As autoridades estão a tentar várias estratégias para incentivar a vacinação. Algumas, já existem noutros países, como a proibição do uso de transportes públicos para os não vacinados. Outras, são mais originais, como a possibilidade de ser vacinado numa igreja ou a obtenção de um voucher de €30 quando se toma as duas doses.
A Ucrânia é um dos países europeus com menor taxa de vacinação. Nesta altura, estarão totalmente inoculados 24,8% do total de 44 milhões de pessoas. E, neste número, estão incluídos os milhares de ucranianos que pagaram pelos certificados de vacinação, mas que não receberam vacina nenhuma. Ou seja, têm certificados falsos. Muitos, impossíveis de detetar.
Funciona da seguinte forma: sabendo eu que o médico X ou Y é corrompível, basta-me chegar ao gabinete dele e confirmar o valor - que difere conforme a vacina que quero "tomar", sendo a da Pfizer a mais cara, ronda os 80 euros, e a da Sinovac a mais acessível, estando nos 16 euros. Depois, o médico insere os meus dados no sistema e eu passo a ser contada como vacinada.
Isto não faz sentido nenhum, quando olhado com os olhos de fora. Principalmente com os olhos de alguém que está em Portugal, onde os níveis de confiança nas autoridades são elevados e as informações falsas, apesar de existirem, são minimamente controladas.
Apenas 9% dos ucranianos confiam no Governo e 91% achavam que a classe política é corrupta
Mas, num país que obteve a independência há 30 anos - estando, por isso, ainda a recuperar a identidade nacional - e que enfrenta um conflito armado no Leste há sete anos, estas questões são abordadas de uma forma diferente.
A confiança nas autoridades é baixíssima. Há dois anos saiu um estudo que indicava que apenas 9% dos ucranianos confiam no Governo e que 91% achavam que a classe política é corrupta.
Há várias razões para isso e uma delas é incontornável: a Rússia. O país vizinho, com quem a Ucrânia não partilha uma história muito feliz, tem conseguido difundir várias mensagens de propaganda que quebram os níveis de confiança, incluindo na questão das vacinas.
Entre 2020 e 2021 foram detetados milhares de informações falsas provenientes do outro lado da fronteira de leste que se tornaram virais nas redes sociais.
Marya Sahaydak, uma das especialistas do Centro de Comunicações Estratégicas e de Segurança da Informação da Ucrânia, em declarações aos jornalistas, enumerou as mais populares:
- "Covid-19 é uma mentira. As autoridades querem é colocar-nos um chip para nos controlar"
- "As reações às vacinas ocidentais são muito piores do que ter Covid-9"
- "A vacina provoca mutações no ADN e nem os próprios médicos a tomam"
- "A Ucrânia não é capaz de proteger os seus cidadãos"
As três primeiras são direcionados também para a Índia, a América Latina e os Estados Unidos. A última, naturalmente, é centralizada no território ucraniano.
O curioso é que na Rússia, as pessoas que exportam esta propaganda, são as mesmas que "em casa", criticam os antivacinas, já que o objetivo interno é, logicamente, vacinar o maior número de russos.
A propaganda russa
Para quê isto tudo?
Ora, é uma questão de jogo político, infelizmente. A propaganda russa, ao mesmo tempo que faz duvidar das vacinas "dos estrangeiros", enaltece a "Sputnik V", vacina que não é administrada na Ucrânia, como seria de esperar.
Multiplicam a narrativa de que só a vacina russa é que é capaz de dar conta do recado e que os países que não a aceitam são, simplesmente, russófobos. Para algumas pessoas na Ucrânia, que têm uma certa nostalgia dos tempos soviéticos isto resulta.
O problema, é que a juntar ao "inimigo externo", a classe política ucraniana não está a saber lidar com a situação. Por vezes, parece que eles próprios caem nas redes de desinformação. No início do processo de vacinação no país, nos primeiros dias de março desde ano, o ex-Presidente Petro Poroshenko, foi um dos primeiros a criticar as vacinas. Disse, de boca cheia, que um médico lhe confidenciou que as pessoas não se querem vacinar porque a Ucrânia recebeu "vacinas de m*rda". Claro que, entretanto, tentou remediar a situação, mas não são coisas que se esperam ouvir de um ex-líder na nação.
Outro problema, muitas vezes mencionado pelos ucranianos com quem falo, é a questão do armazenamento das vacinas. Não sei bem de onde é que surge este mito (espero que seja mito), mas o certo é que as pessoas acham que as autoridades de saúde não são capazes de garantir as condições necessárias para a conservação das vacinas, o que coloca em causa a sua eficácia.
Estratégias de vacinação curiosas
O governo ucraniano tem agora várias estratégias de vacinação curiosas, nomeadamente para quem obteve um certificado de vacinação falso, mas que se arrependeu. Há distritos onde existe a possibilidade da vacinação anónima. As pessoas não precisam de admitir que obtiveram o certificado falso, nem têm sequer que dizer o nome, basta sentarem-se e levarem a vacina.
Há também a possibilidade de se ser vacinado numa igreja. A Ucrânia é um país muito religioso e este passo pode influenciar a vontade de as pessoas se inocularem. Outra tentativa de motivar as pessoas é o pagamento de dinheiro: foi anunciado, recentemente, que as pessoas que levarem a vacina, vão receber um voucher de €30 para gastar em ginásios, espetáculos culturais, museus ou viagens de avião dentro do país.
As estratégias lá vão aparecendo, mostrando a vontade do Governo de Volodymyr Zelensky de controlar a pandemia. Mas não me parece que serão suficientes. É preciso criar confiança na vacina e nas autoridades de saúde. Lutar contra a corrupção interna. Fazer com que seja impossível os médicos passarem certificados falsos, combater a propaganda russa e a desinformação e ter uma linguagem unificada dentro da própria classe política, não permitindo que bacoradas como a do Poroshenko voltem a acontecer.

