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Vaticano nega ter encoberto abusos sexuais do ex-cardeal McCarrick

Remo Casilli

No entanto, a Igreja admite que existiram erros cometidos em avaliações feitas com base em "informações imprecisas e incompletas".

O Vaticano negou esta terça-feira ter ignorado ou encoberto os abusos sexuais cometidos pelo ex-cardeal norte-americano Théodore McCarrick, admitindo porém que existiram erros cometidos em avaliações feitas com base em "informações imprecisas e incompletas".

Nas 450 páginas do relatório, suportadas por 90 entrevistas e pela consulta aos arquivos, tarefa que exigiu dois anos de trabalho, a Santa Sé considerou, em particular, que vários bispos norte-americanos há muito que forneciam informações "inexatas e incompletas" sobre a "má conduta" sexual de McCarrick.

Em causa está um escândalo sexual que terá sido abafado pela mais alta hierarquia da Igreja, incluindo três papas sucessivos.

Em relação à carreira de McCarrick, o cardeal número dois do Vaticano, Pietro Parolin, justificou que nenhum procedimento de tomada de decisão da Igreja "está isenta de erros", porque isso resulta de "omissões", com graves consequências.

Os rumores sobre os convites do ex-cardeal norte-americano a jovens seminaristas e padres adultos para dividirem a cama consigo, divulgados na década de 1990, e a denúncia feita por um outro cardeal sobre tais abusos não terão impedido o influente McCarrick em ser nomeado arcebispo de Washington, no final de 2000, e a ser nomeado cardeal num processo sob a égide do então papa João Paulo II.

Depois de uma investigação no Vaticano que alertou para o risco de um escândalo sexual, o Papa João Paulo II decidiu confiar em McCarrick, que alegou sempre a sua inocência.

O arcebispo tinha, de facto, enviado uma carta ao seu secretário particular, Stanislaw Dziwisz, na qual assegurava que "nunca teve relações sexuais com qualquer pessoa, homem ou mulher, jovem ou velho, clérigo ou leigo".

A investigação efetuada pelo Vaticano incluiu informações "retrospetivamente incompletas", levando a "subestimações", justificou agora Andrea Tornielli, diretor editorial e de comunicação da Santa Sé.

Das primeiras acusações à primeira denúncia

O talento de McCarrick para angariar fundos monetários para a Igreja por parte de ricos doadores norte-americanos, assim como o seu hábito de dar presentes, "nunca influenciou as decisões significativas feitas pela Santa Sé sobre ele", indicava o relatório.

Em 2005, surgiram acusações mais credíveis sobre ligações sexuais de McCarrick com pessoas adultas. O novo Papa alemão Bento XVI pediu então ao arcebispo de Washington que se aposentasse no ano seguinte, com mais de 75 anos de idade. Na aparente ausência de vítimas menores, a Santa Sé optou por não efetuar qualquer julgamento.

A primeira denúncia por agressão sexual chegou em 2017 quando McCarrick já estava aposentado e foi deduzida por um homem que tinha 16 anos à data dos abusos alegadamente ocorridos em Nova Iorque, dos anos 70.

Uma investigação foi então iniciada, com a aprovação do atual papa Francisco, tendo Theodore McCarrick visto o seu título de cardeal retirado no verão de 2018, antes de ser destituído no início de 2019, uma sanção quase sem precedentes no historial da Igreja Católica.

No outono de 2018, o Papa Francisco prometeu fazer uma investigação completa sobre os atos praticados por McCarrick, que, durante a sua carreira religiosa, foi bispo de Nova Iorque, Metuchen e Newark (Nova Jersey).

Desde então, as associações de defesa das vítimas de abuso sexual por parte de padres não deixaram de exigir conclusões à hierarquia da Igreja Católica.

O relatório sobre a carreira do cardeal norte-americano chegou a motivar duras críticas do prelado ultraconservador italiano Carlo Maria Vigano, que pediu ao Papa Francisco que renunciasse em agosto de 2018, acusando-o de ter protegido Teodore McCarrick por muito tempo.

O relatório sobre o comportamento de McCarrick danifica a imagem da Igreja, ao indicar depoimentos de muitas pessoas que alegam ter mantido contacto físico com o prelado norte-americano, descrevendo "abusos e agressão sexual", atividades sexuais indesejadas" e outros contactos físicos íntimos.

Para o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé e braço direito do Papa Francisco, a sua publicação é "uma dor pelas feridas que o caso causou às vítimas, às suas famílias, à Igreja norte-americana e à Igreja universal".

Nos últimos dois anos, a Santa Sé colocou em prática uma série de novas medidas preventivas para prevenir e combater os escândalos sexuais na Igreja Católica, obrigando, por exemplo, os padres a denunciarem os seus superiores que pratiquem tais atos abusivos.

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