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Sociedade do espetáculo: das guerras (ir)reais aos óscares fora do guião 

A vida está cada vez mais espetacularizada. Seja na violência da guerra, nos números da pandemia, na performance nos debates políticos, ou no entretenimento nos reality-shows e, claro, na própria vida privada nas redes sociais. A sociedade é uma plateia passiva perante uma realidade dúbia e fabricada.

Sociedade do espetáculo: das guerras (ir)reais aos óscares fora do guião 

Há quem queira atribuir, em tom jocoso, o próximo Nobel da Medicina a Vladimir Putin, não fosse o facto de que, com a invasão da Ucrânia, a pandemia tenha quase desaparecido da cobertura mediática. Entre a produção intensiva de conteúdos sobre o conflito, apenas a estalada de Will Smith a Chris Rock teve força suficiente para tomar de assalto e sacudir, novamente, a esfera pública a nível global.

Ironicamente, ao mesmo tempo que a humanidade começava a acreditar que uma terceira guerra mundial podia tornar-se realidade (outrora reservada aos filmes), muitos interpretaram o impulso genuíno de um ator, a ser ele próprio, como a performance de um guião. E, assim como o início da Guerra fez com que a cobertura mediática da pandemia diminuisse drasticamente, a mesma sociedade do espetáculo fez com que o incidente com Will Smith provocasse uma procura exponencial pelos shows de Chris Rock.

Do confronto destes dois exemplos fica a fácil conclusão do quão rápido se avança para uma sociedade onde a ausência de verdade e espírito crítico ameaça e, por consequinte, se extingue a fronteira entre realidade e ficção. Afinal, a vida está cada vez mais espetacularizada. Seja na violência da guerra, nos números da pandemia, na performance nos debates políticos, ou no entretenimento nos reality-shows e, claro, na própria vida privada nas redes sociais. A sociedade é uma plateia passiva perante uma realidade dúbia e fabricada.

Da ficção à realidade: fake news e propaganda

Atualmente, o cenário revela-se profético quando analisamos a guerra de desinformação e propaganda travadas nas redes sociais, e a incapacidade de distinguir ficção de realidade.

A BBC destaca vários cenários. Foram usadas imagens de uma série de televisão ucraniana (Contamin, de 2020) – de um soldado a ser “maquilhado” com feridas – para levar a crer que a Guerra é um mito.

Um vídeo no Twitter usou imagens de um protesto contra as alterações climáticas – que mostra um repórter entre sacos de cadáveres de onde, de repente, saem pessoas – para afirmar que a Guerra é propaganda ocidental.

Excertos de um filme de ficção científica (Invasion of Planet Earth, de 2013) – que mostra centenas de pessoas a correr aos gritos alegadamente na Ucrânia – e cenas de um videojogo (Arma3) – onde se vê soldados russos a abater um tanque russo – são utilizados fora do contexto para sustentar, com ficção, propaganda que se quer ver legitimada.

A este pequeno conjunto de exemplos acrescenta-se, claro, o famoso falso ‘tweet’ da CNN, partilhado por Joe Rogan com os seus 14 milhões de seguidores, que mostra uma imagem de Steve Seagal a lutar com os russos, perto de Kiev.

Os exemplos anteriores são na maioria de campanha russa, contudo, também existe desinformação favorável à Ucrânia, e é normal, como afirma o investigador do CIES-ISCTE Miguel Crespo, que seja a mais partilhada em Portugal. Sem qualquer intenção de manipulação, as pessoas acabam por partilhar mais conteúdos a favor de Kiev, sem verificar se são verdadeiros. Afinal dá vontade, não tenha o antigo presidente da Rússia e vice-chefe do Conselho de Segurança, Dmitri Medvedev, defendido o desaparecimento da Ucrânia e um futuro radioso “onde pode finalmente criar uma Eurásia aberta de Lisboa a Vladivostoque”. Mais uma vez, e resgatando o conceito de discurso biofóbico/biófilo já explicado num anterior artigo, o discurso dogmático emerge de visões absolutas, dicotomizando a realidade e misturando-a com ficção.

O investigador Christopher Auretta (2017: 425) dá-nos, como exemplo do discurso biofóbico, um trecho da personagem Charlot, no filme “O Grande Ditador” (1940) com Charlie Chaplin: “Não nasci para ser fraco. Nasci para realizar meu sonho, o nosso sonho. Nasci para comandar uma cidadania mobilizada para alcançar a grandeza comigo. Vivemos, irmãos e irmãs, em um período de grande decadência. (…) É hora de recuperar o que aqueles traidores que se agacham nas sombras nos roubaram ( …) Garanto o poder (…) peço humildemente a vossa ajuda (…) É simples, sim, e embora exija, e exigirá, de nós grandes sacrifícios no futuro, vocês sabem que estou certo , pois minha razão é a vossa!”

Nietzsche salientava, na famosa obra Anti-Cristo (1895), que é justamente devido a esta capacidade de entreter o infeliz que a esperança surgia entre os gregos como o mal dos males.

Da realidade à ficção: limites à liberdade de expressão

Já por outro lado, e numa visão totalmente oposta, surgem o humor e o sarcasmo, a literatura e a dialética, que internalizam o papel da incerteza, do erro, das limitações e limites da condição humana existentes na vida, com afirmava o sociólogo Edgar Mourin, em Introdução ao Pensamento Complexo (1991). Discursos biófilos refletem sobre a complexidade, promovem o pensamento crítico e o equilíbrio entre extremos, expressam ideias sem idolatrar e não têm vilões puros e heróis completos.

Na idade média, por exemplo, os chamados bobos da corte não eram bobos de todo. Estes plebeus faziam parte do grupo de artistas sustentado pelas cortes, e entretinham a realeza com discursos que ninguém mais ousava dizer. Em peças como “Rei Lear e A Noite de Reis”, de Shakespeare, o bobo é a personagem mais esperta, e tem tal liberdade que chega a criticar os próprios reis com comentários ácidos, em pleno teocentrismo dos séculos XIV e XV. Contudo, em 2022, questiona-se o papel destes bobos da corte na sociedade. Afinal, muita tinta se fez correr sobre os limites da liberdade de expressão após Will Smith se levantar, em direto, para dar uma estalada ao humorista Chris Rock por causa de uma piada sobre a doença da sua esposa. E, surpreendentemente, não foi unânime entre a esfera pública que o uso de violência é inapropiado, independentemente do motivo. Em vez disso, discutiu-se bastante se o conteúdo da piada era suficiente ou não para justificar a indignação do ator, e o seu comportamento de censura.

É que, em conversa com o meu namorado, comentei que Chris Rock e Will Smith tinham combinado o tabefe nos óscares em segredo. Afinal de contas, divididas as receitas da avalanche mediática do evento – que já valeram muitos milhares de dólares extra a Chris Rock – não falta lucro para que se compre uma peruca de jeito a Jada que, de tão incomodada se fez demonstrar perante a piada à sua condição, provavelmente aceitaria o presente de bom grado. Apesar de nos rirmos, concluimos rapidamente – eu e o meu namorado – que a piada não era para se partilhar em todos os locais, não quisesse eu, também, apanhar uma estalada. Partilho-a no entanto aqui, e aceito e respeito todos os leitores que não se deleitem com o meu humor. Contudo, não consigo tolerar que a indignação possa servir de desculpa e justificação para qualquer tipo de ação bélica contra mim, quando nem na” Idade das Trevas” o rei tocava nos profissionais que, literalmente, diziam mal dele na corte. Afinal, como George Orwell afirmou, “‘se a liberdade significa algo, então esse algo é o direito de poder dizer às pessoas aquilo que elas não querem ouvir”. E o humor está cá para isso. Para mostrar o quão diferentes e limitados somos, e que rir é a melhor forma de crescer e evoluir com a nossa condição.

A propósito, também no filme “O Grande Ditador” (1640) está representado o discurso biófilo, desta vez pela boca da personagem do Barbeiro Judeu, que diz: “Desconfiamos da ordem e estabilidade que o ditador fanático promete (…) daqueles que massificam a mente e fazem do ser humano um ser de manada, que promete a ordem mas mata a mudança. A mudança é uma das verdades da humanidade! (…) A humanidade é (…) um trabalho em andamento. (…) comunicação sobre o monólogo (…) questionar e duvidar. (…) para crescer, o ser humano deve imaginar e entender (…) que não é fácil, mas é indispensável! (…) aprender a pensar porque o ato de pensar é arriscado, mas também é aventura e liberdade!”

Nem ficção nem realidade: apenas espetáculo

Em 1967, e precisamente um ano antes dos movimentos de maio de 1968, o filósofo e diretor de cinema Guy Debord lançava a obraSociedade do Espetáculo” (1967), que analisava a sociedade moderna de consumo e salientava que “nunca a tirania das imagens e a submissão alienante ao império dos media foram tão fortes como agora. Nunca os profissionais do espetáculo tiveram tanto poder: invadiram todas as fronteiras e conquistaram todos os domínios – da arte à economia, da vida quotidiana à política – passando a organizar de forma consciente e sistemática o império da passividade moderna.” O editor Jean-Jacques Pauvert destacou que Debord, que se definia como “doutor em nada”, não havia antecipado 1968, mas sim o século XXI.

A questão é que, se outrora o livro foi substituido pela televisão, agora e hoje é a televisão quem sofre para não se ver incinerada pelos algoritmos, que se materializam em conteúdos nas plataformas de streaming e redes sociais. Debord, que forneceu a crítica mais aguda à sociedade da época – organizada em torno da falsificação da vida em geral – podia muito bem não se estar a referir à televisão, mas sim à sociedade do espetáculo atual.

E para quem quiser mais, fica o discurso final de Charlie Chaplin, o filme onde guerra e humor são co-protagonistas. E há guerras (ir)reais, e o guião se mistura com a realidade.

– Não era suposto estares a fazer os trabalhos de casa?

– Estou muito seguro de que o ensaio é opcional.

– O negacionismo permanece eterno.

– Eu não sou negacionista. Sou apenas muito seletivo com a realidade que aceito.