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Autor de caricatura polémica de Maomé morre em acidente de viação

MARCEL RUBIO/10iStock

Artista sueco vivia sob proteção policial há 12 anos.

O artista sueco Lars Vilks, de 75 anos, que vivia sob proteção policial desde que elaborou um esboço do profeta Maomé com o corpo de um cão, em 2007, morreu num acidente de carro, este fim de semana, disse a polícia sueca esta segunda-feira.

Vilks e dois polícias à paisana foram mortos numa colisão frontal com um camião, na tarde deste domingo, falecendo no local.

O camionista, de 45 anos, foi levado para o hospital com ferimentos graves.

A chefe da polícia local, Carina Persson, revelou que o carro da polícia, que era conduzido por um dos guarda-costas, tinha saído de Estocolmo e dirigia-se para sul quando entrou no caminho do camião.

Ambos os veículos explodiram em chamas, após o embate.

O acidente ocorreu perto de Markaryd, 100 quilómetros a nordeste de Malmö, a terceira maior cidade da Suécia.

“Não há nada por agora que indique que foi outra coisa, exceto um acidente de trânsito”, disse Persson.

O chefe máximo da polícia sueca, Anders Thornberg, reiterou que haverá uma investigação ao acidente, que levaria "um tempo relativamente longo".

A ministra da Cultura da Suécia, Amanda Lind, classificou o sucedido de "um acidente de trânsito extremamente trágico".

Vilks era praticamente desconhecido fora da Suécia antes de 2007, quando desenhou um esboço de Maomé com o corpo de um cão.

Os cães são considerados impuros pelos muçulmanos conservadores e a Lei Islâmica geralmente opõe-se a qualquer representação do profeta, mesmo que favorável, receando que isso possa levar a idolatria.

A Al Qaeda colocou, na altura, uma recompensa pela cabeça de Vilks e, em 2010, dois homens tentaram incendiar a sua casa no sul da Suécia.

Desde então, Vilks foi forçado a viver sob proteção policial “pelo facto de ter feito uso da sua liberdade de expressão e da sua liberdade artística”, disse a ministra sueca.

Ao longo dos anos, o artista continuou a enfrentar ameaças de morte. Em 2014, uma mulher da Pensilvânia declarou-se culpada de um plano idealizado para o matar.

No ano seguinte, um seminário de liberdade de expressão, no qual Vilks participou em Copenhaga, capital da Dinamarca, foi atacado por um atirador solitário que matou um cineasta dinamarquês e feriu três policias.

Vilks, que se acreditava ter sido o alvo do ataque de 2015, foi levado, embora ileso, pelos guarda-costas.

Mais tarde, o atirador matou um segurança judeu do lado de fora de uma sinagoga e feriu mais dois policias antes de ser morto num tiroteio com a polícia.

A polícia disse, na segunda-feira, que não sabia por que o carro de Vilks entrou no lado errado da estrada, mas que estava a investigar se um pneu pode ter explodido, embora o carro tivesse pneus à prova de furos, disse a polícia.

O carro da polícia, sem identificação, terá passado por uma grade de proteção que separava os lados da estrada, disse o polícia Stefan Siteus.

“Encontrámos resíduos de pneus na estrada antes do acidente e estamos a examinar a possibilidade de que possa ter ocorrido algum tipo de explosão de pneus”, disse Siteus.

O veículo da polícia pesava 4,5 toneladas, o que ajudaria a explicar como poderia passar por um separador de autoestrada.

A procuradora-chefe Kajsa Sundgren assumiu uma investigação preliminar para saber se "algum polícia pode ter cometido um crime relacionado com o acidente".

Sobre se o acidente pode ter sido causado por outra pessoa, tal está a ser investigado pela polícia, disse Sundgren.

“Há muita especulação sobre o que pode ter acontecido e tenho o cuidado de não contribuir para isso”, disse o ministro do Interior, Mikael Damberg, à agência de notícias sueca TT.

Nascido em 1946 em Helsingborg, no sul da Suécia, Vilks trabalhou como artista por quase quatro décadas e alcançou a fama por desafiar os limites da arte por meio de várias obras controversas.

As suas peças mais famosas incluíam "Nimis", uma escultura de madeira construída, sem permissão, na reserva natural Kullaberg, na Suécia, bem como desenhos do profeta Maomé, incluindo aquele que mostrava o profeta na forma de um cão.

Vilks planeou inicialmente exibir o desenho numa exposição num centro de património cultural sueco, mas o desenho foi removido por questões de segurança.

Passou quase despercebido até que um jornal sueco publicou o desenho com um editorial em defesa da liberdade de expressão.

Vários dos seus trabalhos, incluindo esculturas de madeira flutuante e desenhos de Maomé, incluindo aquele que mostra a cabeça do profeta muçulmano no corpo de um cão, estão atualmente em exibição em Varsóvia, na Polónia.

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