Cinco pontos para percebermos o que está a acontecer no Leste da Europa – e o que pode mudar na vida de todos nós.
1 – O QUE TELEFONEMA BIDEN/XI NOS MOSTROU SOBRE O QUE CHINA VERDADEIRAMENTE QUER.
A China recusa-se a condenar Putin e a agressão russa nos moldes em que o Ocidente está a fazer e tem com Putin em comum a crítica às sanções económicas. No entanto, Biden e Xi terão encontrado pontos de entendimento importantes no telefonema de duas horas: China e EUA estão juntos no objetivo de acabar com a guerra – ora, é a primeira vez em muito tempo que Pequim e Washington estão juntos em algo revelante.
Biden e Xi têm um respeito mútuo que vem de há muitos anos, conhecem-se bem há mais de uma década, quando ambos eram vice-presidentes de EUA e China. Após esse telefonema, a diplomacia chinesa criticou a pressão americana quanto a uma posição mais clara do governo Xi. Os chineses não abdicam de agir à sua maneira – no seu tempo próprio e com um distanciamento em relação ao conflito que os países da NATO obviamente não podem ter.
Pequim garante que não está a dar assistência militar à Rússia – desmentindo assim acusações de EUA e, mais recentemente, também da UE.
Mas o embaixador da China nos não descartou definitivamente a possibilidade de Pequim fazer isso no futuro. Qin Gang à CBS: “O que a China está a fazer é enviar comida, medicamentos, sacos-cama, papas para bebés; não armas e munições”. Qin disse que Pequim continua a “promover negociações de paz e pedir um cessar-fogo imediato”. Mas o tipo de condenação pública pedida por muitos no Ocidente “não ajuda”. “Precisamos de razão. Precisamos de coragem. E precisamos de uma boa diplomacia.”
2 – BIDEN FAZ HISTÓRIA AO PARTICIPAR NO CONSELHO EUROPEU
Até está Guerra, Biden corria o risco de ficar na história como o Presidente que atirou a América para a humilhação em Cabul. As últimas semanas mostraram que está em condições de fazer renascer a ideia de Democracia Liberal, na sua ideia de travar a ascensão dos autoritarismos.
Só a América de regresso a aliança transatlântica pode lidera esse combate. E Joe Biden está decidido a dizer, quarta-feira, em Bruxelas, na NATO e no Conselho Europeu, que é mesmo ele o Presidente certo para assumir esse combate. Porque é isso que está em causa: a Democracia prevalecer sobre as autocracias.
A presença de Biden na Cimeira Extraordinária da NATO é muito significativa. EUA, que assegura perto de 90% da capacidade militar da aliança, tem que liderar este processo – ou então não seria um “renascimento” da NATO.
A Polónia propõe embargo total a comércio com a Rússia; na Alemanha há setores que também defendem isso.
A Europa, ao contrário de EUA e Reino Unido, ainda não cortou com o gás russo e paga todos os dias entre 600 e 700 milhões de dólares a Moscovo. É, involuntariamente, um financiamento da guerra – e é preciso encontrar uma forma de acabar com isto.
Um quinto plano de sanções começa a ser estudado, foi referido em encontro entre Borrel e Kuleba.
3 – “PUTLER”: ZELENSKY COMPARA PUTIN A HITLER
Discurso forte do Presidente da Ucrânia no Knesset (parlamento israelita); apelou às suas raízes judaicas; comparou Putin a Hitler, não tanto do ponto de vista pessoal, mas pelos paralelos que a agressão russa à Ucrânia pode ter com a ofensiva nazi na Europa.
“A indiferença mata”: Zelensky pede a Israel que se decida claramente pelo lado ucraniano, apesar das muitas ligações à Rússia. Zelensky voltou a mostrar capacidade de adaptar discurso aos parlamentos onde falou: na América falou de Pearl Harbour e 9/11; na Europa de valores comuns e com o aviso “se a Ucrânia cair a seguir são vocês”; na Alemanha não se coibiu em lembrar culpa da política energética germânica de aproximação a Putin; agora em Israel volta a encontrar pontos de contacto; segue o Japão, onde certamente falará do perigo da proximidade entre China e Rússia.
A invasão já terá custado 30% da economia à Ucrânia.
4 – SUBESTIMAR A RÚSSIA FOI UM ERRO. MAS HUMILHÁ-LA PODE VIR A SER ERRO AINDA MAIOR
Por estes dias de infâmia, vemos a destruição da Ucrânia e a tentativa de massacre ao povo ucraniano e é impossível não fazer paralelos com o período das duas guerras, há precisamente um século.
O isolamento da Rússia parece fundamental (sanções são forma de travar a guerra pelo estrangulamento financeiro), mas é preciso cuidado: a história mostrou-nos o Tratado de Versailles (1919), que ditou a humilhação da Alemanha, derrotada da I Guerra, por parte dos vencedores. Sabemos o que se seguiu: a vingança nazi na II Guerra Mundial, duas décadas depois. Subestimar a Rússia foi um erro – mas humilhá-la pode ser ainda pior. E a Rússia de Putin em 2022 tem armas nucleares, o que Hitler não tinha.
A única forma desta guerra não resvalar para uma destruição total é travar a Rússia sem a humilhar. E isso vai exigir perícia até que se encontro um ponto em que Putin se sinta em condições de recuar sem perder a face; novidade de hoje do uso do míssil hipersónico (não sendo revelação, porque os russos já o tinham apresentado em 2018) mostra que Putin quer provar que tem armas destruidoras e está disposto a usá-las.
5 – AS NEGOCIAÇÕES GANHAM ALGUMA CREDIBILIDADE… MAS CALMA
A mediação turca ganha pontos; MNE turco, Mevlut Cavusoglu, fala num “acordo de paz próximo”, com quatro dos seis pontos quase já acordados. Os precedentes das últimas semanas mostram-nos que é preciso colocar mesmo muitas reservas quanto ao que se pré-anuncia na frente negocial. Mas desta vez, pela primeira vez, parece haver algum fundamento.
Os quatro pontos que o ministro turco fala devem passar pela questão da neutralidade, caminho para a desmilitarização e não entrada na NATO. O problema é que os dois que faltam parecem ser irredutíveis para Kiev: Crimeia e Donbass, porque em causa está a integridade territorial da Ucrânia
Zelensky diz que sem negociações “a guerra não vai parar”. Bem dizia Bismarck: “A diplomacia sem armas é como música sem instrumentos”. Esta guerra bem o está a demonstrar: incrível como as duas frentes — bélica e negocial –, aparentemente inconciliáveis, decorrem ao mesmo tempo.

