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Descobertas mais de 160 novas sepulturas junto a internato indígena no Canadá

Shannon VanRaes / Reuters

Nos terrenos da antiga residência escolar para crianças aborígenes da ilha Kuper, gerida entre 1890 e 1975 pela Igreja Católica.

Um grupo indígena do Canadá anunciou esta terça-feira a descoberta de mais de 160 sepulturas não identificadas nos terrenos de um antigo internato governamental gerido pela Igreja Católica, aumentando para 1.275 os túmulos não registados nestas residências.

A tribo Penelakut, que habita a pequena ilha de Penelakut, ao largo da costa do Pacífico, no oeste do Canadá, informou num comunicado que localizou mais de 160 sepulturas não identificadas e anteriormente não documentadas nos terrenos da antiga residência escolar para crianças aborígenes da ilha Kuper, gerida entre 1890 e 1975 pela Igreja Católica.

A chefe tribal dos Penelakut, Joan Brown, disse que muitos índios das comunidades vizinhas frequentavam a residência escolar da Ilha Kuper e "muitos não regressaram a casa".

Brown acrescentou que "é impossível superar atos de genocídio e violações dos direitos humanos" e defendeu ser necessário "lidar com o trauma causado por estes atos de genocídio".

A televisão CTV noticiou que um antigo empregado do dormitório escolar da Ilha Kuper, um religioso da ordem Missionary Oblates of Mary Immaculate Glenn Doughty, foi condenado, em 1991, a quatro anos de prisão, pelo crime de abuso sexual de quatro crianças indígenas numa outra residência escolar, cometido 30 anos antes.

Trudeau: "Aprofunda as famílias, sobreviventes e povos indígenas estão a sentir"

O primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, transmitiu esta terça-feira, durante uma conferência de imprensa, o seu pesar à Tribo Penelakut e a todas as comunidades indígenas do Canadá e acrescentou que a descoberta de novas sepulturas nos antigos dormitórios escolares "aprofunda a dor que as famílias, os sobreviventes e todos os povos indígenas já estão a sentir".

Trudeau pediu publicamente desculpa pelo papel do Governo canadiano na criação de um sistema de 139 escolas em regime de internato, no final do século XIX, no qual cerca de 150.000 crianças indígenas foram isoladas das suas famílias à força até 1997, com o objetivo de eliminar as culturas indígenas do país.

Crianças sujeitas a abusos físicos, psicológicos e sexuais

Nas escolas residenciais, as crianças eram sistematicamente sujeitas a abusos físicos, psicológicos e sexuais.

Os grupos indígenas denunciaram que, apesar das palavras de Trudeau, o Governo canadiano continua a dificultar encontrar e identificar milhares de crianças indígenas que desapareceram enquanto se encontravam nestes internatos.

Apesar da Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá ter concluído em 2015 que uma em cada 50 crianças que frequentaram internatos morreu nestas instituições, o Governo canadiano não iniciou a procura dos restos mortais nas escolas residenciais e são grupos indígenas do país os responsáveis pelas investigações.

Outros casos

Em maio, os indígenas tk'emlúps te secwépemc, um grupo da província da Columbia Britânica, anunciaram a descoberta de 215 sepulturas não identificadas de crianças indígenas que foram internas na escola residencial Kamloops.

Semanas mais tarde, dois outros grupos deram conta de achados semelhantes, o que, com o anúncio de esta terça-feira, aumenta para 1.275 o total de sepulturas não identificadas em antigos internatos do país.

A Conferência Canadiana de Bispos Católicos revelou que o Papa Francisco concordou em realizar uma reunião em dezembro com os sobreviventes indígenas das escolas residenciais do Canadá, para se desculpar pelo papel da Igreja Católica nos abusos e mortes.

O Governo do Canadá apresentou formalmente, em 2008, desculpa pela prática e pelos abusos, tal como as igrejas Presbiteriana, Anglicana e Unida.