Opinião

Onde não há pão, não há razão

Henry Romero

Quando a ignorância, a pobreza e a ganância se juntam, acontecem tragédias como a que, na sexta-feira, matou dezenas de pessoas, no México.

Estavam centenas, há vários dias, a encher bidões e garrafas com combustível que jorrava de furos, ilegais, feitos sem qualquer segurança, num oleoduto no centro do país.

Na verdade, estavam a roubar combustível.

Como já aconteceu tantas vezes, nos últimos meses, em várias regiões mexicanas.

A população queixa-se dos preços, muito altos dos combustíveis e da escassez, que obriga a passar horas em filas nas estações de serviço.

As empresas queixam-se dos milhares de litros roubados.

O Governo queixa-se dos milhões de pesos que não entram nos cofres do Estado.

E entre as queixas de todos, lá vem a velha máxima popular da falta de pão estar, sempre, associada à falta de razão.

Neste caso é a falta de gasolina e gasóleo que, nos tempos que correm, são quase tão necessários quanto o pão.

E que, para muitos dos que morreram queimados junto áquele oleoduto serviam, depois de vendidos no mercado negro, para pagar ao padeiro.

E ao merceeiro

E à farmácia.

O México é o 11.º produtor mundial de petróleo e um dos 15 que mais exportam em todo o mundo.

A venda de crude e derivados contribui, com uma grande fatia, para o Produto Interno Bruto.

Mas, como acontece em tantos países, uma das maiores riquezas nacionais não chega ao cidadão comum que, desesperado, está disposto a correr o risco de morrer queimado num qualquer campo do interior do país, numa explosão que era mais do que prevista quando se faz jorrar combustível como se fosse água.