Olhares pelo Mundo

Cirurgia de AVC à distância: especialista na Escócia opera porco em Paris

Uma cirurgiã removeu coágulos do cérebro de um porco em Paris a partir da Escócia, numa demonstração pioneira de cirurgia robótica remota que pode transformar o acesso ao tratamento do AVC.

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Uma cirurgia para remover coágulos responsáveis por um AVC foi realizada num porco em Paris por uma especialista que estava na Escócia. A demonstração marca um avanço decisivo na cirurgia cerebral robótica feita à distância.

A operação foi conduzida com o sistema desenvolvido pela empresa lituana de robótica médica Sentante. A Professora Iris Grunwald, neurorradiologista da Universidade de Dundee, removeu com sucesso coágulos sanguíneos do cérebro do animal, já morto, por controlo remoto.

“Viram esta manhã a transmissão de um caso de AVC em que realizámos uma operação a um porco em Paris, a mil quilómetros de distância. É importante salientar que esta é a primeira vez que temos robôs capazes de realizar estes procedimentos em que retiramos um bloqueio de um vaso cerebral. E podemos fazê-lo sem que o perito esteja no local, em Paris. Podemos fazer isso à distância", afirmou à Reuters Iris Grunwald, neurorradiologista da Universidade de Dundee.

A remoção dos coágulos é um passo crítico para restaurar o fluxo sanguíneo e prevenir danos cerebrais adicionais, o que replica o que seria feito num doente real.

Experiência tátil idêntica a uma cirurgia real

A partir do Centro de Investigação em Terapia Guiada por Imagem (IGTRF) da Universidade de Dundee, Iris Grunwald operou através de uma rede digital segura.

“Estou a realizar o mesmo procedimento que faria num doente, utilizando os mesmos tipos de tubos e fios que utilizaria num doente real. A única diferença é que eu estou a controlá-los remotamente a partir daqui através da Internet e o computador do outro lado do mundo, por exemplo, irá então realizar o procedimento".

A plataforma Sentante utiliza instrumentos cirúrgicos padrão, mas oferece ao cirurgião uma interface robótica que simula a sensação tátil de um procedimento presencial. O feedback é imediato, algo considerado crucial dada a extrema delicadeza das intervenções do foro neurovascular.

"O que é tão espantoso é que a sensação é exatamente a mesma como se estivesse a realizar um procedimento real num doente. Tenho o mesmo feedback tátil. Tenho os mesmos fios e dispositivos que utilizaria na realidade. E se houver resistência, se houver algum obstáculo a ultrapassar, sinto-o imediatamente já aqui. É transmitido para as minhas mãos e posso sentir como seria no doente. Trata-se de um fator de mudança porque, pela primeira vez, podemos levar os conhecimentos especializados até ao doente para cobrir as zonas rurais que atualmente não têm acesso à trombectomia".

A operação bem sucedida demonstra como esta tecnologia pode expandir o acesso a tratamentos que salvam vidas, sobretudo em regiões sem especialistas em trombectomia - um dos procedimentos mais eficazes para tratar AVC isquémico grave.

“Esta é a revolução que a medicina tem estado à espera. Já não é ficção científica tratar um doente à distância. Trata-se de um novo desenvolvimento inovador que irá finalmente proporcionar uma solução para milhares de doentes que atualmente não são tratados".

O sistema Sentante terá ainda de passar por ensaios clínicos e cumprir todas as etapas de aprovação regulamentar. A empresa prevê que o equipamento possa começar a ser comercializado em 2026.