Opinião

“A única emergência nacional é que o nosso Presidente é um idiota”

A emergência nacional decretada por Donald Trump (não é, insisto, não é, estado de emergência) reflete a sua opção pelo medo de uma crise de crime e imigração que não existe, como tema central das presidenciais de 2020. Para os democratas, o foco é outro: a perda de poder de compra da classe média e o avanço do capitalismo selvagem.

“A única emergência nacional é que o nosso Presidente é um idiota”, opinou Ann Coulter, uma comentadora de extrema-direita e, até há pouco tempo, fervorosa apoiante de Donald Trump. Coulter manifestava desagrado com a decisão de Trump promulgar o orçamento para o resto do ano fiscal em curso, sem verba para a construção de um muro na fronteira com o México, e apenas 1.375 mil milhões de dólares para outras barreiras físicas. Como alternativa, Trump declarou uma emergência nacional, de dúbia legalidade, para tentar financiar o muro com fundos desviados de outras rubricas orçamentais. Essa declaração, diz Coulter, serve apenas para “enganar as pessoas mais estúpidas na base eleitoral” republicana.

É provável que a declaração de emergência nacional morra nos tribunais. Uma lei de 1976 permite ao Presidente declarar a emergência em circunstâncias muito limitadas, e certamente não para contornar a recusa do Congresso em financiar o muro – este tem competência legislativa total e exclusiva em matéria orçamental.

Mas para Trump, a construção do muro não é um fim em si: é um assunto, é um tema político. Se não conseguir construir o muro – e até agora não construiu um único metro de muro novo apesar das mentirosas reivindicações em sentido contrário e de mandar colocar o seu nome em placas nos muros, ou vedações existentes quando estes são reparados – Trump fará campanha a queixar-se de não o deixarem construir o muro.

Se pretendesse, de facto, construir o muro na fronteira, Trump teria aceite uma proposta democrata no ano passado: 2.5 mil milhões de dólares por ano, durante 10 anos, a troco da legalização dos “dreamers”: 1.8 milhões de pessoas chegadas aos EUA, ilegalmente, enquanto crianças e que não conhecem outro país. Depois de aceitar a proposta, Trump sabotou-a ao exigir, concluídas as negociações, novas e drásticas reduções à imigração legal.

Que o muro em si não era uma prioridade, ficou claro na primeira conversa, após a sua investidura, com o Presidente do México, a quem Trump disse que o muro não era importante mas pedia ao seu homólogo para não o contrariar publicamente. A prioridade de Trump, e o que o muro representa, é o denominador comum dos novos dirigentes autoritários ou a tanto candidatos: uma atitude anti-imigração, sobretudo quanto aos imigrantes “errados”. Isto é, imigrantes negros ou castanhos dos “países de merda”. Nos Estados Unidos, como na Hungria, Itália, Polónia e outros, ser anti-imigração é um fim político em si. Os imigrantes são o bode expiatório dos males nacionais.

O muro é, pois, uma arma de arremesso eleitoral. Na sua ausência, Trump argumentará que os Estados Unidos são um país à beira da catástrofe. Recuperando a linguagem cataclísmica do seu discurso na convenção republicana de 2016 e da tomada de posse de Janeiro de 2017, Trump.

Os 12 democratas que já anunciaram a intenção de se candidatarem contra Trump, têm, na maioria posições “progressistas” e, na ausência de programas eleitorais concretos, esboços voltados para a classe média: acesso universal a cuidados de saúde, ensino universitário gratuito, impostos sobre não apenas os rendimentos dos mais ricos mas, também, sobre a fortuna acumulada, e melhoria dos rendimentos da classe média.

O que fomenta estas propostas é o crescimento rápido da disparidade de rendimentos, e da fortuna acumulada, nos Estados Unidos. O site americano www.inequality.org tem este esclarecedor quadro da riqueza acumulada por indivíduos nos Estados Unidos. As três pessoas mais ricas do país têm 40% mais do que metade dos americanos menos afortunados. Qualquer combinação entre o mais rico, Jeff Bezos, e o segundo (Bill Gates) ou o terceiro (Warren Buffet), resulta numa fortuna igual à metade dos americanos menos afortunados.

Ao nível dos rendimentos, o fenómeno é semelhante, conforme se nota no quadro referente ao rendimento médio por agregado familiar.

É esta a realidade que leva os democratas a acreditarem que as suas propostas podem ter sucesso eleitoral em 2020 e a apresentarem Trump como o contrário da solução. Trump será descrito como o empresário vigarista que herdou uma fortuna do pai, perdeu boa parte em maus negócios e a recuperou enganando terceiros.

Mas esta estratégia não garante vitória. Desde logo, muitos “lesados de Trump” votaram nele e poderão voltar a fazê-lo, tudo dependendo da eficácia da comunicação eleitoral de quem for o candidato democrata e da violência política nas primárias. Acresce que há uma forte corrente democrata que favorece um papel preponderante de uma campanha eleitoral baseada em políticas identitárias e de género, que não colhe junto da maioria do eleitorado.

E, como é óbvio, cada um dos lados tentará não apenas incentivar o voto da sua base de apoio, mas desmobilizar a base de apoio adversária. Vai valer tudo, mesmo tirar olhos. Voltaremos ao assunto.