Ao longo das últimas décadas, a comunidade portuguesa e luso-descendente nos Estados Unidos tem-se destacado em grande parte pela integração social e pelo contributo positivo para a sociedade norte-americana. Ainda assim, situações pontuais de criminalidade grave que envolvem cidadãos portugueses tornaram-se notícia, suscitando choque e reflexão tanto nos Estados Unidos como em Portugal.
O homicídio do cientista português Nuno Loureiro, ocorrido em Boston e ainda sob escrutínio das autoridades, trouxe novamente para o espaço público a discussão sobre crimes graves cometidos por cidadãos portugueses em solo norte-americano.
O suspeito da morte de Nuno Loureiro, também de nacionalidade portuguesa, terá também sido o autor do ataque que matou duas pessoas e feriu nove na Universidade de Brown. Todos estudantes.
O crime macabro em Nova Iorque
Um dos casos mais mediáticos aconteceu a 7 de janeiro de 2011, em Nova Iorque, e teve como protagonista Renato Seabra.
O jovem modelo português, então com 21 anos, ficou ligado ao homicídio do jornalista e cronista Carlos Castro, de 65 anos, num hotel de luxo em Manhattan.
Seabra, natural de Cantanhede, tinha ganho notoriedade pouco tempo antes através da participação num programa de televisão em Portugal dedicado ao mundo da moda.
Segundo a investigação e os depoimentos apresentados em tribunal, Renato Seabra estrangulou e agrediu violentamente Carlos Castro num quarto de hotel onde ambos estavam hospedados durante uma visita à cidade.
O corpo do cronista foi encontrado com sinais de violência extrema, incluindo traumatismos na cabeça e pescoço, e mutilação genital com um saca-rolhas, num dos aspetos mais macabros do caso.
Após o homicídio, Seabra tomou banho e saiu do quarto, circulando pela cidade até ser detido mais tarde pela polícia, que o encontrou num hospital à procura de tratamento para ferimentos de auto-agressão.
Durante o processo judicial, a defesa alegou que o arguido teria sofrido um episódio de perturbação psicológica grave, mas o júri concluiu que o homicídio foi intencional.
Em dezembro de 2012, um tribunal de Nova Iorque condenou Renato Seabra a uma pena de 25 anos até prisão perpétua por homicídio em segundo grau. A decisão implicou o cumprimento da pena em território norte-americano, apesar de pedidos para que fosse transferido para Portugal.
Atualmente, Seabra encontra-se detido numa prisão de alta segurança Clinton Correctional Facility, em Nova Iorque. A primeira audiência para eventual liberdade condicional está prevista para 2035, podendo, no cenário mais favorável, regressar a Portugal no ano seguinte. Na altura, Renato Seabra terá 46 anos.
Um homicídio involuntário
Mais recentemente, em fevereiro de 2024, um novo caso envolvendo cidadãos portugueses voltou a chamar a atenção das autoridades.
Quatro pessoas naturais de Rabo de Peixe, nos Açores, foram detidas em Pawtucket, no estado de Rhode Island, na sequência da morte de um bebé de um ano. A criança deu entrada no hospital em estado crítico e acabou por não resistir.
O pai foi acusado de homicídio involuntário e abuso infantil, enquanto os restantes detidos, incluindo a mãe, enfrentaram outras acusações, entre elas a de negligência. O consulado português acompanhou o caso de perto, em articulação com as autoridades locais.
Mais de 30 anos depois...
Dennis Costa, cidadão português residente nos Estados Unidos desde 1969, foi detido em agosto de 2025 pelas autoridades de imigração norte-americanas (ICE) em Fall River, Massachusetts, devido a uma condenação antiga por crimes sexuais contra menores.
Em 1991, Costa foi condenado por violação e abuso sexual de uma criança com menos de 14 anos, além de outros crimes sexuais graves, tendo cumprido pena de prisão e ficado obrigado a registar-se como agressor sexual no estado de Massachusetts.
Apesar de a condenação ter mais de 30 anos, as autoridades consideraram que o histórico criminal o torna removível ao abrigo da lei de imigração dos Estados Unidos.
Após a detenção, Dennis Costa ficou sob custódia do ICE, aguardando decisão judicial que poderá resultar na perda do estatuto de residente permanente e deportação para Portugal.
Crimes "mais leves" também são manchete
Outro episódio divulgado pelas autoridades norte-americanas envolveu João Luís Vieira, cidadão português detido em Rhode Island por entrada ilegal no país.
O homem, de 45 anos, enfrentava ainda mandados de captura por crimes relacionados com tráfico de droga, condução perigosa e fuga às autoridades, além de um histórico de deportação anterior. O caso resultou num novo processo de expulsão do território norte-americano.
