Opinião

Cair de Maduro, sem invasão

A opinião de Luís Costa Ribas, correspondente da SIC nos Estados Unidos da América.

Os EUA não vão invadir a Venezuela. Donald Trump gosta de promover a hipótese de uma intervenção militar para, se – ou quando – Nicolas Maduro cair, reivindicar o crédito pela queda do ditador venezuelano. E Maduro sabe que os americanos não vão invadir o seu país. Mas bate ruidosamente o pé para desacreditar a oposição interna, aliando-a aos “invasores” e, se não cair, atribuir a “vitória” à sua firme resistência.

A Venezuela não tem boas opções. Vive a miséria herdada do populismo chavista e da sua Revolução Bolivariana. Um pouco como a cigarra e a formiga – cantaste, agora dança – o regime esbanjou dinheiro quando o petróleo era vendido a 140 dólares por barril e pôs o povo à fome e a penar quando os preços do “ouro negro” se despenharam. Com a pobreza económica, vieram o agravamento da pobreza política, a fraude eleitoral e o aumento da repressão, pilares da sobrevivência de um regime que perdeu os seus governados.

Face à miséria do socialismo Venezuelano não seria surpreendente ouvir de Washington manifestações de solidariedade para com a oposição democrática. Surpreendente foi esse apoio ter sido manifestado por Donald Trump que procura conforto numa plateia internacional de autocratas e tem como adversários as democracias aliadas dos Estados Unidos. Ou seja, seria mais normal Trump apoiar Maduro, alma gémea que já conseguiu o que Trump ambiciona: subjugar as instituições democráticas à sua vontade e fazer da sua vontade a lei.

O que foi diferente nesta primeira vez em dois anos em que a administração apoia a democracia foi Michael Pompeo, o secretário de Estado dos estados Unidos (cargo equivalente ao de Ministro dos Negócios Estrangeiros). O ex-congressista da ala Tea Party, e antigo director da CIA e situa-se ideologicamente à direita claramente contra o socialismo e tem convicções. Trump tem comportamentos de um populista de extrema-direita mas sem princípios nem convicções políticas. As convicções de Pompeo levaram-no criar uma aliançainternacional que rapidamente isolou maduro e apoiou Juan Guaidó. Quando confrontado com uma “vitória” oferecida de bandeja Trump reconheceu Juan Guaidó como presidente.

Pompeo e o Departamento de Estado arriscam muito. Não sabem se o apoio económico político e diplomático dos EUA será suficiente para fazer cair Maduro. Ameaças vagas que deixam “todas as opções” na mesa valem pela sua ambiguidade. Na ausência de um ataque à embaixada e consulados dos EUA, ou uma “caça aos gringos”, e sem uma ameaça à segurança nacional americana, a opinião pública e a Washington política não apoiam uma intervenção militar. Tal intervenção ao lado de Guaidó destruiria a sua reputação e credibilidade internas – mais ainda face a possíveis baixas entre civis.

Mas recentemente, fez-se ouvir a voz mais radical de John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, que mantém uma vigorosa guerra de bastidores com Pompeo pelo domínio da política externa americana. Num tweet, declara o mesmo nível de gravidade de “qualquer violência ou intimidação” perpetrada contra americanos na Venezuela, Juan Guaidó, ou a Assembleia Nacional, o que pode alargar o leque de acções passíveis de precipitar uma intervenção militar.

Muito vai depender da voz a quem Trump der mais ouvidos. Se Pompeo, o sobrevivente por excelência e mestre da táctica política, ou Bolton, o lança-chamas republicano, de serviço há várias décadas. Um oferece a possibilidade incerta de uma vitória, o outro oferece uma descarga de adrenalina que seria em si mesma a vitória. Dois estilos, duas formas de estar. Arriscaria que Pompeo tem uma mão mais forte, porque é mais perigoso intervir militarmente na Venezuela para assegurar uma vitória que pode dar em derrota (não há aqui paralelismos fáceis com o Haiti ou o Panamá), do que aguardar que o regime de Maduro alua, sob a pressão interna da fome e da miséria, das sanções internacionais e do isolamento e, sobretudo, de uma aposta da oposição interna e externa na degradação do pilar militar que sustenta o regime. Trump não tem esta racionalidade, mas Pompeo têm-na e tem mais aiados do que Bolton.

Pode ser que Maduro caia de podre, como num slogan anarquista grafitado nas paredes de Lisboa nos meses seguintes ao 25 de Abril: “Não cai porque não é um edifício. Sai com benzina porque é uma nódoa”.

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