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Colin Powell: o último republicano moderado

Opinião

KENNETH LAMBERT

Serviu os últimos três Presidentes republicanos pré-Trump (Reagan, Bush pai, Bush filho) e ajudou a moldar a política externa da direita clássica na viragem do século. A partir de Obama, apoiou sempre os democratas, numa sólida barragem ao populismo demagógico, que sempre recusou. Era patriota, bravo, mas sempre racional. Vai fazer muita falta.

“Colin Powell foi um grande servidor público. Era um dos preferidos dos Presidentes americanos e só assim foi possível ter ganho duas vezes algo que muito poucos ganham apenas uma vez: a Medalha Presidencial da Liberdade. Era muito respeitado nacional e internacionalmente. Mais importante de tudo, Colin era um homem de família e um amigo”

GEORGE W. BUSH, Presidente dos EUA no período em que Colin Powell foi Secretário de Estado

Barry Thumma

EVAN VUCCI

Barry Thumma

O General Colin Powell, que morreu esta manhã, aos 84 anos, vítima da COVID-19 (apesar de estar vacinado com as duas doses) foi o primeiro negro a chefiar a diplomacia norte-americana (a segunda foi a sua sucessora, Condoleeza Rice).

General de quatro estrelas, foi o cérebro da vitória militar na primeira Guerra do Golfo (em certo sentido, o último êxito dos EUA no Médio Oriente), em 1991.

Conselheiro de Segurança Nacional no último mandato de Ronald Reagan, Joint Chiefs of Staff entre 1989 e 1993, foi Secretário de Estado de Bush filho entre 2001 e 2005.

Arrependeu-se, mais tarde, por ter defendido na ONU a tese (mentirosa) das armas de destruição maciça para avalizar a intervenção de 2003, que depôs Saddam (viria a alegar que tinha sido ludibriado).

Passou de republicano moderado para um apoio público a todos os candidatos presidenciais democratas desde Obama 2008 (apoiou também depois Hillary 2016 e Biden 2020).

Era visto na direita clássica americana (ou o que ainda restará dela) como uma espécie em vias de extinção (na linha, um pouco, da de John McCain, falecido em agosto de 2018): uma junção de patriotismo militar, conservadorismo "soft" mas uma clara recusa da deriva populista e ultranacionalista que o Partido Republicano enfrentou desde os anos Obama, com o Tea Party, e levada ao paroxismo com a experiência lamentável, mas semivitoriosa (triunfo em 2016, derrota em 2020) de Donald Trump.

MOLDOU A POLÍTICA EXTERNA DAS ADMINISTRAÇÕES REPUBLICANAS PRÉ-TRUMP

O General Powell fez parte das administrações dos três Presidentes republicanos pré-Donald Trump: Ronald Reagan, George Bush pai, George Bush filho.

Moldou a política externa republicana dos últimos anos do Século 20 e dos primeiros anos do Século 21.

Militar distinto e respeitado, em vários aspetos pioneiro, Colin Luther Powell nasceu a 5 de abril de 1937, em Nova Iorque. Filho de imigrantes jamaicanos, cresceu no South Bronx. Estudou em escolas e universidades nova-iorquinas, foi soldado profissional durante 35 anos, combateu no Vietname. Atingiu o generalato de quatro estrelas em 1989, já depois de ter servido o Presidente Reagan como Conselheiro de Segurança Nacional (primeiro negro a assumir a função, numa época, finais dos anos 80, em que a presença dos negros na administração americana era quase nula).

O TRIUNFO MILITAR DE 1991

O êxito militar da primeira guerra do Golfo, em que Bush pai forçou Saddam a retirar do Kuwait, fez do General Colin Powell uma estrela nacional. Pelo início dos anos 90, era uma das figuras com maior taxa de aprovação, nos EUA, tanto nos meios políticos como militares.

Greg Gibson

Essa dupla faceta (militar competente com uma forte componente diplomática que lhe conferia valor político apreciável) lançou-o para uma possível candidatura presidencial, que nunca viria a tentar.

Primeiro do lado republicano, mais tarde no campo democrata, Colin Powell foi, em várias fases da política americana, um nome desejado.

Fez história como primeiro negro a chefiar o Departamento de Estado (mandato 2001-2005, presidência George W. Bush), mas, numa daquelas ironias em que a alta política é pródiga, esse período correspondeu também ao único momento de sombra que mancha o seu percurso notável.

Na ONU, foi a cara e a voz da Administração norte-americana para defender o caso, errado e mentiroso, das armas de destruição maciça para sustentar a invasão de 2003, que viria a depor Saddam.

Mais tarde, posto perante a evidência da mentira, viria a admitir a mancha, alegando que foi enganado, uma espécie de “vítima útil”, uma pomba ao serviço da predominância dos falcões neocons, que passaram a influenciar a Casa Branca pós 11 de Setembro de 2001.

A MANCHA NA ONU E A VIRAGEM PARA OS DEMOCRATAS

O episódio, grave no desenrolar do que viria a ser a sucessão de falhanços da política externa americana, sobretudo no Médio Oriente, nas últimas duas décadas, terá acelerado o “shift” político que Colin Powell viria a fazer: a partir de 2008, apoiou sempre os candidatos presidenciais democratas (Obama contra o seu amigo John McCain; Obama contra Romney; Hillary contra Trump; Biden contra Trump).

MARY ALTAFFER

"Temos uma Constituição. E temos que seguir essa Constituição. E o presidente afastou-se dela”, comentou Powell, em 2020, para explicar a preferência por Biden contra Trump. Viria a discursar na Convenção Democrata que que selou a nomeação de Joe Biden – chegou a estar na lista de possíveis escolhas para a Administração Biden (Departamento de Estado ou Defesa), mas tal não viria a concretizar-se.

Na noite de 6 de janeiro, quando da inominável invasão do Capitólio perpetrada por apoiantes de Donald Trump, em tentativa desesperada de evitar a confirmação do triunfo eleitoral de Joe Biden, Colin Powell observou, preocupado:Já não me considero republicano. Sou apenas um cidadão que votou republicano e democrata ao longo da minha vida. Agora, estou apenas atento ao que se passa no meu país, sem me preocupar com partidos."

Depois do desaparecimento de John McCain, será justo chamar a Colin Powell “o último republicano moderado”. Vai fazer imensa falta.

A página de Germano Almeida

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