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Corrida contra o tempo: equipa de resgate grava "choro" de cria de lontra para conseguir localizar a mãe

Numa espécie ainda ameaçada, cada cria é considerada uma preciosidade. Desta vez, uma missão de resgate em Morro Bay, na Califórnia, marcou a diferença. Guiados pelos sons agudos da cria, os especialistas do Marine Mammal Center percorreram a zona insistentemente até conseguirem devolver o pequeno "Caterpillar" aos braços da mãe.

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Uma cria de lontra-marinha de apenas duas semanas foi salva das águas de Morro Bay, na Califórnia, depois de se separar da mãe. A operação, conduzida pelo Marine Mammal Center e pela Patrulha do Porto, recorreu a uma gravação do sons do animal, semelhantes ao choro de um bebé, para localizar a fêmea adulta. Uma estratégia que se revelou que devolveu o pequeno “Caterpillar” à segurança materna.

Numa tarde de nevoeiro na costa norte-americana da Califórnia, o Marine Mammal Center recebeu um alerta urgente: sons agudos, parecidos com o choro de um bebé, ecoavam pelo mar de Morro Bay. Tratava-se de uma lontra-marinha com cerca de duas semanas, desesperada por se ter perdido da mãe. Uma situação potencialmente fatal para a espécie, já que as crias dependem totalmente das fêmeas até aos nove meses.

A equipa deslocou-se imediatamente ao local. “Fomos até ao porto de Morro Bay, localizámos o filhote, apanhámo-lo e colocámo-lo numa caixa de transporte onde ficou seguro e protegido, garantindo que não sobreaquecesse”, recorda Shayla Zink, especialista do centro, em declarações à agência Reuters. O pequeno animal recebeu o nome de “Caterpillar”.

Com a cria em segurança, faltava o mais difícil: encontrar a mãe. Para isso, gravaram um minuto dos seus gritos desesperados e prepararam um plano: navegar pela baía, emitindo o som através de uma coluna Bluetooth, na esperança de que a mãe o reconhecesse.

Duas horas de buscas e um momento decisivo

O método já tinha sido usado em 2019, mas não havia garantias de sucesso. Durante duas horas, a equipa percorreu a zona, reproduzindo a gravação “repetidas vezes”, conta Zink. “O nosso estagiário carregava no play a cada minuto, quando a gravação terminava”, explica.

A persistência compensou: uma fêmea adulta começou a aproximar-se repetidamente da embarcação, de forma pouco habitual para uma lontra, que normalmente evita interação com humanos.

“Parecia frenética, como se estivesse realmente à procura do seu filhote”, descreve Zink.

Quando a equipa teve a certeza de que aquela era a mãe, baixaram lentamente “Caterpillar” até à água. As imagens mostram a fêmea a nadar na direção da cria, que flutuava de costas, indefesa. Num gesto terno, a mãe segurou o filhote, cheirou-o e passou as patas pelo seu pelo espesso, um comportamento típico de reconhecimento.

Mais do que um resgate: a importância de cada lontra

O reencontro é simbólico para a região e para a conservação da espécie. As lontras-marinhas desempenham um papel crucial na proteção dos ecossistemas costeiros, ajudando a manter as margens dos pântanos e a biodiversidade local.

A história desta população é marcada por quase-extinção. Até ao início do século XX, a caça intensiva pelo seu valioso pelo reduziu drasticamente o número de lontras no Pacífico. Na Califórnia, todas as lontras-marinhas atuais descendem de um grupo de apenas 50 indivíduos encontrados em 1938.

Graças a projetos de proteção como os do Marine Mammal Center, a população tem aumentado, mas continua classificada como espécie ameaçada. Hoje, estima-se que existam cerca de 3.000 lontras-marinhas no litoral californiano, um número ainda frágil.

“Cada indivíduo desta população é essencial para manter a espécie viva e ajudar a retirá-la do estatuto de ameaçada”, sublinha Zink. O reencontro entre a mãe e “Caterpillar” é, por isso, mais do que uma boa notícia: é um sinal de esperança num trabalho diário que continua a salvar vidas.