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A ideia de sustentabilidade: tenho vinte e tal biquinis amigos do ambiente 

06.05.2022 20:04

Se outrora eu, adolescente, me habituei a fazer os meus verões com um ou dois biquínis – a compra de um novo equivalia a que um antigo se estragasse (e atenção, que vivo a dez minutos da praia) – agora é comum que adolescentes e adultos colecionem biquinis e fatos de banho como quem guarda meias numa gaveta.

Com a chegada da primavera e a promessa do verão, a oferta no retalho renova-se. Novos biquinis e fatos de banho vestem os manequins nas montras, e as lojas online multiplicam-se no mercado digital, que cresce exponencialmente. As páginas nas redes sociais catapultam marcas independentes, publicitadas pelas chamadas Influencers, que partilham as novas coleções – algumas da sua própria autoria, e outras que lhes são oferecidas ou pagas para serem promovidas. Independentemente do formato de mercado, a sustentabilidade é maioritariamente destacada, seja através de etiquetas ”eco” ou secções dedicadas ao efeito nos sites. A referência ao uso de tecidos que reaproveitam lixo marinho, embalamento com caixas de material reciclado ou produção nacional, que diminui a pegada ambiental, são algumas das estratégias que almejam responder às preocupações ambientais atuais – tão discutidas e destacadas no passado Dia da Terra, celebrado a 22 de abril.

Contudo, simultaneamente, emerge uma questão que contrasta com este conceito novo de “qualidade”.

Se outrora eu, adolescente, me habituei a fazer os meus verões com um ou dois biquínis – a compra de um novo equivalia a que um antigo se estragasse (e atenção, que vivo a dez minutos da praia) – agora é comum que adolescentes e adultos colecionem biquinis e fatos de banho como quem guarda meias numa gaveta. Se antes escolher “O biquini” era extremamente difícil – não fosse o sucesso do verão depender disso – atualmente, o mais importante é, muitas vezes, evitar repetir o modelo da foto anterior. Afinal, não vá o uso e abuso do outfit ser interpretado como, à semelhança de um casamento, falta de comprometimento para com o evento (o que pode levar a consequências sociais profundas). Assim sendo, cada aparição deve almejar parecer uma completa e nova aventura, registada social e fotograficamente. E a única forma de o fazer de consciência tranquila é com a compra de uma nova ideia – a de que, como uma colega minha tão bem resumiu em tom de justificação – “tenho vinte e tal biquinis, mas são todos amigos do ambiente.”

A dissonância cognitiva associada, e que relembra o caso de Kon Mari, (influencer mundialmente conhecida pelas suas dicas minimalistas sobre como viver com o mínimo e indispensável, e que agora faz da venda de peças de decoração o seu negócio milionário) é máxima . Os exemplos expõem e denunciam, de forma simples e quase absurda, uma civilização altamente desenvolvida a nível tecnológico, mas à beira de um colapso existencial. Afinal, a modernidade já mostrou que há tecnologia para dar e, principalmente, vender, mas continua baseada no símbolo metafísico do infinito (∞) e no crescimento exponencial (Spengler, 1918). A crise da pós-modernidade revela-se mais profunda, e exige uma viagem às entranhas da cultura: as ideias, os valores e os princípios.

Desde os arquétipos da música e da filosofia, às formas do dinheiro, matemática, política, ciência e culto da morte, a nossa “pequena aldeia” desenvolveu-se em volta do objetivo de crescer e viver para sempre – o que se expressa, de forma inata, em todos os atos do povo. Com berço na civilização ocidental no Mediaterrâneo, na antiga Grécia, há 3000 A.C., a Idade Antiga sucumbiu com a queda do império romano, em aproximadamente 476 DC. E, após quase dez séculos de Idade Média (conhecida informalmente por Idade das Trevas, devido ao teocentrismo dogmático da altura), o Renascimento resgatou os valores estruturais da cultura greco-romana, o que abriu portas à Idade Moderna. Contudo, o desafio da sociedade atual está aqui – uma sociedade que se quer sustentável, mas que não pode parar de crescer num planeta com recursos finitos.

Como Fernando Pessoa resume, deliciosamente, nas estrofes do Quinto Império, em “A Mensagem” (1934):

“Grécia, Roma, Cristandade,

Europa – os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?”

Analisaremos a Geosfera, do tempo em que o planeta se formou, depois uma Biosfera, trazida pela complexidade do ser orgânico e surgimento da vida, e de seguida… a Noosfera, o mundo das ideias.

O início: da Geosfera à Biosfera

A Geosfera nasce do próprio nascimento do planeta. Resultado de diversas colisões de astros que vaguearam pelo universo, há 4,56 milhares de milhão de anos. Inicialmente envolto em gás, oriundo das intensas explosões vulcânicas, apenas ganhou crosta e água em estado líquido cerca de 0,56 milhares de milhão de anos depois, com a diminuição da temperatura. Passaram mais algumas centenas de milhões de anos até se formar vida, inicialmente pelas primeiras células procariontes, e depois nas algas anaeróbicas que produziram oxigénio e tornaram possível que seres mais complexos se desenvolvessem. Até que, há cerca de 14 milhões de anos, os primeiros hominídeos disseram “olá” ao mundo, e muito se viveu no planeta Terra. Só há há 350 mil anos que o Homo sapiens caminhava na superfície da Terra, e centenas de comunidades e culturas nasceram, cresceram e sucumbiram, tal qual a vida de milhares de milhão de espécies, até ao surgimeto da atormentada versão do ser humano atual. A história da nossa civilização, como vimos atrás, surge apenas em 350 AC.

A palavra biosfera surgiu através do geólogo austríaco Eduard SüX, que a usou de passagem num livro sobre a formação dos Alpes. Apenas em 1911, quando SüX e o mineralogista e geoquímico russo-ucraniano Vladimir Vernadsky se conhecem, é que a palavra passa a incluir o facto de que a biosfera está conectada no espaço e no tempo, e que todos os seres vivos estão relacionados uns com os outros através de processos químico e físicos e por evolução. Mais importante, entende-se que os processos na biosfera são moldados, em grande medida, pelos seres vivos. Como, por exemplo, a fotossíntese que influencia o teor de oxigénio da atmosfera.

A transição: o Antropoceno e a Ecoesfera

Tradicionalmente, os cientistas consideravam como sistema terrestre todos os processos físico-químicos ocorridos no planeta, que moldaram oceanos e continentes, formaram rochas, causaram terremotos… por aí fora… e a influência dos seres humanos era considerada insignificante. Contudo, o debate sobre as alterações climáticas e a sustentabilidade mudou a situação, e inúmeros investigadores propuseram um conceito em que o sistema terrestre fosse visto como um sistema complexo, incluindo os processos físicos, químicos, biológicos, sociais e mentais. A evolução passava assim a ser mais do um sistema puramente físico-químico (e depois biogeoquímico), e começava a incluir os seres humanos e as suas interações. Neste sentido, surgiu a Ecosfera, geralmente entendida como o espaço habitado pelos seres vivos, que incluía os organismos vivos (biosfera) e os seus habitats.

Se, até ao momento, as épocas geológicas tinham sido definidas como períodos de milhões de anos – sendo a última o Holoceno (definida para começar há cerca de 10.000 anos) – a prática foi interrompida com a introdução do conceito de Antropoceno. A estruturação tradicional da linha de tempo geológica foi descontinuada com a intervenção da humanidade, que passou a conseguir controlar a formação do próprio planeta, através da exploração de recursos naturais e aplicação de combustíveis fósseis, durante a Revolução Industrial.

O Quinto Império: A Noosfera

O termo Noosfera, é derivado da raiz grega “nous”, que significa mente. Foi proposto, pela primeira vez, por Teilhard de Chardin, nos inícios do século XX. O geólogo e padre francês teorizou que a mente humana poderia aprender gradualmente a moldar o mundo a uma escala cada vez maior, fora da evolução biológica – e que a matéria orgânica poderia evoluir até às ideias. O conceito foi, posteriormente, desenvolvido pelo mineralogista Vladimir Vernadsky (1945), que conheceu a teoria através do filósofo e matemático Edouard LeRoy.

De acordo com Vernadsky, a Noosfera é o último de muitos estágios na evolução da biosfera na história geológica”. Surge como “evolução emergente” (conceito proposto pelo psicólogo Lloyd Morgan e que contraria Charles Darwin), onde não é preciso herdar características entre gerações biológicas para criar novas realidades. Tal como a matéria física se reorganizou até ao ponto em que partes de si mesma se tornaram nos primeiros organismos vivos, também com o aumento da complexidade desses organismo vivos (como a humanidade) é possível o desenvolvimento de faculdades mentais que permitem novas realidades, através de processos de auto-organização desses sistemas complexos.

A queima de combustíveis fósseis, com a emissão de gases de efeito estufa, é o exemplo mais premente da capacidade do Homem modificar globalmente o ambiente. Mas o controlo do fogo é também um mecanismo de amplificação da ação humana desde os tempos pré-históricos. Tal como a instituição da economia de mercado, que permite aos seres humanos desenvolver padrões globais de divisão do trabalho, de cooperação e competição (como uma comunidade de bactérias).

O conceito de Noosfera também está relacionado ao conceito de Gaia, proposto por Lovelock e Margulis, que retrata a Terra como um sistema complexo e autorregulado, um organismo que mantém condições favoráveis ​​à vida, apesar de uma variedade de distúrbios. A transição da Biosfera para a Noosfera é então o processo pelo qual a humanidade aprende, de forma consciente e responsável, a Ecosfera. Uma ideia retomada de várias formas por autores atuais, interessados ​​em alterações ambientais globais (Jaguer, 2008).

Dia da Terra: a Noosfera e os vinte e tal biquinis

Apesar do termo “sustentabilidade” ser já uma palavra recorrente em qualquer narrativa, os princípios civilizacionais continuam baseados no mesmo paradigma cultural – o de crescimento infinito. Vernadsky exemplifica que a capacidade de pensar levou o Homem a entender e desenvolver a física nuclear, mas que a Segunda Guerra Mundial provou que a humanidade, apesar de descobrir como atuar em escala global, ainda não é capaz de o fazer de forma responsável. A atual ameaça de um terceiro conflito mundial mostra que nada mudou.

Mais do que discutir soluções tecnológicas para atenuar os sintomas, há que discutir ideias – as representações, os símbolos e os mitos englobados pelas noções de cultura e de Noosfera. O cógito cartesiano (“penso, logo existo”) e a lógica aristotélica, que só admitem o verdadeiro ou o falso, continuam presentes no paradigma de simplificação da modernidade, que generaliza, reduz e separa, em disciplinas que não comunicam (Mourin, 2002). A Noosfera, saída das próprias interrogações que tecem a cultura de uma sociedade, instaura a articulação e rompe com a dualidade do século XX, reconhecendo a incerteza e o provisório na cientificidade da ciência, o que implica observar a mesma através dos pensamentos e abstrações (epistemologia e metafísica), que servem de pilares do conhecimento humano, e são frutos do imaginário.

Afinal, as vias de entrada e de saída do sistema neurocerebral (que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior) representam apenas 2% do conjunto, enquanto 98% se referem ao funcionamento interno. O método científico será sempre um discurso de circunstância que não descreve uma constituição definitiva do espírito científico (Bachelard, 1938). Prova do mesmo é o uso da narrativa da sustentabilidade pela economia e as campanhas de publicidade das marcas, que refletem as necessidades, sonhos, desejos, e fantasias que se inflitram na nossa concepção do mundo. Neste caso, o paradoxo entre o desejo de consumir e salvar um planeta.

“Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?”

– Gostava que a minha camisola tivesse um logotipo ou um produto. Uma boa camisa transforma o usuário num cartaz publicitário ambulante! Diz ao mundo que “a minha identidade está tão embrulhada no que compro, que paguei à empresa para promover os produtos dela!”

-Tu admites isso?

Ah, com certeza. Patrocinar produtos é a maneira americana de expressar a individualidade.

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