O Governo do Sri Lanka descartou esta quarta-feira a demissão do Presidente, Gotabaya Rajapaksa, apesar dos intensos protestos populares e da crise política e económica que a ilha vive, uma das piores das últimas décadas.
“Como Governo, declaramos que o Presidente não se demitirá em nenhuma circunstância. Vamos resistir”, assegurou o presidente do Grupo Parlamentar do Governo, Johnston Fernando, numa intervenção no parlamento.
Todos os membros do Governo, exceto o Presidente, Gotabaya Rajapaksa, e o primeiro-ministro, Mahinda Rajapaksa – irmão mais velho -, apresentaram a demissão na noite de domingo.
Desde então, a coligação do Presidente sofreu uma série de deserções e os partidos da oposição rejeitaram um convite para formar um Governo de unidade nacional. O país também está sem ministro das Finanças desde terça-feira.
Em pano de fundo está o descontentamento generalizado no país devido à deterioração da economia, com grave escassez de divisas, restrições às importações e a incapacidade do Governo em fornecer bens essenciais como combustível, gás, medicamentos e alimentos.
Manifestantes desafiam medidas de segurança: “Go home Gota”
Milhares de pessoas saíram às ruas nos últimos dias, desafiando até mesmo as medidas de segurança e ordem de recolher obrigatório impostos pelo Governo de Rajapaksa para manter os tumultos sob controlo.
“Agradecemos ao Presidente por impor o recolher obrigatório e o estado de emergência para salvar vidas“, disse Johnston Fernando.
Ainda assim, os protestos devem continuar esta quarta-feira na capital do Sri Lanka, Colombo, um dia depois de os manifestantes cercarem a residência do primeiro-ministro. Os protestos liderados por jovens intensificaram-se na semana passada, depois de a polícia agredir manifestantes, quando estes tentavam entrar numa residência privada do Presidente, o que resultou na detenção de 53 pessoas.
O Governo declarou uma Lei de Emergência em 1 de abril que dá amplos poderes às forças de segurança e à polícia, e que impôs um recolher obrigatório de 36 horas. A medida excecional, no entanto, foi revogada na meia-noite passada após forte pressão política.
“Não olharemos para trás até que Gotabaya se demita. Ele arruinou este país e a economia”, disse Ranjan, um dos manifestantes, à agência de notícias espanhola Efe.
Os manifestantes, que adotaram o slogan “Go home Gota” – “Vai para casa Gota”, em português -, responsabilizam o Governo pela crise económica.
“Não podemos ficar em casa à noite porque há cortes de energia. Não podemos arcar com o custo de vida por causa das más políticas económicas deste Governo. Por isso, decidi juntar-me ao protesto”, explicou o manifestante.
O partido no poder, Podujana Peremuna (SLPP), a formação de Rajapaksa, esteve à beira de perder a maioria parlamentar na terça-feira, quando 42 deputados retiraram o seu apoio. Para alguns analistas, essa pode ser a razão pela qual Rajapaksa revogou a Lei de Emergência, já que para manter os poderes especiais em vigor por mais 30 dias é necessária a aprovação por maioria parlamentar.
Sri Lanka atravessa crise económica sem precedentes
A crise económica sem precedentes do Sri Lanka é resultado, em parte, do alto endividamento do país, a recessão económica causada pela pandemia covid-19 e uma queda drástica na atividade turística, principal fonte de divisas.
A esta conjuntura soma-se o excesso na impressão de dinheiro e a consequente depreciação da moeda nacional, promovida pelo Governo para fazer face os gastos públicos. A escassez de bens essenciais arrisca empurrar a população da ilha do sul da Ásia para a fome, alertou o presidente do Parlamento, Mahinda Yapa Abeywardana, no início de um debate de dois dias sobre o agravamento da crise económica.
O Governo reconheceu que esta é a pior crise económica desde a independência, em 1948, e pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
“Disseram-nos que esta é a pior crise, mas penso que é apenas o começo“, afirmou Abeywardana, indicando que “a escassez de alimentos, gás e eletricidade vai piorar” e “haverá escassez de alimentos e fome muito graves“.
Em dezembro, o secretário do Ministério da Agricultura, Udith Jayasinghe, já tinha alertado para o risco de fome, devido à proibição da importação de agroquímicos decidida, há um ano, pelo Governo para economizar divisas. Poucas horas depois do alerta, o ministro foi demitido.
