Opinião

Brexit e Trumpxit

Britânicos e americanos pagam o preço da traição política perpetrada pelos novos dirigentes que iam por toda a gente na ordem, acabar com o regabofe e “limpar isto tudo”. Escolheram os seus inimigos para resolverem os seus problemas. E o pior ainda está para vir.

Por curiosa coincidência, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos enfrentam, simultaneamente, as consequências de decisões desastrosas e desastradas de eleitorados ignorantes, manipulados por políticos de má fé.

Os britânicos estão quase a chegar ao fim da linha Brexit sem saberem o que fazer, mas com a sensação amarga de que a saída da União Europeia (obrigado David Cameron por tanta e inesgotável sensatez e incomparável instinto político...) é uma versão brutalmente complexa de “pior a emenda do que o soneto”.

Os americanos veem o país transformado num circo, com o presidente sujeito a 17 investigações (e mais a caminho), o FBI a suspeitar que Trump era agente russo, o Governo encerrado, a segurança dos transportes aéreos em causa, forças militares em uniforme – Guarda Costeira – pela primeira vez na história do país sem salários e centenas de milhares de funcionários públicos dubiamente declarados essenciais para serem obrigados a trabalhar sem salário durante o encerramento do governo – tudo por causa da ideia construção de um muro na fronteira com o México.

Nem o Brexit resolve os problemas britânicos, nem o muro resolve os problemas americanos. Em ambos os países, políticos malévolos usaram o Brexit e o muro como adereços numa encenação, na criação de paradigmas de uma nova era anti-imigrante e anti-imigração.

Assim como as promessas do repugnante Nigel Farage não passavam de mentiras pintadas em autocarros, o muro de Donald Trump não foi uma promessa eleitoral medida e estudada – apenas um truque dos seus assessores para ele não se esquecer da falar da imigração. O muro, como instrumento de controle fronteiriço, nunca existiu nem fez parte de um plano.

Tanto assim, que apenas metade das verbas orçamentadas para a segurança fronteiriça em 2017 e 2018 foram gastos. Aliás, na proposta de orçamento para 2019 que enviou ao Congresso, a administração pediu apenas 1.600 milhões de dólares para a segurança na fronteira (verba aprovada), para mais tarde exigir, arbitrariamente, 5.700 milhões e uma adenda de 800 milhões, enviar o vice-Presidente Mike Pence e o chefe de gabinete Mick Mulvavey ao Congresso propor2.500 milhões, como compromisso, e acabar por destratar Mulvaney em frente a senadores e congressistas: “Mick, já f****te isto tudo”.

Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, em contextos diferentes com origens comuns, estão a braços com dirigentes que não conseguem liderar (Trump muito pior que May) ambos ineptos e incapazes.

Independentemente dos resultados destas crises, o mal está feito. E o pior, é que no fim de tudo isto fica um amargo de boca, uma desconfiança de todas as instituições, uma desconfiança da verdade, das decisões racionais baseadas em factos, uma casa dividida que não lucra a ninguém exceto aos que pretendem destruir a democracia.