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Líder do partido da extrema-direita italiana diz que "fascismo pertence à história"

Líder do partido da extrema-direita italiana diz que "fascismo pertence à história"
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Giorgia Meloni e o seu partido são os herdeiros do Movimento Social Italiano (MSI), partido neofascista criado após a Segunda Guerra Mundial.

A líder do partido de extrema-direita Irmãos de Itália, Giorgia Meloni, à frente nas intenções de voto para as legislativas italianas de setembro, defendeu esta quarta-feira que o fascismo pertence à História, numa mensagem destinada a tranquilizar os aliados internacionais.

“Há várias décadas que a direita italiana relegou o fascismo para a História, condenando sem ambiguidade a privação da democracia e as infames leis antissemitas”, declarou a dirigente da extrema-direita italiana num vídeo esta quarta-feira divulgado em inglês, francês e espanhol pela sua direção de campanha.

Meloni protesta há anos contra a burocracia da União Europeia (UE) por considerar que esta infringe a soberania nacional, mas classificou hoje como uma “narrativa absurda” que um Governo de centro-direita – com os seus aliados de campanha Matteo Salvini (da Liga) e o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi – pusesse em causa a aplicação de reformas necessárias para receber a totalidade dos 200 mil milhões de euros atribuídos à Itália no âmbito do plano de recuperação pós-pandemia de covid-19.

“Desde há vários dias que leio artigos na imprensa internacional sobre as próximas eleições [antecipadas, marcadas para 25 de setembro], que darão a Itália um novo Governo, em que sou descrita como um perigo para a democracia, para a estabilidade italiana, europeia e internacional”, disse Giorgia Meloni, de 45 anos.

“Li que a vitória dos Irmãos de Itália (FDI, na sigla em italiano) nas eleições de setembro conduzirá a um desastre, a uma deriva autoritária, à saída de Itália do euro e a outros absurdos do género”, condenou igualmente.

Giorgia Meloni e o seu partido, fundado em 2012, são os herdeiros do Movimento Social Italiano (MSI), partido neofascista criado após a Segunda Guerra Mundial, cujos membros se assumiam abertamente como admiradores do Governo de Benito Mussolini, o ditador fascista que liderou o país nas décadas que levaram à Segunda Guerra Mundial e durante o conflito.

O regime de Mussolini criou em 1938 uma lei contra a pequena população judaica de Itália, excluindo-a da vida pública, inclusive da educação e do comércio.

Recuperado ao MSI, o emblema dos FDI é a mesma chama tricolor – verde, branca e vermelha -, num desenho semelhante ao da antiga Frente Nacional em França.

Nos termos do acordo eleitoral dos FDI com o Força Itália, partido de Silvio Berlusconi, e a Liga anti-imigração de Matteo Salvini, o líder do partido que obtiver mais votos nomeará o próximo primeiro-ministro italiano, e Giorgia Meloni confirmou esta semana que esse cargo é realmente o seu objetivo.

O seu discurso de contenção das comparações com o fascismo ignorou tentativas - inclusive por parte dos seus aliados – para desvalorizar o legado de Mussolini. Por exemplo, Berlusconi, referindo-se ao exílio interno de opositores italianos ao fascismo, afirmou uma vez que o ditador os tinha enviado de “férias” para as ilhas italianas.

“A nossa ideia da Europa é a de uma entidade política capaz de representar um verdadeiro valor acrescentado para os seus cidadãos, com menos burocracia e mais capacidade para influenciar as grandes questões”, sustentou Giorgia Meloni.

Os seus principais aliados na Europa são o partido de extrema-direita espanhol Vox e o polaco Lei e Justiça, que formam, com o FDI, o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (CRE) no Parlamento Europeu.

As mais recentes sondagens indicam que o apoio de Meloni entre os eleitores é ligeiramente superior ao do seu principal adversário no escrutínio, o líder do Partido Democrático (PD, centro-esquerda), Enrico Letta, ex-primeiro-ministro.

Nos termos da complexa lei eleitoral italiana, os vencedores precisam de grandes alianças de campanha com outros partidos para obterem maioria no parlamento. Mas os democratas têm-se debatido para igualar a popularidade da aliança de direita, especialmente depois de se terem recusado a aliar-se ao Movimento 5 Estrelas (M5S), que desencadeou a atual crise política no país, ao abandonar a coligação governativa de unidade nacional liderada pelo primeiro-ministro Mario Draghi, causando o desmoronamento da mesma e a convocação de legislativas antecipadas.

No entanto, a dinâmica entre os blocos de direita e centro-esquerda pode ainda alterar-se. Hoje, Letta anunciou que se vai somar ao bloco da esquerda, como candidato do PD a um assento parlamentar, Carlo Cottarelli, um muito respeitado economista que exerceu funções no Banco Central de Itália e no Fundo Monetário Internacional (FMI).

“As próximas eleições serão provavelmente as mais importantes que tivemos e teremos nos próximos anos”, declarou Cottarelli, acrescentando que a votação oporá essencialmente “progressistas a conservadores”.

“A Itália tem que decidir” o seu futuro, observou.

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