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Suspensão de remessas de cubanos nos EUA para Cuba contribuiu para protestos, diz Borrell

Eduardo Munoz

Alto representante da União Europeia para a Política Externa, Josep Borrell, diz que decisão do ex-Presidente norte-americano Donald Trump de suspender as remessas de famílias cubanas contribuiu para desencadear a onda de protestos em Cuba.

O alto representante da União Europeia para a Política Externa, Josep Borrell, afirmou esta quarta-feira que a decisão do ex-Presidente norte-americano Donald Trump de suspender as remessas de famílias cubanas contribuiu para desencadear a onda de protestos em Cuba.

"Se quisermos ser francos e saber as coisas como elas são, esta situação [em Cuba], que foi piorando dramaticamente nos últimos meses, também tem que ver com decisões que o senhor Trump tomou nos últimos dias do seu mandato", disse Borrell numa comparência de rotina na Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu.

Referia-se, em concreto, à medida de "proibir que as famílias em Miami fizessem, como vinham fazendo há anos, transferências para as suas famílias em Cuba".

"Isso significa cortar, da noite para o dia, muitos recursos que as famílias cubanas recebiam, por uma decisão da Administração norte-americana cessante, tomada nos últimos dias do seu mandato", sublinhou.

Para o alto representante comunitário, "isso também teve influência" para agravar a vida dos cubanos.

"A situação é dramática, carecem neste momento de seringas, medicamentos, combustível", enumerou. "Nunca foi fácil, mas neste momento é mais difícil e é natural que haja momentos em que uma situação social e económica tão tensa provoque movimentos de protesto", argumentou, acrescentando: "Em Cuba, há problemas políticos, mas também há problemas derivados de decisões políticas tomadas por outros, que afetam dramaticamente a população e que eu certamente não apoio".

Borrell recordou que a União Europeia (UE), "todos os anos, nas Nações Unidas, pede que seja levantado o embargo norte-americano a Cuba" e assegurou que voltará a ser esse o caso na próxima Assembleia-Geral da organização, em setembro.

E lamentou que "em vez de suspendê-lo, o senhor Trump, antes de se ir embora, tenha decidido suspender a possibilidade de enviar remessas familiares para Cuba".

"Isto não fez também com que a situação económica piorasse? Claro que sim", acrescentou.

O responsável indicou que no passado dia 12 de julho falou da situação em Cuba durante um Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE e que, a seguir, instou o Governo cubano a "permitir o exercício dos direitos fundamentais dos cidadãos, a livre manifestação e o protesto pacífico" e também a que "atendesse às suas queixas, atendesse aos seus problemas e que não houvesse uma repressão violenta".

Borrell assegurou que a UE está a acompanhar a situação e sustentou que "nem tudo se resolve através de megafones ou fazendo comunicados", já que "há muito trabalho que se faz, e se faz melhor, através dos contactos pessoais".

A má gestão da pandemia no país, aliada a uma grave crise económica - que agravou a escassez de alimentos e medicamentos e levou o Governo a cortar a eletricidade durante várias horas por dia - impulsionou no domingo passado manifestações espontâneas de milhares de cubanos, que saíram à rua em Havana e em várias outras cidades para protestar contra o Governo do Presidente Miguel Diaz-Canel, desembocando em confrontos com as forças de segurança que se saldaram num morto, dezenas de feridos e pelo menos 130 detidos ou desaparecidos.

"Temos fome", "Liberdade" e "Abaixo a ditadura" foram algumas das palavras de ordem repetidas nesta mobilização sem precedentes em Cuba, país onde as únicas concentrações autorizadas são geralmente as do Partido Comunista Cubano (PCC, partido único) e onde as últimas manifestações deste tipo aconteceram há quase 30 anos, em 1994, em Havana.

Após os protestos, o Governo cortou a internet, reforçou o controlo policial e acusou os Estados Unidos de financiarem a revolta social no país.