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João Lourenço, o soldado disciplinado que vai continuar a liderar Angola

João Lourenço, o soldado disciplinado que vai continuar a liderar Angola
AMPE ROGERIO/Getty Imagens
Os angolanos optaram pela continuidade nas eleições do passado dia 24 de agosto. João Lourenço vai manter-se aos comandos do país por mais cinco anos. Recorde o percurso do militar que se tornou sucessor de José Eduardo dos Santos.

João Lourenço, reeleito para um segundo mandato presidencial, atualmente general na reserva, é um soldado disciplinado e leal ao partido que governa Angola desde a independência, em 1975, e que soube esperar pela sua hora.

Soube, nomeadamente, atravessar uma longa "travessia do deserto" de praticamente dez anos, quando em 2001 o então Presidente José Eduardo dos Santos anunciou começar a ser tempo de o partido pensar na sua sucessão.

João Lourenço interpretou o anúncio à medida dos seus interesses e posicionou-se na corrida à sucessão, o que lhe valeu o afastamento da primeira linha partidária, sendo vítima da forma sibilina como José Eduardo dos Santos sempre exerceu o poder em Angola.

Remetido para uma das vice-presidências da Assembleia Nacional, João Lourenço é reabilitado politicamente em abril de 2014, com a nomeação para a pasta da Defesa Nacional, e dois anos depois com a eleição em congresso para a vice-presidência do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), último passo para vencer as eleições presidenciais em 2017.

As origens de João Lourenço

Natural do Lobito, cidade costeira a sul de Luanda, João Lourenço nasceu em 5 de março de 1954 numa família de uma dezena de irmãos formada por um enfermeiro e uma costureira, um agregado familiar comprometido com a causa da descolonização e da independência da então Província Ultramarina de Angola, criada pelo regime salazarista em 1951 como parte integrante de Portugal.

Ainda criança, frequentou escolas primárias e secundárias na província do Bié e em Luanda, tendo depois estudado no Instituto Industrial da capital.

Incentivado pelo pai, que tinha já passado pelas prisões do antigo regime colonial português devido às suas atividades clandestinas nacionalistas, em agosto de 1974, com 20 anos, João Lourenço aderiu à luta armada do MPLA, tendo recebido formação militar no Centro de Instrução Revolucionária (CIR) Calunga, em Dolisie, na vizinha República do Congo, (antigo Zaire).

Seguindo um esquema de formação típico dos movimentos de libertação africanos protegidos pela então União Soviética, foi enviado para Moscovo em 1978 para frequentar o ensino superior, tanto académico como militar.

Durante quatro anos frequentou a Academia Político-Militar Vladimir Ilitch Lenine, da qual emergiu com uma licenciatura em Ciências Históricas, um bom conhecimento das línguas russa, inglesa e espanhola e formação como oficial das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA, braço armado do MPLA).

Em setembro de 1979, o futuro dirigente soube da morte em Moscovo do Presidente Neto, vítima de doença terminal, e da assunção em Luanda da direção do partido e do Estado por um lugar-tenente da sua total confiança, José Eduardo dos Santos.

De Angola para Moscovo, de militar a político

De regresso a Angola, em 1982, João Lourenço voltou a integrar o serviço ativo das FAPLA e, com as insígnias de general de artilharia, participou nas ações de guerra contra a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA, liderada por Jonas Savimbi) nas linhas da frente no interior do país e foi comandante das operações na zona do Huambo até 1983, ano em que recebeu o comando da 3.ª Região Militar e do Comissariado Provincial do Moxico, a partir do qual instruía o moral dos soldados e monitorizava a sua lealdade ideológica ao regime.

Em 1984, a sua carreira tomou um rumo mais político quando foi nomeado governador do Moxico. Subiu ao Secretariado do Bureau Político do MPLA, encarregando-se da área da comunicação em 1992, o ano decisivo da transição política em Angola.

No IV Congresso Ordinário do MPLA, realizado em dezembro de 1998 e que serviu para esclarecer a base ideológica do partido, definido como socialista democrático, João Lourenço é eleito secretário-geral e essa promoção foi então interpretada como um sinal claro de que José Eduardo dos Santos via o general licenciado como um potencial sucessor seu em algum momento no futuro.

A "travessia do deserto" de dez anos a que foi sujeito coincidiu com o 'boom' económico que Angola viveu devido às receitas geradas pelas exportações de petróleo, que atingiram o pico em 2007.

As receitas geradas nesse período foram o fermento da falta de gestão, enriquecimento pessoal repentino e da corrupção desenfreada nas mais altas esferas do regime.

Em 22 de abril de 2014, João Lourenço foi nomeado ministro da Defesa por José Eduardo dos Santos. Ao contrário da maioria dos restantes dirigentes no topo do partido e do estado, João Lourenço estava longe das sombras da corrupção e nem parecia interessado no lucro fácil.

As renovadas especulações a favor de João Lourenço ser o sucessor de José Eduardo dos Santos tornaram-se uma certeza em 2 de dezembro de 2016, quando o ex-Presidente afirmou claramente que não seria um porta-estandarte eleitoral.

Paralelamente, o Comité Central do MPLA propôs o ministro da Defesa para esta tarefa. No dia 10 de dezembro, na cerimónia do 60.º aniversário da sua fundação, o MPLA apresentou a candidatura presidencial de Lourenço. Em 3 de fevereiro de 2017, o Bureau Político do MPLA proclamou oficialmente o seu número dois como cabeça de lista para as eleições para a Assembleia, que se realizaram em 23 de agosto.

O início do mandato anti-família dos Santos

O início do primeiro mandato foi auspicioso e rapidamente passou a ser conhecido como "exonerador implacável" ao dirigir as baterias da luta anticorrupção contra a família de José Eduardo dos Santos.

Eleito da primeira vez com a promessa de ser "o homem do milagre económico", João Lourenço quis deixar a sua marca e rasgar com o passado.

As reuniões que patrocinou no palácio presidencial com vozes críticas do regime e as entrevistas dadas à imprensa são exemplos das diferenças que procurou impor relativamente ao exercício do poder do antecessor.

Paralelamente, João Lourenço deu início a inúmeras reformas, nomeadamente ao nível económico, que vão desde a liberalização da moeda às privatizações, passando pela reorganização da banca angolana.

Mas à medida que se aproximava o fim do primeiro mandato, a situação socioeconómica complica-se e os efeitos da covid-19, protestos sociais pela falta de concretização das promessas de mais emprego feitas cinco anos antes, combate à corrupção semeando a discórdia no seio do MPLA e, finalmente, a morte, no início de julho, de José Eduardo dos Santos, cavando tensões com a família do ex-Presidente, formam o caldo a que se junta uma oposição mais organizada e liderada pelo carismático novo líder da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Adalberto Costa Júnior.

As semelhanças com Eduardo dos Santos

Depois de cinco anos no poder, João Lourenço revelou os traços que caracterizaram o exercício do poder pelo antecessor, José Eduardo dos Santos, procurando garantir a continuidade.

Sobretudo, a continuidade do aparato policial, militar e dos serviços de inteligência, instrumentos indispensáveis para a manutenção no poder, segundo denúncias de ativistas e organizações nacionais e internacionais.

O MPLA venceu as eleições em Angola com 51% dos votos contra 44% da UNITA, segundo os resultados definitivos hoje anunciados pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE), sendo que a Constituição de Angola define que o Presidente é o cabeça-de-lista do partido mais votado.

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