Rui Pita Perdigão

Cronista SIC Notícias

Mundo

Reforçando resiliência perante multirriscos com física tecnológica de base natural

Olhando à nossa volta, parecemos estar imersos num valente (des)concerto de fenómenos extremos articulado por uma orquestra de multirriscos. Hoje finalmente temos a oportunidade de decifrar a sua partitura e preparar-nos para o que aí vem.

Reforçando resiliência perante multirriscos com física tecnológica de base natural

Perante todo o tipo de tragédias desde tempestades, ondas de calor e de frio, secas e inundações, sismos e vulcões, misturada com turbulência social e escalamento de conflitos geopolíticos, é fácil cair na tentação de pensar que o nosso mundo é um emaranhado desgovernado para o qual não há solução. Que a humanidade está perdida, que caminhamos para o precipício, ou que já nele caímos e nos espetámos.

A noção de que vivemos num mundo complicado, num desconcerto sem conserto, tende a surgir quando se bloqueia a luz da ciência séria e rigorosa com mitos urbanos e profecias de retórica inflamada provenientes de sectores que não acertam no alvo da semana que vem, quanto mais no do futuro distante. O que naturalmente alimenta uma polarização de correntes de desinformação: de um lado, os ativismos porventura bem intencionados mas cientificamente desatualizados. Do outro, os movimentos de contrainformação que ofuscam a percepção dos reais riscos e desafios que pendem sobre a sociedade e o meio ambiente.

Das vãs promessas ao fazer acontecer

Surgem entretanto as promessas ilusórias de soluções simples e radicais para os problemas complexos do nosso mundo, de tal modo que puxar o cobertor radicalmente para um lado acaba por destapar e fragilizar os demais. Em sistemas complexos, não podemos otimizar uma variável sem baralhar tudo o resto. Sendo que tal não acarreta uma complicação insanável, mas tão somente uma complexidade de processos e interações passível de formulação e análise rigorosas.

Por exemplo, em nome de uma descarbonização simplista é fácil cair na tentação de substituir sistemas de energia problemáticos por outros que pela frente agitam orgulhosamente a bandeira da sustentabilidade, mas que por trás acarretam elevados ónus ambientais e sociais, geralmente remetidos para o interior esquecido, longe dos olhares da grande maioria da população. Sacrificando ecossistemas e comunidades rurais para alimentar a voracidade consumista dos centros urbanos.

Todavia, o progresso saudável, sustentável e eficaz não nasce a partir de consumo desenfreado, mas antes a produzir, a criar valor, a fazer acontecer, tomando rigoroso cuidado em não exportar problemas no espaço nem no tempo. De não onerar a terra dos outros, de não onerar o futuro, as gerações vindouras. Não se trata de encolher a economia, de promover retrocesso. Mas de canalizar o consumo para alavancar recursos em vez de os dissipar. Ou seja, passar de um paradigma de consumo dissipativo para um de investimento produtivo, criativo e auto-sustentado.

Suprir necessidades sem puxar o cobertor

Com tal dinâmica produtiva e criativa em mente, em vez de ancorar o progresso na voracidade consumista de uma sociedade dependente na comercialização de serviços vários dos quais assentes em futilidades, recupera-se a dinâmica produtiva de uma sociedade que alavanca recursos em vez de os consumir, que cria em vez de dissipar, que toma as rédeas do destino nas próprias mãos, efetivamente fazendo acontecer. Ancorando o progresso numa dinâmica de trabalho, investimento e criação de valor, onde só se utiliza energia para, em articulação sinergética com a natureza, produzir fontes robustas e sustentáveis de ainda mais energia, de capacidade de gerar trabalho, de criar valor acrescentado para a sociedade e meio ambiente em geral.

É o que faz por exemplo a ruralidade tradicional, forma termodinamicamente robusta, justa e eficaz de por comida na mesa. Onde cada gota de suor realmente tem um propósito edificador para o indivíduo, para a família, para a comunidade.

Ali operam “máquinas” fenomenais como as galinhas, que eficientemente reciclam uma variedade incrível de restos orgânicos, transformando-os em comida nutritiva e deliciosa por um lado, e em fertilizantes naturais de elevada qualidade por outro. Bem como ovelhas e cabras que aparam e aprumam os terrenos dispensando maquinaria agrícola dependente de combustíveis ou baterias. Trabalhando em alta resolução incluindo nos recantos mais recônditos entre o mato e arvoredo. Produzindo lã e alimento precioso enquanto ajudam a reduzir o risco de incêndios rurais. Ajudando a fertilizar as terras de forma natural e eficaz, bem como a propagar sementes por novas zonas de pasto. E, claro está, tesouros da natureza como as plantas, que oferecem espetaculares painéis solares fotoquímicos quânticos, folhas verdejantes, que têm um papel fulcral na captação dos quanta de luz para animar a fotossíntese, processo de valências sobejamente conhecidas, e alavancando o papel das plantas como fontes sustentáveis de energia, alimento, e oxigénio que ainda por cima contribuem para a descarbonização – mas sem onerar ninguém.

É também nesse sentido que vamos desenvolvendo na nossa Física Tecnológica emergente de base natural. Onde os materiais e equipamentos que concebemos e construímos não acarretam ações irreversíveis sobre o meio ambiente, não exportam o custo ambiental para outros locais e outros tempos, mas tomam o cuidado de agir por forma a não só preservar como também reforçar a resiliência do meio natural.

Física tecnológica de base natural

Aqui, não se trata de tecnologia erigida através da irremediável destruição da natureza, mas de desenvolver novos caminhos de tecnologia natural e dos princípios físicos subjacentes, alavancando processos e práticas de criação de valor e vivência saudável que sejam fisicamente consistentes e naturalmente conscientes. Aprender e crescer com a natureza em vez de a expropriar. Trabalhar sinergicamente com a natureza por um bem mútuo em vez de com ela competir, explorar e combater.

Por exemplo, a nossa constelação Meteoceanics QITES contém equipamentos que não produzem lixo espacial, porquanto os materiais inovadores que os compõem têm estrutura orgânica dimensionada para não só resistir às inóspitas condições do Espaço exterior mas também para se irem regenerando em vez de termos de acarretar custos de manutenção e substituição de equipamentos. Em final de vida, reconvertem-se sem deixar rastos irredutíveis, sem prejudicar ninguém.Se fazemos a festa, arrumamos a casa e aproveitamos o que resta. O que no caso da constelação é reabsorvido como recurso para alavancar a próxima geração de equipamentos e projetos, dando continuidade à cadeia de geração de valor sem desperdiçar nada.

A constelação é, portanto, viva, de base natural incluindo os nossos biossensores quânticos. Assim, não precisamos recorrer a equipamentos dispendiosos e lesivos quando de forma relativamente simples e expedita articulamos Física e Biologia de fronteira para produzir tecnologia mais sã, natural e sobretudo mais eficaz para as nossas missões como tomar o pulso quântico ao planeta (Perdigão 2021).

Para a humanidade ter maestria sobre o funcionamento do meio natural ainda há muita ciência por desbravar. É para isso que cá estamos. Aprender a trabalhar com a natureza, com esta navegando de vento em popa, em vez de contra ela marrar teimosamente. Trabalhando mesmo com os fenómenos mais turbulentos e extremos da natureza, pois encerram um filão fenomenal de recursos dinâmicos que ou são bem aproveitados ou acabam inexoravelmente dissipados com o rasto de destruição bem patente sempre que um de tais fenómenos se manifesta perante nós.

Trabalhando com o caos para produzir soluções

Em comunicações anteriores para a SIC Notícias compartilhei-vos o que temos estado a desenvolver no âmbito das ciências e tecnologias da complexidade para abordar desafios que flagelam a sociedade e o meio ambiente. Mas ainda há mais: os nossos sistemas aerogeradores que vivem precisamente dos regimes meteorológicos mais caóticos que não são aproveitados pelas tecnologias eólicas tradicionais. Bem como o nosso sistema de indução, captação e processamento de descargas eletromagnéticas extremas, e.g. relâmpagos, chamando à nossa estrutura uma quantidade fenomenal de energia que de outro modo iria causar danos a outrem. E mesmo o sistema auto sustentado de energia que alimenta os nossos sensores, do fundo do mar à constelação espacial, sem recurso a baterias, painéis ou reatores.

Esses e outros nossos desenvolvimentos em curso têm alavancado recentes esforços colaborativos em decifrar e tirar partido do funcionamento e interação entre os diversos instrumentos da orquestra de multirrisco – nomeadamente os subjacentes à dinâmica complexa que articula fenómenos extraordinariamente caóticos, desastres compostos e coevolutivos como os que mais impactos têm na sociedade e meio ambiente, numa dinâmica de interação multi-escala entre a local e a global.

Independentemente da sua tipologia, tais fenómenos de alto impacto manifestam-se como processos que libertam quantidades descomunais de energia e produzem entropia em proporções épicas, ou não fosse imagem de marca de tais fenómenos o “partir a loiça toda”, especialmente quando interferem entre si de forma não-linear.

Discernindo e gerindo multirriscos sinérgicos

Tal como em qualquer sistema complexo, a composição de riscos não se resume à sua soma, mas contém aspetos sinérgicos de interferência não-linear que produzem um impacto muito maior do que se nos limitássemos a combinar os efeitos de cada processo de forma aritmética linear. Além disso, a evolução irreversível dos fatores subjacentes, bem como da forma e complexidade com que interagem entre si, tem levado a transformações estruturais e funcionais de todo o sistema de multirriscos.

Perante a complexidade do que está em jogo, que transcende as capacidades dos métodos e ferramentas de análise e modelação tradicionais usados nas áreas ligadas ao risco ambiental, as agências de segurança e defesa internacionais, seguradoras, consultoras e demais interessados têm começado a vir ao nosso encontro em busca de soluções científicas e tecnológicas mais avançadas, robustas e eficazes para abordar estes problemas, beneficiando de toda a nossa cadeia de valor, desde a nossa vertente académica metodológica à de implementação operacional de soluções.

Atendendo ao chamado, temos estado a facultar, no âmbito de iniciativas colaborativas internacionais, os nossos avanços pioneiros e soluções concretas para investigar, quantificar, prever e gerir a dinâmica complexa de multirriscos, impactos e ações com qualidade, precisão e rigor inéditos, recorrendo aos nossos avanços na Física da Informação subjacente à Dinâmica de Sistemas Complexos. Detetando, medindo, prevendo e gerindo processos, interações e retroações complexas para facultar informação mais robusta e fiável sobre o concerto tocado pela orquestra de multirriscos e a partitura subjacente. Aprofundando a compreensão de modo a melhor prevenir e preparar os desafios em vez de remediar.

Convertendo entropia de besta a bestial

Temos ainda estado a desenvolver mecanismos, técnicas e instrumentação para ajudar os parceiros a sair da postura defensiva perante fenómenos intensos potencialmente desastrosos, para preparar soluções de forma célere, eficaz e cabal. Não se trata somente de tentar impedir a muitas vezes inevitável ocorrência de tais fenómenos, nem de sacudir água do capote remetendo os problemas para outras paragens. Trata-se, isso sim, de tirar partido da não-linearidade, criticalidade, caoticidade e mesmo turbulência plena de tais fenómenos de forma natural, robusta e sustentada. Não só da energia que acarretam, mas também da entropia, que contrariamente ao que era pensado em termodinâmica clássica, pode e deve ser bem aproveitada na criação de valor. Porque a entropia quando bem processada passa de uma grande besta a uma valência bestial, algo que a natureza já faz como ninguém.

Entram também aqui os métodos matemáticos que tenho desenvolvido em Física da Informação não-linear não-ergódica para abordar a dinâmica de sistemas coevolutivos complexos. Métodos que já têm sido úteis no lançamento dos nossos paradigmas de análise e modelação físico-matemática complexa do quantum ao não-linear multi-escala com maior alcance e resolução espaço-temporal, providenciando aos beneficiários um maior poder de interpretação, precisão e suporte à decisão.

Agora, estes métodos não só alavancam detecção, previsão e suporte à decisão, mas também a nossa nova engenharia e tecnologia que pegam no caos e turbulência para produzir dinâmica coerente e produtiva em sistemas complexos. Alavancando toda uma nova geração de sistemas de energia que tiram partido de algo que até agora era lixo termodinâmico, mas que ali está na natureza como algo precioso que do caos permite extrair ordem e valor acrescentado. Tecnologia essa que processa fisicamente fluxos de energia e entropia de fenómenos “indomáveis”, porquanto aquilo que nos pode destruir também nos pode dar força, imensa força. Saibamos ler a natureza, sem preconceitos, sem chavões nem presunções, e nem o céu é o limite.

A arte não está em tentar domar o indomável, em controlar a natureza, mas em beber do seu poder potencialmente destruidor como forma natural de alavancar a nossa ação. Não combatendo a natureza, mas aprendendo e trabalhando com ela.

Da resiliência do resistir à resiliência do agir

Esta nossa Física Tecnológica de base natural contribui assim para nutrir uma sociedade mais resiliente não numa postura meramente defensiva de resistência, de erguer barricadas, de nos escondermos perante um embate potencialmente destruidor. Contribui assim mais fundamentalmente para a base de algo bem mais simples e natural: decifrar as maiores ameaças, os maiores desafios, bebendo da sua força geradora de oportunidades. Para nos superarmos, para conhecermos melhor a natureza, e para com ela bem nos integrarmos trabalhando por um mundo melhor.

Não precisamos de agir em escalas incomportáveis. Graças à conectividade inerente à complexidade, ao agirmos em cada lugar, em cada momento, agimos perante os demais. A entropia que bebemos nasce de uma energia livre que não é algo que precise ser criada nem transportada. Pois já é, na sua essência, o que consubstancia a essência de cada momento, de cada lugar. Algo que podemos sentir dentro de nós. Que sabe a etéreo, a divino, mas é tão físico, tão natural… e sobretudo tão funcional.

Quando até a entropia se torna útil e da inevitabilidade se faz oportunidade, todo um novo universo de possibilidades se abre perante nós. Permitindo sair do fatalismo da termodinâmica do século XIX e do desconcerto do século XX para abrir novos caminhos de esperança com a ciência que desenvolvemos em pleno século XXI.