Opinião

Grécia, zona euro e as lições da deusa Métis

O destino da Grécia e da zona euro, a curto prazo, tem sinais de esperança com o encontro entre o primeiro-ministro grego e o presidente do eurogrupo, esta quinta-feira, mas na véspera tudo ficou adiado para a próxima segunda-feira, depois um dia e noite sem conclusões. No encontro de ministros das Finanças, não houve acordo, nem para a elaboração de um comunicado conjunto, nem para o esperado calendário e método para os passos seguintes. Ninguém esperaria uma reunião milagrosa logo na estreia do mediático ministro grego das finanças entre os seus pares do clube do euro, mas na próxima semana, após as negociações de Minsk (Rússia, Alemanha, França e Ucrânia), os mercados e os cidadãos europeus esperam decisões.

No dia 28 de fevereiro termina o modelo troika e a Grécia terá de se financiar nos mercados nos próximos tempos e assegurar quem lhe empreste dinheiro até ao final do verão, a menos que consiga dilatar o plano de resgate, mesmo com outras condições. Vejamos então, sinteticamente, o que está em jogo.

Creio que, para já, ninguém está interessado em ter a Grécia fora do euro. Não interessa, aparentemente, nem a Berlim, nem a Atenas, nem a Bruxelas, mas ninguém sabe o que pode acontecer dentro de alguns anos ou dentro de poucos meses, quando as variáveis políticas, económicas e sociais estão em permanente mudança. Se não houver acordos e novas soluções para a Grécia e zona euro, é preciso ter planos de contingência:

 

- A Grécia tem um plano B e faz jogo duplo: pressão junto Alemanha e parceiros do euro para ganhar tempo e poupar dinheiro na dívida / juros e, simultaneamente, acenando com eventuais apoios da Rússia, EUA ou China. O plano C é voltar a ter dracma, sair do euro e gerir os efeitos sociais e económicos da desvalorização da moeda própria, dificuldade de obtenção de empréstimos e assegurar financiamento para honrar pagamentos de salários na função pública, saúde, educação, etc.

 

- A Alemanha e outros países do norte da Europa com excedentes comerciais, enquanto credores e definidores da política de austeridade para os chamados PIIGS, não aceitam, à partida e por princípio, um perdão da dívida. Todavia, já admitem soluções para dilatar o pagamento de juros ou taxas mais baixas ou indexar a amortização da dívida ao crescimento do PIB. Independentemente das preferências ideológicas, parece óbvio que o governo liderado pelo Syriza veio obrigar, para o mal ou para o bem, a discutir-se na Europa uma solução para a Grécia também política e não apenas económico financeira.

É verdade que a agência de rating S&P acredita que uma eventual saída da Grécia da zona euro não traria grandes riscos sistémicos. Mas também é verdade que a zona euro está estagnada, num cenário de deflação e com o euro a desvalorizar, a caminho da paridade com o dólar.

 

Para sistematizar, há aqui três questões de fundo:

 

» A (in)sustentabilidade da dívida grega (com juros de 16% a 5 anos e 10% a 10 anos) e do modelo económico (o PIB caiu 25% em cerca de quatro anos e o desemprego jovem está nos 50%), com mais ou menos austeridade ou receitas anti-troika. Neste ponto, vale a pena lembrar que, tal como acontece com qualquer família ou empresa quando recorre à banca, quem deve tanto dinheiro e não tem capacidade para pagar deve medir bem o que diz no discurso (palavras e medidas) ou o que faz nas formas de negociação perante quem empresta. A posição do governo grego alterou-se nas últimas semanas, depois de périplo europeu mal sucedido, mas há urgência na negociação e, em Atenas, há situações sociais duras. Portanto, estamos perante políticas novas e há que saber gerir essas novas variáveis.

 

» Terá de haver soluções novas para a zona euro, perante esta crise na Grécia e na União Europeia, o que passa pela alteração da posição alemã e dos parceiros mais próximos. Há que contar com a pressão de França, Itália, Espanha junto de Berlim, com o papel do novo presidente da Comissão Europeia e com as medidas recentes do BCE de injeção de liquidez na economia com a compra maciça de dívida dos países zona euro. Ninguém sabe que soluções serão encontradas, nem a sua eficácia e durabilidade, mas já toda a gente percebeu (e a chanceler Merkel também) que é melhor alterar agora do que reagir após o crescimento dos movimentos populistas de extrema direita ou extrema esquerda em vários pontos da Europa.

 

» As incógnitas da sustentabilidade da situação portuguesa e a diferença do caso português:

 

1)      O Estado português consegue financiar-se nos mercados (a valores mínimos na emissão de obrigações, no dia 11, o que é positivo para a imagem de Portugal nos mercados financeiros, dado que o “programa cautelar” terminou a 17 de maio de 2014); os juros da dívida a 10 anos nos 2,5% (o mínimo de sempre foi de 2,37% a 26 de janeiro); o “reembolso antecipado” de 14 mil milhões euros ao FMI (ao longo de dois anos. A curto prazo, as medidas são corretas e surtem efeito, independentemente das posições político-ideológicas de cada um, gerando um reconhecimento geral de que a situação portuguesa é diferente da grega.  

Perante este êxito aparente, apenas duas notas: primeiro, há um "princípio de solidariedade e de responsabilidade" para com a Grécia (assim como houve da zona euro para com Portugal), como afirmou ontem o presidente da República que, entretanto fez questão de recordar os empréstimos de Portugal à Grécia de 1.100 milhões euros no primeiro resgate e afirmar que a Grécia não pode actuar como se estivesse sozinha; segundo, poucos portugueses gostarão de ouvir o ministro grego das Finanças ameaçar que, se a Grécia cair, Portugal é o próximo, mas também é normal a reação crítica dos partidos de esquerda às declarações de Cavaco Silva... Quero acreditar que quem falou terá sido o economista / professor de finanças públicas e antigo primeiro ministro e não tanto o PR, a quem se exige um sentido de unidade nacional. Se o presidente da Grécia dissesse o mesmo sobre Portugal, decerto que haveria uma enorme indignação lusitana.

 

2) Portugal pode beneficiar desta abertura para rever políticas e tentar que o peso dos juros da dívida (ou mesmo parte dela) seja revisto, o que está na origem de um manifesto hoje apresentado para o governo rever posição sobre a Grécia. Ninguém de bom senso dirá que não vamos pagar a totalidade do que devemos aos credores, mas a realidade dos números da dívida externa (Estado, banca e agentes económicos no seu todo) mostra um aumento de 258% para 358% do PIB entre 2007 e 2014 e a dívida pública é também insustentável.

 

Do lado da chamada economia real, o foco tem de estar na balança comercial (mais exportações e menos importações), no crescimento do PIB (que é ténue…), na continuação da descida da alta taxa de desemprego, num contexto de um período longo de inflação negativa, de um período eleitoral com risco de aumento da despesa pública (quando há a meta de corte do défice para 2,7% do PIB este ano), de reformas ainda por fazer e de um fraco investimento das empresas. Ou seja, a retoma é ainda fraca para que baixe o desemprego, a procura interna aumente e a confiança das famílias e empresas também.

Apesar das questões estruturais e conjunturais, há setores / segmentos / nichos de negócio em Portugal que estão a dar a volta por cima (como tenho visto no terreno através do programa “Sucesso.pt”); a taxa de juro do BCE está historicamente baixa (o que é uma almofada social para quem tem empréstimos, até porque a banca já está a abrir de novo a torneira); o preço do petróleo baixou; a inflação é negativa (o que, a curto prazo, beneficia quem consegue ter ainda poder de compra). Portanto, se quisermos ver o copo meio cheio, apesar dos graves problemas sociais que persistem no país, há motivos para acreditar que os tempos de pré-bancarrota (de abril de 2011) estão longe.

 

No entanto, diz o povo português que “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. Como falamos da Grécia e efeitos para Portugal / zona euro, vem-me à memória os ensinamentos da Antiguidade Clássica e recordo que a deusa grega da prudência chamava-se Métis, símbolo de virtude, proteção, saúde, astúcia.

Na mitologia grega, Métis foi a primeira mulher de Zeus (o deus dos deuses) e tinha o poder da metamorfose. Podia transformar-se no que quisesse. Certo dia, Zeus, temendo uma profecia de que ela estaria grávida de um filho que seria ainda mais poderoso, pediu a Métis para se transformar numa gota de água – o pedido do marido foi satisfeito. Zeus engoliu-a porque assim eliminaria o sucessor poderoso "rei de homens e deuses", mas Métis estava grávida de Atena. A filha foi crescendo na cabeça do pai, dado que o ventre materno era água e Métis alojou-se na cabeça do marido. Não aguentando mais as dores, Zeus levou uma pancada ou machadada na cabeça e foi assim que nasceu Atena, a deusa da astúcia - já armada, com capacete, lança, escudo e armadura.

 

Com esta imagem, pretendo apenas tirar três ilações:

- Vale sempre a pena aprender com a mitologia fundadora da Europa e com a História e Cultura deste fabuloso continente, cujo projeto de união política e económica vive dias conturbados devido talvez à falta de prudência na construção e crescimento do projeto da união monetária;

- Sugere-se prudência redobrada aos governantes, cidadãos e mercados perante a situação grega e europeia, com especial atenção e firmeza perante fundamentalismos e radicalismos (da rigidez de teorias monetárias de inspiração germânica às propostas radicais do governo grego de “esquerda radical” ou ao perigo de crescimento da extrema direita na União) que podem levar ao fim do euro e a novas derrapagens orçamentais na Grécia e noutros países com finanças públicas pouco sólidas (não apenas do sul…);

- Devemos ter sempre a cabeça / mente aberta a novas soluções, agindo com astúcia, visão estratégica e sem preconceitos ou agarrados a modelos que não funcionam porque o mundo é composto de mudança.