EUA

Trump diz que mortes provocadas pelo ICE resultam do “caos provocado pelos democratas”

A morte de dois cidadãos norte-americanos e a detenção de vários menores por agentes do ICE agravaram a tensão no estado do Minnesota, provocando indignação entre a população, que acusa a agência federal de abuso de poder.

Donald Trump
Donald Trump
Jonathan Ernst

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atribuiu a morte a tiro de dois cidadãos norte-americanos, pela polícia anti-imigração este mês em Minneapolis, no estado do Minnesota, ao "caos provocado pelos democratas"."

“Infelizmente, dois cidadãos norte-americanos perderam a vida devido ao caos provocado pelos democratas”, escreveu Trump no domingo, na sua plataforma Truth Social, referindo-se aos dois incidentes registados na cidade nas últimas semanas.

No sábado, agentes da polícia anti-imigração (ICE, na sigla em inglês) mataram a tiro Alex Jeffrey Pretti, de 37 anos, um enfermeiro de cuidados intensivos da Administração de Veteranos, nascido no Illinois e residente no Minnesota.

Alex Pretti não tinha antecedentes criminais e, segundo a família, nunca tinha tido contactos relevantes com a polícia, para além de algumas multas de trânsito.

Foi o segundo cidadão norte-americano morto a tiro por agentes do ICE em menos de três semanas na cidade, depois de, a 7 de janeiro, Renee Good, também de 37 anos, mãe de três filhos, ter sido baleada mortalmente enquanto conduzia o seu veículo.

O governo de Trump acusou Renee Good de “terrorismo interno”, embora a família tenha negado qualquer envolvimento em atividades criminosas. Tal como no caso de Alex Pretti, a morte gerou forte indignação pública e protestos contra a presença do ICE em Minneapolis, que se intensificaram nas últimas semanas.

Segundo Greg Bovino, alto responsável da Patrulha Fronteiriça dos Estados Unidos (USBP), o tiroteio que vitimou Alex Pretti ocorreu às 09:05 locais, durante uma operação destinada à detenção de um "imigrante indocumentado", identificado como José Huerta Chuma, alegadamente com antecedentes de violência doméstica e perturbação da ordem pública.

De acordo com Greg Bovino, Alex Pretti aproximou-se dos agentes armado com uma pistola semiautomática de nove milímetros, resistiu à tentativa de desarmamento e foi abatido em legítima defesa.

No entanto, vídeos analisados pela Associated Press contradizem essa versão oficial.

As imagens mostram Alex apenas com um telemóvel na mão durante uma altercação de cerca de 30 segundos. Durante a luta, os agentes terão descoberto que estava na posse de uma arma e abriram fogo com vários disparos.

A família confirmou que o enfermeiro possuía uma pistola, para a qual tinha licença de porte oculto no Minnesota, mas garantiu que nunca o tinha visto utilizá-la.

No domingo, apesar das temperaturas negativas, centenas de pessoas reuniram-se em Minneapolis junto a um memorial improvisado no local do tiroteio, em homenagem a Alex Pretti. No centro da cidade, com pouco mais de 400 mil habitantes, cerca de mil manifestantes protestaram contra as ações das forças policiais federais.

A tensão no Minnesota agravou-se ainda mais após a morte de Renee Good e com a detenção de vários menores por agentes do ICE, entre os quais uma criança de cinco anos que permanece detida com o pai num centro em San Antonio, no Texas. Estes episódios aumentaram a indignação de muitos cidadãos, que acusam a agência de abuso de poder.

Carta a pedir listas de eleitores do Minnesota gera críticas

Entretanto, uma carta enviada no sábado pela procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, às autoridades do Minnesota, exigindo a entrega das listas de recenseamento eleitoral do estado, gerou fortes críticas entre políticos democratas. A missiva, que apela à entrega dos dados “para acabar com o caos” na região, foi enviada no mesmo dia da morte de Alex Pretti.

O senador democrata Rubén Gallego, do Arizona, acusou esta segunda-feira a administração Trump de tentar manipular o recenseamento eleitoral com vista às eleições intercalares de novembro.

“Isto é extorsão. Estão a usar o medo para obter informações sobre os eleitores. Nos Estados Unidos, a intimidação não pode ser usada para interferir nas nossas eleições”, escreveu Gallego na rede social X.

Também o senador democrata Chris Murphy, do Connecticut, afirmou que a carta demonstra que as operações do ICE em Minneapolis “nunca tiveram a ver com segurança ou imigração”, mas sim com a tentativa de manipular eleições em estados-chave.

“É um pretexto para Trump interferir no processo eleitoral”, escreveu.

Além das listas eleitorais, Pam Bondi exigiu ainda que o Minnesota partilhasse dados sobre programas de assistência federal, como o Medicaid e o Food and Nutrition Service, e revogasse as políticas das chamadas “cidades-santuário”, como Minneapolis e Saint Paul, que limitam a cooperação com Washington em matéria de imigração.

A intervenção do ICE no Minnesota foi ordenada no início de janeiro pela administração Trump, após alegações feitas por um ‘youtuber’ conservador sobre um alegado desvio de fundos federais para creches geridas por membros da comunidade somali.

Na altura, Trump atacou diretamente a Somália e a comunidade somali nos Estados Unidos e voltou a alegar fraude eleitoral no Minnesota, estado onde perdeu as eleições presidenciais de 2016, 2020 e 2024.

Perante a escalada da violência e da contestação pública, o presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey, o chefe da polícia local, Brian O’Hara, e o governador democrata do Minnesota, Tim Walz, pediram já ao Presidente norte-americano que ponha fim às operações federais de imigração naquela cidade do norte dos Estados Unidos.

Com Lusa