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Justiça confirma prisão perpétua para Ratko Mladic por genocídio na Bósnia

POOL

Mladic é um dos principais líderes julgados pela justiça internacional por crimes cometidos durante as guerras na ex-Jugoslávia.

O Mecanismo para os Tribunais Penais Internacionais (MPTI) confirmou esta terça-feira a pena de prisão perpétua para o ex-chefe militar sérvio Ratko Mladic por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos durante o conflito na Bósnia (1992/95).

"O tribunal de apelo mantém a pena de prisão perpétua para Mladic", lê-se num comunicado do MPTI, que rejeita, assim, o recurso do antigo general, condenado por genocídio pelo papel no massacre de Srebrenica.

Conhecido também pelo "carniceiro dos Balcãs", o antigo general foi condenado em primeira instância em 2017, nomeadamente pelo massacre em Srebrenica, o pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, considerado como um ato de genocídio pela justiça internacional.

A sentença, proferida por cinco juízes do MPTI, que substituiu o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ) após o seu encerramento em 2017, é definitivo e não pode mais ser objeto de recursos.

As mães de alguns dos 8.000 homens e jovens muçulmanos mortos pelas forças sérvias da Bósnia em Srebrenica em 1995 viajaram para Haia.

"É um dia histórico, não só para nós, mães, mas também para todos os Balcãs, Europa e mundo. [Mladic] É um monstro que não se arrependeu do que fez, mesmo passados 26 anos", disse à agência noticiosa France-Presse (AFP) Munira Subasic, presidente de uma das associações "Mães de Srebrenica".

No centro do Memorial do Genocídio, próximo de Srebrenika, um ecrã gigante transmitiu hoje os testemunhos de sobreviventes e famílias, perto das estelas brancas (pedras erguidas) perfeitamente alinhadas onde jazem os corpos de mais de 6.600 vítimas identificadas.

"Em vez de me alegrar com os meus netos, vim aqui para chorar", disse Munevera Kabeljic, 69 anos, perto dos túmulos do marido e dos dois filhos, que foram abatidos a tiro quando tinham 17 e 20 anos.

"O que mais dói é que eles negam o genocídio. Dizem que não aconteceu, mas estas lápides provam-no", acrescentou Kabeljic.

Preso em Haia desde 2011, depois de 16 anos em fuga, Mladic é hoje uma pessoa idosa que sofre de problemas de saúde, indicaram os advogados do antigo general sérvio.

Mais de um quarto de século após o conflito, o ex-general mantém uma aura de herói entre os seus apoiantes, mas o seu nome permanecerá associado aos crimes da guerra da Bósnia, ao cerco a Sarajevo e ao massacre de Srebrenica.

Filmagens da época mostram-no a distribuir doces a crianças em Srebrenica e, em seguida, a entrar num autocarro com as mulheres locais, enquanto os homens e adolescentes da cidade eram levados para uma floresta para serem executados.

Mladic também foi considerado culpado de orquestrar uma campanha mais ampla de "limpeza étnica" para expulsar muçulmanos e bósnios de áreas-chave para criar uma Grande Sérvia na antiga Jugoslávia, dilacerada após a queda do comunismo.

Mladic, ainda considerado um defensor do povo por muitos sérvios da Bósnia, afirmou que, apesar de tudo, foi arrastado para o conflito desde o início da guerra na Bósnia, que provocou cerca de 100.000 mortos e mais de 2,2 milhões de deslocados.

Segundo a defesa de Mladic, não existe qualquer ligação entre o ex-general e as mortes cometidas em Srebrenica e as acusações de genocídio que lhe valeram uma pena de prisão perpétua são infundadas.

Em agosto de 2020, durante o julgamento de um recurso, Mladic declarou que o tribunal era uma "ramificação das potências ocidentais" e afirmou ser ainda "um alvo da aliança da NATO".

A idade exata do ex-general é ainda alvo de discussão, com Mladic a indicar que nasceu a 12 de março de 1943, enquanto o MTPI avançou com 12 de março de 1942.

Mladic é um dos principais líderes julgados pela justiça internacional por crimes cometidos durante as guerras na ex-Jugoslávia, tal como o ex-líder político dos sérvios bósnios Radovan Karadzic, condenado a prisão perpétua em 2019, e do ex-presidente jugoslavo Slobodan Milosevic, que morreu na sua cela em Haia na sequência de um ataque cardíaco em 2006, antes de o seu julgamento ter sido concluído.