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Ataques em Moçambique. Importância geoestratégica atiça apoio dos EUA

Tsvangirayi Mukwazhi / AP

Coordenador para o contraterrorismo dos EUA disse que o seu Governo está "seriamente interessado" numa parceria para travar os grupos armados na província de Cabo Delgado.

Analistas disseram esta terça-feira à Lusa que a manifestação de interesse do Governo norte-americano de apoiar Moçambique no combate à insurgência armada na província de Cabo Delgado, norte do país, traduz a importância geoestratégica do país africano para Washington.

Na quinta-feira, o coordenador para o contraterrorismo dos EUA, Nathan Sales, disse em Maputo que o seu Governo está "seriamente interessado" numa parceria com Moçambique para travar os grupos armados na província de Cabo Delgado.

"Os Estados Unidos estão seriamente interessados numa parceria com Moçambique, estreitando a nossa amizade enquanto juntos enfrentamos o desafio do terrorismo", disse Nathan Sales, citado num comunicado da embaixada norte-americana em Maputo.

Interesse geoestratégico e geopolítico

Em declarações à Lusa, Calton Cadeado, docente na Universidade Joaquim Chissano, em Maputo, especialista em paz, conflito, defesa e segurança, considerou a disponibilidade manifestada por Washington como um sinal.

"Os Estados Unidos nunca esconderam o interesse geoestratégico e geopolítico que Moçambique sempre assumiu pela sua posição no oceano Índico", afirmou, recordando um suposto interesse manifestado há anos em instalar uma base militar em Nacala, província de Nampula, norte do país.

Por outro lado, notou Calton Cadeado, a presença da gigante petrolífera norte-americana Exxon Mobil nos projetos de gás natural em Cabo Delgado (norte) e o risco de o caos provocado pela insurgência na província favorecer a intensificação de vários tipos de tráfico, incluindo drogas, também estarão no centro das preocupações de Washington.

"Os EUA são um dos maiores países doadores de Moçambique e isso não é apenas por altruísmo, interessa àquele país a estabilidade" do país lusófono, frisou.

Guerra global contra o terrorismo

Adriano Nuvunga, docente de Ciência Política e diretor do Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD), organização da sociedade civil, considerou que o interesse manifestado pelos EUA enquadra-se no que Washington vê como guerra global contra o terrorismo.

"Na ótica dos EUA, o que está a acontecer em Cabo Delgado é terrorismo e merece o mesmo combate vigoroso como a guerra contra o Estado Islâmico e a Al Qaeda", assinalou.

Relação entre Moçambique e EUA

As autoridades norte-americanas acompanharam sempre de perto a realidade moçambicana, tanto antes como depois da independência, o que ficou mais visível com uma certa hostilidade de Washington com o alinhamento da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder, com o ex-bloco comunista liderado pela antiga União Soviética, frisou Nuvunga.

A importância económica de Moçambique, principalmente após a descoberta de gás natural na bacia do Rovuma, também justifica a preocupação dos EUA e igualmente da União Europeia (UE) pela situação em Cabo Delgado.

Adriano Nuvunga observou, contudo, que a eficácia dos esforços internacionais no apoio a Moçambique vai depender da seriedade de Maputo na gestão dessa solidariedade.

"Será interessante ver até que ponto o Governo vai colaborar com a comunidade internacional no combate à insurgência em Cabo Delgado, porque pode ser que tenha receio de que se desvendem as dimensões internas do conflito, que são culpa do próprio Governo da Frelimo", frisou Nuvunga.

Fernando Lima, comentador político e presidente da Mediacoop, uma sociedade de media privada, também defendeu "uma postura sem ambiguidades" por parte do Governo para que a solidariedade internacional na questão de Cabo Delgado seja devidamente capitalizada.

"O Governo não deve emitir posicionamentos contraditórios, se quiser contar com os apoios como o manifestado pelos EUA e pela União Europeia no combate à violência em Cabo Delgado", afirmou Lima.

Viragem na atenção internacional sobre o problema de Cabo Delgado

A vontade manifestada por Washington, prosseguiu, marca uma viragem significativa na atenção internacional sobre o problema de Cabo Delgado.

"O peso político, militar e económico dos EUA faz com que a questão de Cabo Delgado ganhe uma maior visibilidade no panorama internacional, mas é necessário que essa manifestação de interesse tenha um efeito prático", frisou.

Fernando Lima disse que, no imediato, a cooperação entre Moçambique e EUA poderá ser ao nível de troca de informação, dada a experiência norte-americana na monitoria das movimentações de grupos associados ao "jihadismo".

"Não vejo, de momento, tropas norte-americanas em solo moçambicano, mas é mais crível uma cooperação ao nível de troca de informação", destacou.

Ataques em Moçambique

A violência armada em Cabo Delgado dura há três anos e está a provocar uma crise humanitária com cerca de 2.000 mortes e cerca de 500 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos e concentrando-se sobretudo na área da capital provincial, Pemba.

O Programa Alimentar Mundial está a ficar sem dinheiro para alimentar todos os que fogem da violência armada em Cabo Delgado. A província no norte de Moçambique continua a ser alvo de ataques de radicais islâmicos, que nos últimos dias destruíram uma das mais antigas missões católicas do país.

A Igreja de Nangololo já tinha sido assaltada em abril, mas ficou agora praticamente destruída. O ataque dos jihadistas terminou há poucos dias. Além da histórica missão católica, invadiram pelo menos 10 localidades vizinhas numa ofensiva que durou cerca de três semanas.

Foram obrigados a recuar depois da intervenção das Forças de Defesa moçambicanas, mas para trás deixaram o pesado silêncio que impuseram pela violência.

Ninguém sabe ao certo quantas pessoas foram mortas, mas há relatos de vários corpos em decomposição nas aldeias que, entretanto, ficaram vazias.

A violência armada desencadeou uma fuga em massa para a capital da província. Em Pemba uma só habitação chega a acomodar 50 pessoas. A pressão é tal que a agência das Nações Unidas que presta ajuda alimentar no terreno já avisou que não tem verbas para alimentar tantos deslocados.