Opinião

Preparem-se para o "sucesso" de Bolsonaro em 2019

Crise económica, crise política e crise de segurança. Bolsonaro cresceu e venceu em cima desta tripla crise. E agora tem tudo a favor para que as coisas lhe corram bem.

Preparem-se para o “sucesso” de Bolsonaro

A eleição de Jair Bolsonaro foi um dos acontecimentos mais marcantes de 2018. Marcantes e extremos, por tudo o que ele é, representa, pensa e diz. Mas o acontecimento em si não foi uma grande surpresa, sobretudo para quem acompanhou os últimos meses da campanha eleitoral brasileira. Bolsonaro cresceu no vazio da política tradicional, destruída pela corrupção, pelo absurdo impeachment de Dilma, pela brutal crise económica, pela violência e insegurança, e pela fraqueza das instituições de uma democracia muito jovem.

Convém não esquecer isto. Porque, se é verdade que Bolsonaro é um líder impreparado e extremista, é ainda mais verdade que tem quase tudo a seu favor para continuar a ser um Presidente popular por algum tempo. Se a economia brasileira crescer como é esperado, se o desemprego cair, se a corrupção diminuir e se a criminalidade baixar, não há nada que trave a sua popularidade.

Pode dizer alarvidades dia sim dia não, pode continuar sem perceber de economia ou de política externa, pode ter alguns ministros absurdos, pode continuar no twitter, pode dar um poder excessivo aos seus filhos, pode tudo, incluindo manifestar simpatia por uma ditadura horrível. Os que o elegeram ligam pouco a isso: querem uma economia a crescer, uma justiça mais dura com o crime e menos toma-lá-dá-cá no Congresso e no Senado. Tão simples como isto.

No médio e no longo prazo, Bolsonaro pode ser a tragédia que muitos temem ou anunciam. Mas no curto prazo, não vai ser nada disso. Pelo menos, nos grandes indicadores nacionais. Basta que os superministros da economia e da justiça – Paulo Guedes e Sergio Moro – façam o seu trabalho (incluindo o que está ligado às suas facetas polémicas e altamente discutíveis) para que a popularidade do novo Presidente se mantenha alta em 2019.

Crise económica, crise política e crise de segurança. Foi esta tripla crise que elegeu Jair Bolsonaro. E é em cima dessa tripla crise que ele vai caminhar muito facilmente. A única oposição que existe é a do PT, um partido grande e relevante, mas que continua capturado pelo caso judicial de Lula da Silva e que não consegue descolar do passado recente. O centro e o centro-direita implodiram no pós-impeachment e nunca mais renasceram. A esquerda mais moderada não tem espaço e não quer dar a mão ao PT.

O número de mortos e feridos no espetro político brasileiro é enorme. Há vítimas em todos os lados. Bolsonaro escapou porque vinha de um nicho sem relevância, ligado a um partido quase inexistente. Na política não há vazios e ele ocupou-os. Em 2019 tem quase tudo a seu favor. Preparem-se para o “sucesso” de Bolsonaro.