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A Tragédia dos Comuns: uma caixa de chocolates e o fim do mundo

Opinião

A Tragédia dos Comuns: uma caixa de chocolates e o fim do mundo
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A opinião de Mónica Ribau. São os recursos comuns que mostram como o comportamento humano pode dar cabo disto tudo. E disto, fala-se do que a natureza nos dá todos os dias – os recursos. A sociedade que floresce em torno deles.

O plano era fazer uma entrada colossal. Tinham confiado em mim, e tinha de conquistar a plateia. Três minutinhos. Um pitch. Precisava de uma performance que conseguisse maravilhar a assistência com os meus dotes de eloquência, heurística e empatia divina. Na prática, implorar pela atenção do maior número de miúdos, que se passeasse pelo Pavilhão do Conhecimento (miúdos e, atenção, pais incluídos), na Noite Europeia dos Investigadores. Precisava de saber como competir com palavras contra um jardim de engenhocas repletas de cheiros, cores, sons e texturas - que a mim própria me faziam vaguear de interesse, distraindo-me do próprio guião que estava a escrever.

Entrei com a maior e mais vistosa caixa de chocolates que encontrei

Recorri às melhores fontes bibliográficas, autores ilustres, dicas do Arte da Guerra, do Sun Tzu. Elaborei um plano de comunicação astuto, maduro e intelectual. E, no fim, após infinito tempo de ponderação, decidi: entrei com a maior e mais vistosa caixa de chocolates que encontrei, e prometi que quem ficasse até ao fim podia comer um. (Dignidade? Prefiro falar de eficácia, quando falo deste episódio... e de como conquistei a plateia pelo conhecimento... – chocolates à parte – e já voltamos aqui).

A caixa de chocolates e a promessa tiveram o seu efeito (não é à toa que a promessa da recompensa final é o alicerce de tantas organizações de devotos, bem sucedidas). Comecei por explicar à plateia - que até era jeitosinha - que externalidades, benefícios líquidos e receitas marginais eram palavras que faziam parecer a economia complicada. Mas, mais do que difícil, a economia era conhecida por ser vilã, porque o planeta terra está a esgotar recursos. Porque a desigualdade entre pobres e ricos aumenta cada vez mais. Porque eu queria ser mais saudável mas esses economistas querem sempre mais. E para hoje, sem pensar nas consequências do amanhã. E depois perguntei, com naturalidade, se afinal um modelo económico não é mais, senão, o espelho do nosso próprio comportamento. Um comportamento exponencial, que cresce cada vez mais rápido até onde pode – sem saber quando parar. Na civilização ocidental, pelo menos.

Garrett Hardin defendeu que sim – que assim era o nosso comportamento – e chamou-lhe a “Tragédia dos Comuns”. Numa das obras mais citadas das ciências e humanidades no século XX, o ecologista condenou-nos, e bastaram seis páginas para isso, a um destino cruel - porque, afinal, sempre que temos livre acesso a um recurso qualquer, sobre-exploramo-lo até o destruir.

Cavalgando pela trufa de caramelo, ou o praliné de avelã...

A caixa de chocolates, por exemplo... se eu a pusesse disponível para todos, e garantisse que a reposição era infinita, todos poderiam comer à vontade. Porque o acesso é livre, e haveria chocolates para todos. Esta caixa de chocolates “ilimitada” corresponderia a um “bem público”. Mas se eu dissesse, por exemplo, que só tenho esta caixa para hoje, e preciso que sobrem dois chocolates no fim do dia para conseguir ter uma caixa nova para amanhã… como reagiria a multidão? Sendo que continuaria a ter acesso para comer, apesar de saber que os chocolates se acabariam. Cavalgando pela trufa de caramelo, ou o praliné de avelã... os sujeitos ver-se-iam como parceiros, para gerir recurso – e no fim deixar os dois chocolates necessários à reposição – ou iriam comportar-se como simples rivais? Porque, embora o recurso pudesse esgotar, quem chegasse primeiro poderia servir-se à vontade, e disputar do que a economia chama de “recurso comum”.

Os últimos dois chocolates seriam comidos

E são os recursos comuns que mostram como o comportamento humano pode dar cabo disto tudo. E disto, fala-se do que a natureza nos dá todos os dias – os recursos. A sociedade que floresce em torno deles.

Para Hardin, todos se apressariam, à maior velocidade, a ir buscar o maior número de chocolates possível. Ele apostaria inclusive que, os últimos dois chocolates (necessários para conseguir trocar por uma nova caixa, garantindo assim a reposição) seriam comidos. Talvez porque – e não falando de chocolates, mas de outras coisas – os colonos europeus quase extinguiram o bisonte norte-americano, por caçarem sem parar. Ou os agricultores na idade média destruíram as pastagens comuns, porque cada um queria colocar lá mais vacas suas do que o vizinho. E muitos mais exemplos são fáceis de descrever atualmente, se Garrett Hardin vivesse no ano de 2021.

Afinal, e o que a economia faz, é explicar que nestes casos um agente (alguém) toma uma decisão que não suporta todos os custos ou benefícios que resultam da sua escolha. Como alguém que não podia comer todos os chocolates mas comeu, e que não ficou de castigo por isso. Neste caso, o economista diz que uma externalidade causou uma falha de mercado, ou seja, mais ninguém pode comer... porque um safado (ou muitos safados) comeram tudo o que havia – e não deixaram espaço para que pudesse haver reposição.

Assim, se se quisesse salvar os chocolates (ou seja, geri-los de forma sustentável – que quer dizer, de forma a não acabarem) deveria dar-se uma senha a cada um, ou definir que, quem comesse mais, pagaria com uma contrapartida – (expliquei à plateia que poderia ser ajudar a limpar o Pavilhão do Conhecimento, depois da atividade acabar, por exemplo). Que é o que as medidas de privatização ou regulação externa fazem. Como pôr os agricultores da idade média a pagar mais em função do número de vaquinhas suas na pastagem ou os caçadores pelos bisontes que matavam.

Já posso comer o meu chocolate?

Mas é triste, não é? Não sermos capazes de gerir um bem comum por nós mesmos, em comunidade? Na saga de poder comer um chocolate no fim, tal qual eu prometi à minha audiência, e perante a promessa de que tudo ficará bem, continuamos a crescer, sem parar. A deixarmo-nos comprar deliberadamente, por uma promessa de que vamos ter um chocolate no fim. E a deixarmo-nos ir na conversa exatamente por isso, e não tanto porque o resto interesse. A promessa é pouco digna por parte de quem a faz, mas eficaz. A minha caixa de chocolates comprovou-o, não fosse a primeira pergunta do público ter sido, mal o pitch acabou – Já posso comer o meu chocolate?

As campanhas de green washing prometem-nos futuros pintados a verde. Soluções maravilhosas que nos levam à salvação no mundo em cataclismo. Nunca a morte e a eternidade viveram tão de perto no nosso vocabulário. Não haverá uma caixa de chocolates infinita para todos. Haverá sempre explorações de novas matérias primas. A descarbonização da economia não é salvação do mundo. Pode ser uma boa oportunidade para novos investimentos e uma revolução sem precedentes, depois da revolução industrial. A corrida à mineração de lítio, é só um exemplo de que a tragédia dos comuns continua atualizadíssima. Que a gestão de recursos não passa apenas pela inovação e tecnologia, que nos fazem atuar da mesma forma que os caçadores de bisontes e os agricultores e pastores, à espera do próximo recurso comum para apanhar, antes que todos os outros.

Para grande felicidade e responsabilidade nossa, o prémio Nobel da Economia em 2009 desconstruiu a tragédia dos comuns e tentou salvar-nos do destino. Elinor Ostrom estudou como a população do sul da Califórnia gere a água com sucesso, que é um recurso escasso mas de livre acesso. Vejamos a Wikipédia, outro exemplo, onde cada colaborador contribui dentro de normas específicas mas não responde a uma chefia, sendo regulado pelos próprios utilizadores e disseminado por uma licença de uso livre. Se sabemos que é importante que todos comam chocolate, o combinado é unirmo-nos na gestão desse recurso.

Não há almoços grátis na natureza, por muito que a publicidade goste de anunciar

O exigente desafio que se coloca à comunicação de ciência, e ao papel da incerteza em democracia, exige que se discuta, sem rodeios, se o objetivo central do discurso científico é (ou deveria ser), descrever e explicar fatos e descobertas, enquanto o objetivo do discurso político é convencer alguém a agir. Mike Hulme referia, em “Why we disagree about climate change” (2009), que mais do que podemos fazer pelas alterações climáticas, questionemo-nos sobre o que podem as alterações climáticas fazer por nós. A pertinência de comunicar resultados científicos rigorosos, sem ignorar as incertezas, e a necessidade de amadurecer a interdisciplinaridade junto da esfera púbica é essencial. A cultura científica, a literacia mediática e o Perfil do Aluno, (que refere concisamente os desafios da complexidade) são os pontos de partida base para aprender a comunicar com mais transparência e solidez científica, bem como inspirar confiança de forma a estimular o envolvimento do público e de outros atores. Não há almoços grátis na natureza, por muito que a publicidade goste de anunciar, com caixas de chocolates deliciosas na mão para reunir plateia de volta da mensagem.

Portanto, ao invés de buscar a certeza onde ela não existe, e prometer caixas de chocolates, é melhor aprendermos a valorizar a incerteza e aprender a viver e lidar com ela.

A educação pode desempenhar um papel importante aqui. Mas é necessária uma grande mudança da prática educacional atual de fornecer respostas de sim ou não, e passar para um paradigma que educaria as pessoas a compreender e lidar com o risco e a incerteza de tomar cada uma das suas decisões (Kampourakis and McCain, 2019). Por isso, Garrett Hardin é um aviso. Se não queremos acabar condenados, temos de pensar a longo prazo e em comunidade.

O nobel de Ostrom prova que é possível. Porque a economia não é o problema, mas sim a ferramenta ideal para ajudar a reescrever a tragédia. Contudo, não há promessas de paraíso. E embora saiba que a minha promessa de dar chocolates resultou à brava, tenho comigo a pequena esperança que aquela plateia tenha ouvido mais qualquer coisa. Porque depois do chocolate acabar, houve quem tenha perguntado quem é esse Tomas Hardin, e porque mataram assim os bisontes todos. E sim, todas as escolhas são nossas, e quem dita o futuro somos nós. Desde o primeiro chocolate.

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