Mundo

Cansados à primeira vista: um romance de várias dimensões  

Saramago explica, numa das minhas obras preferidas (O conto da lha desconhecida) que: “temos que sair da ilha para ver a ilha. Não podemos ver-nos, a menos que nos libertemos de nós mesmos”.

“Mentes pequenas falam de pessoas, mentes medíocres falam de acontecimentos e mentes grandes falam de ideias”.

Foi com estas palavras de Eleanor Roosevelt, e na ânsia de me fazer “grande”, que decidi ser jornalista e comunicar factos, enquanto almejava o mundo das ideias e menosprezava o das pessoas. Por um lado, nutria um desdém profundo pelos conteúdos de Daily e Night Time (onde, ironicamente, vim respeitosamente a trabalhar também) e, por outro, um deslumbramento utópico pela academia, que me levou até ao doutoramento.

Ora, a vida tratou de me ensinar que, ao invés de polarizar seja que dimensão for, deveria compreender o porquê da sua existência. Entendi que sem pessoas não há acontecimentos, sem acontecimentos não há ideias e sem ideias não há nada. E que, se quisermos discutir a realidade, há que falar sobre as três dimensões, co-relacionando-as. Saramago explica, numa das minhas obras preferidas (O conto da lha desconhecida) que: “temos que sair da ilha para ver a ilha. Não podemos ver-nos, a menos que nos libertemos de nós mesmos”.

Assim sendo, troco as habituais notícias, que me servem como mote às reflexões, e uso as discussões e mal-entendidos do reality-show das noites da SIC “Casados à Primeira Vista”, para explorar a ideia de que uma mesma realidade pode ser interpretada das mais diferentes formas. O público assiste de camarote às desavenças dos participantes que, na busca de um objetivo (neste caso o parceiro ideal), vivem o dia-a-dia, e mostram a dificuldade que existe em ser-se confrontado com diferentes interpretações da realidade pelos companheiros. O mesmo se passa na obra “Flatland: um romance de várias dimensões” – a sugestão literária que vos quero trazer este mês.

Através de uma obra magistral, o autor Edwin Abbott (1838-1926) oferece-nos um romance de várias dimensões e, através de ilustrações simples (utilizando a linguagem matemática e a geometria para definir conceitos como dimensão ou realidade), esmiuça várias lições sobre cultura científica, educação cívica e, inclusive, literacia mediática. Analisa uma sociedade desde a raiz, desde as estruturas de poder à produção de conhecimento e organização social. E, principalmente, faz-nos entender o porquê de, perante dimensões que não cabem na nossa (como já ilustrei no meu caso), ficarmos “cansados à primeira vista”.

Afinal, o que acontece quando um quadrado (de duas dimensões, do plano) conhece uma esfera (de três dimensões, vinda do espaço)?

Por muito abstrata que a premissa da fábula possa parecer, a aplicação aos nossos dias é bastante real.

Quando o quadrado conhece a esfera, e não só

Considerada uma das grandes obras clássicas da ficção científica, bem como uma fábula de época satírica, “Flatland” é um exercício interessante de ideias e teorias que questiona as convenções do período vitoriano, período em que o autor viveu - e sobre as quais muitas se mantêm atuais até hoje. Apresentam-se também conceitos matemáticos ainda hoje discutidos pelos físicos teóricos.

A narrativa começa por nos apresentar o mundo da personagem principal - o quadrado. O protagonista vive num mundo a duas dimensões que, graficamente, nos lembra o jogo do Pacman, onde os habitantes são triângulos, pentágonos, hexágonos e segmentos de reta, que se movem num plano.

Neste mundo, apresentado na primeira parte do romance, a realidade assemelha-se a uma folha de papel, onde, segundo regras de estratificação social muito fortes, as figuras se movem livremente à superfície sem poder, contudo, erguer-se em altura (para cima ou para baixo). As mulheres são segmentos de recta, os soldados e trabalhadores das classes mais baixas são triângulos de dois lados iguais, a classe média é composta por triângulos equiláteros, e o clero por círculos.

A visão entre os habitantes está predefinida, com ângulos e olhares perfeitamente estudados e institucionalizados. E, embora a forte estratificação social não consiga impedir as rebeliões e insurreições, consegue contê-las com recurso a cedências que os líderes aceitam, favorecendo os interesses individuais aos direitos coletivos. Nada de muito diferente da atualidade.

A ação principal acontece quando seguimos para a segunda parte da obra e o nosso quadrado, de classe média-alta e estavelmente posicionado na sua vida, toma conhecimento de outros mundos e as suas certezas se esvanecem. E aqui reside o ponto de reflexão. Como Ravetz (2004) salienta, a ciência é ferramenta de humildade e sabedoria. Por um lado é visitado por uma esfera, que inicialmente lhe parece um ponto, até se tornar um círculo e regressar novamente a um ponto, visto que na sua visão só cabem duas dimensões.

Após não acreditar nas palavras sobre dimensões superiores, a esfera resolve levá-lo até ao espaço, e apresentar-lhe o mundo Plano do ponto de vista do Espaço – onde o nosso quadrado tem conhecimento do seu próprio Eu de uma perspetiva totalmente diferente. E por outro – e aqui reside a total da beleza da obra – toma conhecimento do plano de dimensão inferior, através de um sonho. Esse mundo de uma só dimensão, sem altura e sem largura. Onde apenas pontos co-existem, pensando – à semelhança do quadrado – ser o único mundo existente, reduzido à realidade de uma dimensão.

Rapidamente, o protagonista sente uma necessidade imensa de partilhar a nova descoberta com outros... mas o caminho revela-se mais tortuoso que o esperado. A cegueira, falta de perspectiva e hegemonia do “Mundo Plano” impõem-se. E o fim do nosso quadrado, que deixo em aberto para que possam usufruir da leitura, revela-se consequência do que o conhecimento acaba por ter nas sociedades – o seu uso como arma de poder. (Quem quiser também pode ver o filme adaptado para o cinema várias vezes, uma das quais em 2007 com a animação gráfica de Ladd Ehlinger Jr., que se recomenda como complemento à leitura da obra.)

Quando o quadrado já não cabe no plano: dados, informação e conhecimento

Com isto, quando sinto falta de paciência para a típica silly season, já em contagem decrescente para o mês de agosto – e com as suas típicas reportagens de como se está bem na praia, e de como é bom o chouriço num festival algures – respiro fundo, e repenso.

Quando tendo a idolatrar um artigo científico como verdade absoluta, respiro fundo, e repenso.

Quando dou por mim a colocar-me acima ou abaixo de qualquer dimensão de uma dita verdade, repenso. Porque pessoas, acontecimentos e ideias são dimensões de uma realidade que desconheço na totalidade. E, como tal, o seu valor hierárquico é relativo e complementar. Faço-me humilde, como o quadrado que conheceu o espaço e, ao mesmo tempo, sonhou com um mundo a 1D.

Por muito que nos queiramos restringir à dimensão que nos sentimos mais confortáveis, é fulcral entender a relatividade da nossa posição e os diferentes pontos de vista que o mesmo objeto tem. Acima de tudo, uma história sobre a aventura de descobrir o desconhecido, e a humildade como consequência do conhecimento – compreendendo algo, mesmo que não encaixe no nosso tamanho.

Quiseram os ossos do ofício que, para além da minha experiência no jornalismo “puro e duro”, fosse em Grande Reportagem ou na agenda 24/7 (vinte e quatro horas/sete dias por semana), que também experimentasse o desafio de produzir reportagem para programas da tarde. E, mais desafiador ainda, que tivesse como profissão rever guiões e assegurar que os factos contidos em novelas e séries de televisão eram, de facto, verosímeis.

Há que destacar, realmente, a diferença entre:

1) dados: fatos e números recolhidos/extraídos de observações e experimentos e que podem incluir informações redundantes ou irrelevantes como base para raciocínios, discussões e cálculo;

2) informação: dados, possivelmente de várias fontes, que são apresentados num contexto que é novo ou pertinente a uma situação específica;

3) conhecimento: a capacidade de usar a informação para a aplicar num problema a ser resolvido ou ponderado.

Contudo, a experiência ensinou-me que, ainda mais importante que debitar factos, é a história por trás de como se os contam. Nesse mundo, as fronteiras entre realidade e ficção resumem-se a formalidades teóricas, e tudo depende da dimensão de cada leitor ou expectador.

Acabar como se começou

Afinal, usar a distância para nos reconhecermos é uma das ferramentas mais poderosas para entender quem somos, onde estamos, de onde viemos e para onde vamos. É necessário observar o mundo complexo que se co-cria, constantemente, entre o que sabemos que sabemos, sabemos que não sabemos e não sabemos que não sabemos.

Completando o diálogo de Saramago, acima referido:

“- Temos que sair da ilha para ver a ilha. Não podemos ver-nos, a menos que nos libertemos de nós mesmos.

- A menos que escapemos de nós próprios, queres tu dizer.

-Não. Não é a mesma coisa. “

Aspirar ao conhecimento, reconhecendo a nossa dimensão, é a melhor forma de não nos cansarmos à primeira vista. Talvez a equipa de especialistas do reality show já o tenha dito aos participantes, por outras palavras.

Afinal, como Flatland aconselha, algures: “aprende esta lição, que estar satisfeito contigo mesmo é ser vil e ignorante, e que aspirar é melhor do que ser cego e impotentemente feliz.”

- Calvin acorda uma manhã e descobre que não existe mais na terceira dimensão! Ele é 2D.

- Virado perfeitamente de lado, é uma linha vertical quase invisível! Ninguém vai notar!

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