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Exposição a calor urbano mortífero triplica nas últimas décadas e afeta um quinto da população do planeta

Ognen Teofilovski

Foram usados dados de mais de 13.000 cidades de todo o mundo para a realização de um estudo.

A exposição ao calor urbano mortífero triplicou no mundo nas últimas décadas, afetando um quinto da população do planeta, indica um estudo divulgado esta segunda-feira.

Publicado na revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences", o trabalho foi desenvolvido pelo Instituto da Terra, da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Estados Unidos.

Os responsáveis usaram dados de mais de 13.000 cidades de todo o mundo e concluíram que o número de dias-pessoa em que os habitantes das cidades estão expostos a combinações extremas de calor e humidade triplicou desde os anos 1980.

Os autores dizem que a tendência é o resultado do aumento das temperaturas e do crescimento da população urbana, já que nas últimas décadas centenas de milhões de pessoas se deslocaram das zonas rurais para as cidades, que albergam atualmente mais de metade da população mundial.

Nas cidades as temperaturas são geralmente mais elevadas do que no campo, devido à pouca vegetação e à abundância de betão, asfalto e outras superfícies impermeáveis, que tendem a reter e concentrar o calor, provocando a chamada ilha de calor urbano.

"Isto tem amplos efeitos", disse o autor principal do estudo, Cascade Tuholske, investigador do Instituto da Terra, explicando que aumenta a morbilidade e mortalidade, que tem impacto na capacidade de trabalho e que leva a uma redução na produtividade.

O aumento da temperatura combinada com alta humidade provoca o fenómeno que pode ser mortal, devido ao aumento da temperatura do corpo e à sua incapacidade para arrefecer (por não haver evaporação), e mede-se através da chamada "temperatura de bulbo húmido", que conjuga temperatura e humidade.

A análise revelou que o número de dias-pessoa em que os habitantes das cidades foram expostos passou de 40 mil milhões por ano em 1983 para 119 mil milhões em 2016 - um aumento que triplicou. Em 2016, 1,7 mil milhões de pessoas estavam a ser sujeitas a tais condições em vários dias.

O crescimento da população urbana foi responsável por dois terços do pico de exposição, enquanto o aquecimento atual contribuiu com um terço.

No estudo a cidade mais afetada foi Daca, capital do Bangladesh, com um rápido crescimento populacional, mas há outras cidades com tendências semelhantes, como Xangai, Banguecoque, Dubai, Hanói, e várias cidades do Paquistão ou Índia.

As cidades europeias não têm crescido muito, pelo que a exposição foi essencialmente devido ao aumento global das temperaturas.

Os autores do estudo dizem que locais que no passado foram aprazíveis para as pessoas se fixarem, porque atraentes para a agricultura (junto de grandes rios, como o Nilo), podem no futuro tornar-se inabitáveis.

O estudo não é o primeiro a documentar os perigos do calor urbano excessivo e outras investigações já mostraram que o calor e a humidade conjugados podem levar além dos limites da sobrevivência humana.

Em maio do ano passado um estudo também da Universidade de Columbia alertava que o aquecimento global está a gerar em alguns lugares do planeta combinações de humidade e calor potencialmente fatais para o ser humano.

O estudo dizia que a realidade já tinha ultrapassado projeções anteriores, que apontavam para o final do século como o horizonte para começarem a ocorrer, em alguns lugares dos trópicos e sub-trópicos, fenómenos de calor e a humidade combinados que poderiam atingir níveis raramente experimentados pelos seres humanos, devastando economias e ultrapassando a capacidade de sobrevivência humana.

Dizia o estudo que essas combinações fatais já começaram. E identificava milhares de situações de calor e humidade extremos, raros ou sem precedentes, em locais da Ásia, África, Austrália, América do Sul e América do Norte.