da Via Láctea, existe uma sistema estrelar extremamente raro. Os investigadores encontraram duas estrelas Wolf-Rayet – estrelas que apresentam linhas de emissão intensas de diferentes compostos gasosos e, por isso, criam o efeito de um rasto. Neste caso, as estrelas orbitam em torno uma da outra, formando uma espécie de cata-vento cósmico. Mas esta beleza cósmica terá um final trágico.

A esperança de vida de uma Wolf-Rayet é bastante reduzida e poderá não durar mais do que centenas de milhares de anos, um valor considerado baixo no mundo da astronomia. À semelhança de outras estrelas do género, o próximo passo deste sistema será uma explosão de supernova que poderá resultar na criação de um buraco negro.

As Wolf-Rayet são extremamente raras e apenas uma em cada mil milhões de estrelas tem uma dimensão suficientemente grande para concretizar este fenómeno. Por essa razão, os investigadores nunca pensaram encontrar uma estrela deste género na Via Láctea, a galáxia onde se localiza o sistema solar. Muito menos encontrar duas.

A descoberta aconteceu em 2018: a acompanhar as duas estrelas foi identificada ainda um terceiro astro, de menores dimensões, que está ligado ao sistema através da força gravítica. As duas estrelas principais têm uma massa 10 a 15 vezes superior à do Sol e são 100 mil vezes mais luminosas, chegando a atingir os 25.000ºC – a temperatura do Sol ronda os 5.500ºC.

O sistema foi apelidado de Apep, uma referência ao deus do Caos que é representado pela mitologia egípcia como uma serpente, devido ao rasto dourado de poeiras de carbono que aparenta uma serpente a lutar com a estrela central.

Novas descobertas sobre as Wolf-Rayet

“Para além da imagem deslumbrante, a coisa mais notável neste sistema estrelar é a forma como expande a sua bonita espiral de poeira deixando-nos totalmente perplexos”, disse à CNN Yinuo Han, o principal autor do estudo. “A poeira parece ter uma mente própria, flutuando muito mais devagar do que a os ventos do sistema solar que deveriam estar a conduzi-lo”.

Para analisar e compreender o processo de criação do sistema que tinham descoberto, os investigadores recorreram ao Telescópio Extremamente Grande – Very Large Telescope, em inglês – do Observatório Europeu do Sul, localizado no Chile, que é capaz de produzir imagens de alta resolução a milhares de anos luz de distância. "A ampliação requerida para produzir imagens foi como se procurassemos um grão de bico numa mesa de 50 quilómetros", lembra Han.

Os investigadores descobriram que a espiral de poeira está a expandir-se a uma velocidade quatro vezes mais lenta do que os ventos estelares, o que difere dos dados recolhidos no passado sobre as Wolf-Rayet. “A velocidade dos ventos estelares produzidos é simplesmente surpreendente”, acrescenta o Han, “estão a girar nas estrelas a cerca de 12 milhões de quilómetros por hora; isso é 1% da velocidade da luz”. Por outro lado, “a poeira que está a ser produzida pelo sistema está a expandir-se muito mais lentamente, a cerca de uma quarto da velocidade do vento estelar”, reforça o investigador.

Fase final: a explosão

As estrelas que compõe o Apep são “bombas-relógios”, afirma Peter Tuthill, coautor do estudo e professor na Universidade de Sidney. “Para além de exibir todos os comportamentos extremos de uma Wolf-Rayets, a estrela principal do Apep parece estar numa rotação rápida. Isso significa que tem todos os ingredientes para detonar uma explosão de longos raios gama quando se transformar em supernova”.

Os raios gama são dos mais energéticos que ocorrem no Universo e uma explosão deste tipo poderia colocar em risco vários sistemas que se localizem nas proximidades. Um fenómeno como este nunca foi observado na Via Láctea. Esta explosão não irá atingir a Terra devido ao eixo de rotação do sistema estrelar, mas, caso atingisse, poderia destruir completamente a camada de ozono, expondo o planeta à radiação ultravioleta proveniente do Sol.