Em vésperas do século das luzes (século XVII) e da reforma científica, eram muitos os sonhos e planos ideais nas sociedades perfeitas descritas por Thomas Moore (1516) em “Utopia”, e Francis Bacon em “Nova Atlântida” (1626). Moore criticava as guerras travadas por Henrique VIII (que entretanto mandou decapitar o autor), alimentadas pela sede de poder e glória militar. Destacava o abismo cada vez maior na sociedade de Inglaterra entre os nobres, a burguesia e a população em geral e apelava à utopia de um parlamento que zelasse pelo bem do povo, na incompatibilidade entre felicidade e propriedade individual.
Trezentos anos depois, em 1954, o New York Times relatava um discurso de Lewis Strauss (chefe da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos) à Associação Nacional de Escritores Cienenses inspirado pela visão de Bacon, que enumerava uma “lista visionária de maravilhas da natureza” numa sociedade científica perfeita. Prometia que “as nossas crianças vão desfrutar de energia elétrica nas suas casas, muito barata para medir, e vão viajar sem esforço pelos mares e por baixo deles. Vão viajar pelo ar com um mínimo de perigo e em grandes velocidades. Vão viver um tempo de vida muito mais longo que o nosso, à medida que a doença se rende e o homem passa a entender o que o faz envelhecer.”
Hoje, e embora as anteriores palavras se tenham, de certa forma, tornado realidade, a promessa de Bacon cumpriu-se com um gosto amargo. A indústria da aviação tornou-se uma das principais causas das alterações climáticas antropogénicas. E a “exploração espacial”, algo talvez impensável em “Nova Atlântida”, é um dos temas mais frequentes do risco existencial.
E quanto à promessa de regimes políticos justos e prósperos com a chegada do progresso e da tecnologia contrastam, simultâneamente, com a premonição da censura, controlo tecnológico e manipulação da verdade por regimes autoritários. Na realidade, as aspirações de Estado de Moore, através das quais o marxismo nasceu, contribuiram, ironicamente, para a criação de vários estados ditatoriais comunistas. E a sociedade científica, prometida por Bacon, desmorona-se em plena crise de confiança e legitimidade da comunidade científica. É constante o medo de vírus geneticamente modificados – extrapolado pelo COVID-19 – do extermínio pela guerra nuclear, extinção pelas alterações climáticas ou controlo pela inteligência artificial.
Em contraste com as utopias outrora descritas, distopias do século XX antecipam também o futuro, inspiradas pelos traumas e duras lições do século XX, como “Admirável Novo Mundo” de Aldous Huxley (1932), “1984” de George Orwell (1949) e “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury (1953). Interessante perceber como os principais multimilionários atuais se encontram profundamente ligados aos temas abordados pelas obras que falavam das utopias mas, principalmente, das distopias. Elon Musk, fundador da Tesla e da SpaceX além de outros grandes negócios, é atualmente o homem mais rico do mundo e, juntamente com outros multimilionários, protagonizou a corrida ao turismo espacial em 2021. Num novo lance de grandiosidade, ofereceu, há poucas semanas, quase 44 milhares de milhão de doláres para ser dono da plataforma de microblog Twitter, com cerca de 220 milhões de usuários ativos.
Neste artigo vamos explorar a relação desta coleção de brinquedos civilizacionais pelos multimilionários e as distopias do século XX. Se, no ano passado, se “mediam foguetes” para sair da terra, este ano os multimilionários competem por controlar a esfera pública. Tudo por uns milhares de milhões.
O dono da Terra: Elon Musk, Farenheit 451 e 1989
Na obra “1989”, George Orwell fala através de Winston Smith, o protagonista que trabalha para o Ministério da Verdade, como responsável pela propaganda e revisão das notícias, reescrevendo artigos antigos de jornais para que o registo histórico apoie sempre a ideologia do partido. Os habitantes vivem num regime totalitário que persegue o individualismo e a liberdade de expressão como “crime de pensamento“. E, através do Grande Irmão, o líder do Partido que personaliza os rituais de culto (mas pode nem sequer existir) é aplicada a lei pela “Polícia do Pensamento”.
Actualmente, podemos identificar vários elementos que tornam a obra quase profética da realidade. Na última década, o jornalismo digital passou por transformações díspares e imensuráveis. O impacto da Internet of Things (IoT) e das altas tecnologias foi tal que levou a uma reconfiguração dos processos de produção, distribuição e consumo de conteúdos noticiosos, simultaneamente com todos os outros tipos de produto.
O jornalismo “de alta tecnologia” foi testemunhado pelos media e pelo público, que foram catapultados para uma automatização através de robôs e algorítmos, com conteúdos mais personalizados (assistentes virtuais, palestrantes inteligentes, chatbots) e cada vez mais imersivos. Embora em Portugal a plataforma não seja a mais popular, segundo uma pesquisa da agência Omnicore, sete em cada dez usuários estadunidenses consomem notícias pelo twitter. E agora, que Elon Musk propõe alterações à plataforma que partilhou intenções de comprar, as preocupações sobre uma “polícia de pensamento” aumentam.
Musk alega ser um absolutista da liberdade de expressão, que quer uma rede social neutra e sem censura. Contudo, já revelou que está a ponderar cobrar uma “pequena taxa” a utilizadores políticos e comerciais do Twitter, e propõe também adicionar um botão que permite aos usuário editar o conteúdo após publicação. O que parece útil para corrigir erros ortográficos pode também permitir que registos de conversas públicas sejam alterados, aumentando a desinformação. O uso de bots para criação de perfis falsos com fins políticos é comum (estes fazem-se seguidores de perfis políticos que querem simular uma aprovação pública que a página não tem), e estes podem ser também usados para manipular conteúdos. A estas questões acrescem-se os problemas destacados pelo Cambridge Analytics com o Facebook, por exemplo, e o risco de maior aumento de polarização do discurso.
A visão das “interações transversais” defende que através da internet os cidadãos recebem um grande espectro de visões ideologicamente diferentes, mas diversos estudos concluem que, especificamente na plataforma Twiter, existe um risco notório de propagação de retórica populista e eco-chambers (“câmaras de eco que reforçam as opiniões dos usuários, visto que estes só estabelecem coneções com quem partilha crenças semelhantes).
Em “Fahrenheit 451”, a distopia cujo título é a temperatura a que o papel queima, descreve uma sociedade onde todos os livros são proibidos, as opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas e o pensamento crítico é suprimido. A personagem principal, Guy Montag, é bombeiro (o nome dado aos trabalhadores que queimam todos os livros) e começa a questionar o seu trabalho. Seja de uma forma, ou de outra, no final das contas quem escolherá sempre o que será partilhado ou não é o algoritmo – com isto se diga, quem nele mande. Neste caso nas mãos do homem mais rico do mundo, dono de entidade privada , de capital fechado, e sem nenhuma obrigação de tornar público as suas movimentações internas.
Bradbury destacou por diversas vezes que o principal objetivo da obra não era criticar a censura de notícias (como na obra “1984”), mas sim denunciar a forma como a televisão destrói o interesse pela leitura e provoca a alienação das massas na sociedade americana disfuncional da altura. Atualmente, tanto 1984 como Fahrenheit se materializam, não pela televisão e pelos regimes totalitários, mas pelas redes sociais que ocupam cada vez mais os cidadãos.
O dono de Marte: Elon Musk e Admirável Mundo Novo
E, se em 2022, Elon Musk se lança na conquista pela comunicação de massas, em 2021 protagonizou a corrida ao turismo espacial, junto de outro multimilionários. Perseverance pousou em Marte pelas mãos da Agência NASA, mas os planos para uma missão tripulada a Marte foram anunciados por várias agências espaciais (russas, chinesas, do governo dos Emirados Árabes Unidos) e empresas privadas, incluindo a Space X.
Acérrimo defensor da colonização de Marte, Elon Muk defende, tal como diversos futuristas, exploradores espaciais, cientistas e engenheiros, que colonizar o espaço pode impedir grandes catástrofes cósmicas como a extinção humana (Munevar, 2019). Muitos defendem, inclusive, que os benefícios que a construção de colónias espaciais e bases de abastecimento na Lua são uma obrigação moral, visto sabermos ser possível obter recursos do sistema solar, enquanto aumentamos o conhecimento científico.
Contudo, outros académicos como Martin Rees, defendem que é uma “ilusão perigosa” pensar que a migração em grande escala para outros planetas permite escapar dos problemas na Terra, e que os colonizadores espaciais poderão reconstituir animais e plantas extintos, sem serem vítimas dos mesmos problemas que a psicologia humana desencadeou na história civilizacional (Marino, 2019). Mais básico que tal premissa, destaca-se também que viver longe das leis da Terra e viver num habitat hostil torna o uso da engenharia genética e ciborgue natural, o que pode criar uma ruptura global. Será impossível legislar sem inteligência artificial, o que destruirá a privacidade, a liberdade e a segurança, tranformando o totalitarismo e o “mau” uso das tecnologias apenas uma consequênca evidente.
Um cenário que nos leva, por fim, à terceira distopia que falta – Admirável Mundo Novo”- onde Aldous Huxley descrevia uma ditadura da ciência que controlava as massas, subjugando os indivíduos através das suas invenções e desumanizando-os. A religião era proibida, os bebés concebidos em laboratório, as mulheres sem engravidar e mantidas num corpo perfeito graças a medicação. Pouco tempo depois da publicação da obra, Huxley desabafou que o mundo rumava a passos tão largos na direcção errada que se escrevesse nesse dia a mesma obra, a acção da narrativa não distaria seiscentos anos do presente, mas apenas duzentos.
Enquanto a União Europeia usa o Green New Deal “para salvar a Terra”, Elon Musk enriquece exponencialmente com a vendas de carros elétricos, associados a uma narrativa de energia limpa. Organiza viagens espaciais turísticas, como ensaio para querer viver e morrer em Marte e, enquanto não muda de planeta, compra instrumentos civilizacionais para brincar à comunicação de massas.
O final do “Fahrenheit 451” é esperançoso. O bombeiro Montag abandona a profissão, e junta-se a um bando de rebeldes que faz da vida a memorização de livros para que a perpetuação do conhecimento seja garantida. É deixada no ar a fragrância da esperança, mesmo após a descrição distópica de um mundo sem liberdade de expressão. Contudo, não me dou por muito optimista.
–Li que os cientistas estão a tentar fazer computadores que pensam. Não é bizarro?? Se os computadores puderem pensar, em que é que as pessoas vão ser melhores do que as máquinas?
-Comportamento irracional.
-Talvez inventem um computador psicótico.
