Mundo

Amazónia brasileira regista em setembro menor número de incêndios dos últimos 20 anos

O mês de setembro costuma ser um dos piores no Brasil para incêndios florestais.

O número de incêndios na Amazónia brasileira durante setembro diminuiu para o nível mais baixo para esse mês em duas décadas, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

Setembro é historicamente o pior mês no Brasil para incêndios florestais e, embora os dados sejam positivos, especialistas ambientais questionam se a tendência será confirmada nos próximos meses, tendo em conta as ações do próprio Governo.

O número de incêndios na Amazónia foi pouco mais da metade do nível registado em setembro do ano passado, de acordo com os dados do INPE. Isso ajudou a baixar o total nacional, junto com uma queda acentuada na quantidade de incêndios no Pantanal.

Desde que assumiu o poder, em janeiro de 2019, o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, encorajou a exploração da Amazónia e rejeitou as reclamações globais sobre a destruição global, as quais classificou como uma conspiração para conter o agronegócio do país. O seu Governo também desmantelou os órgãos de fiscalização ambiental e apoiou medidas legislativas para enfraquecer a proteção florestal.

Mais recentemente, Bolsonaro tem procurado demonstrar um maior compromisso ambiental face às críticas do Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e de investidores institucionais.

Nas Nações Unidas, no mês passado, Jair Bolsonaro atribuiu aos esforços da sua administração a queda dos alertas de desflorestação na Amazónia em agosto. Os resultados de setembro serão divulgados na próxima semana.

Os ambientalistas descartam que Bolsonaro tenha efetivamente mudado a sua retórica e dizem que o envio de militares para a Amazónia é ineficaz para a preservação florestal.

Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, uma rede de organizações ambientais sem fins lucrativos, celebrou os dados de incêndios de setembro, mas afirmou que precisaria ver números mais baixos pelo menos até ao final do ano antes de declarar uma tendência de queda, principalmente devido aos níveis ainda elevados de desflorestação e a uma fraca fiscalização.

"Como a ação governamental na Amazónia é muito fraca, mesmo com essas variações, é difícil dizer que (a queda nos números) será mantida. Porque é que seria mantida?", questionou Astrini. "O Governo não está lá, não há repressão. Então, depende da vontade das pessoas que estão desflorestando, fazendo fogos", disse.

A severa seca que o país atravessa e os primeiros dados do início da temporada de incêndios florestais aumentaram a preocupação de que as chamas deste ano atingiriam a mesma destruição registada nos últimos dois anos.

Mas as chuvas na Amazónia durante agosto foram significativamente acima da média. Esse foi o principal inibidor que impediu os fazendeiros de atearem fogo às árvores derrubadas em setembro, o que parecia "uma intervenção quase divina", avaliou Ane Alencar, diretora de ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia.

Em contraste, no Pantanal, a maior área húmida do planeta, houve uma mudança de comportamento em relação ao ano passado, levando ao registo de um número muito menor de incêndios, apesar da seca em curso que transformou a área num barril de pólvora, acrescentou Ane Alencar.

Os incêndios diminuíram em mais de dois terços nos primeiros nove meses de 2020, depois que a devastação do ano passado arruinou a indústria do turismo local.

"O desastre do ano passado serviu para ajudar as pessoas a organizar melhor a prevenção e o combate a incêndios neste ano", declarou Alencar. "As perdas económicas no ano passado tiveram um impacto importante em fazer as pessoas pensar mais sobre as suas ações e, com a fiscalização dos pares, reduzir o uso do fogo", concluiu.

► Veja mais: