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Turquia escandalizada com intenção dos EUA de discutir questões religiosas

Recep Tayyip Erdogan, Presidente da Turquia

Umit Bektas

Departamento de Estado referiu que o chefe da diplomacia norte-americana tenciona discutir questões religiosas na Turquia e promover a "forte posição (dos Estados Unidos) sobre a liberdade religiosa em todo o mundo".

A Turquia manifestou-se esta quarta-feira escandalizada com a intenção do chefe da diplomacia norte-americana de querer promover a liberdade religiosa durante uma futura visita a Istambul, afirmando que Washington devia concentrar esforços nas suas próprias questões internas, como o racismo.

O Departamento de Estado norte-americano divulgou na terça-feira que o secretário de Estado, Mike Pompeo, irá deslocar-se dentro dos próximos dias à cidade turca de Istambul para se encontrar com o patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, o líder espiritual dos cristãos ortodoxos.

A nota informativa divulgada pelo Departamento de Estado referiu que o chefe da diplomacia norte-americana tenciona discutir questões religiosas na Turquia e promover a "forte posição (dos Estados Unidos) sobre a liberdade religiosa em todo o mundo".

O Ministério dos Negócios Estrangeiros turco condenou a nota informativa da diplomacia norte-americana, classificando a intenção de Pompeo como "extremamente inapropriada" e insistindo que a Turquia protege os direitos dos cidadãos de praticarem livremente as respetivas religiões.

"Seria mais aconselhável que os Estados Unidos se olhassem primeiro ao espelho e mostrassem a sensibilidade necessária perante as violações dos direitos humanos, como o racismo, a islamofobia e os crimes de ódio, no seu próprio país", afirmou a diplomacia turca num comunicado. "A nossa reação sobre este assunto foi comunicada aos Estados Unidos e foi sugerido que (Washington) se concentrasse em aumentar a cooperação entre os nossos países em questões regionais e globais", prosseguiu o ministério turco.

Em 10 julho deste ano, o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, anunciou a abertura da antiga catedral Hagia Sophia (Santa Sofia), em Istambul, às orações muçulmanas, após um tribunal ter anulado o estatuto de museu deste património (classificado como Património Mundial pela UNESCO), dando assim 'luz verde' para a transformação em mesquita.

Construída no século VI, à entrada do estreito de Bósforo, esta antiga basílica onde os imperadores bizantinos foram coroados foi convertida em mesquita no século XV, após a captura de Constantinopla pelos otomanos em 1453.

A decisão anulada no verão passado remontava a uma medida adotada num Conselho de Ministros de 1934, então liderado pelo fundador da Turquia secular, Mustafa Kemal Ataturk, que transformou o monumento, uma das principais atrações turísticas de Istambul, num museu.

Vários países, nomeadamente a Rússia (Igreja Ortodoxa russa) e a Grécia, sempre seguiram com atenção o destino da herança bizantina na Turquia e, em julho, condenaram de imediato a decisão de Erdogan, com Atenas a afirmar que era uma "provocação para o mundo civilizado".

"O nacionalismo demonstrado pelo Presidente (turco) faz recuar o seu país em seis séculos", afirmou então a ministra da Cultura grega, Lina Mendoni.

Erdogan, que lidera um partido islâmico, foi acusado de tentar apagar a herança cultural dos cristãos ortodoxos.

Poucas semanas depois da decisão relacionada com a Hagia Sophia, Erdogan decretava a conversão de uma antiga basílica bizantina de Istambul, a igreja de Chora, em mesquita.

Durante a estadia em Istambul, Mike Pompeo não tem programado, até à data, qualquer encontro com as autoridades turcas.

A par da cidade turca, o chefe da diplomacia norte-americana irá deslocar, entre 13 e 23 de novembro, a França, Geórgia, Israel, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Arábia Saudita.

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