Opinião

"Serei como um saco ao vento"

Muito antes da votação sobre o Brexit, a minha "aposta" era que o Brexit ia mesmo acontecer.

Não chovia em Londres quando David Cameron foi reeleito, num resultado tão improvável que analistas, comentadores e politólogos caseiros e internacionais engoliram em seco na noite das eleições, fazendo contorcionismo linguístico para disfarçar a surpresa do que os britânicos tinham acabado de dizer nas urnas.

"Como o meu chapéu se Cameron ganhar".

Vários comentadores ainda tentam, hoje, comer pedaços dos seus próprios chapéus.

Estávamos em Maio de 2015 e o Brexit estava "condenado" à vitória.

Foi a sensação com que fiquei.

Disse-o, nesse mesmo ano, em Novembro, no "Expresso da Meia Noite". Era o único do painel de quatro a apostar no sim ao Brexit e lembro-me de terem ficado todos a olhar para mim como se fosse maluco.

O Brexit é um cínico exercício da diplomacia inglesa, levado ao extremo com uma campanha vigorosa e populista nas ruas, com a intenção de deixar de vez a União e manter os britânicos "orgulhosamente sós".

Em boa verdade, eles nunca estiveram de corpo e alma na União Europeia. A libra é, apenas, um símbolo dessa resistência.

Na Londres de Maio de 2015, as eleições que Cameron venceu já eram, de certa forma, um referendo ao Brexit.

Um teste.

Durante a campanha eleitoral, a pergunta que fiz nas ruas aos eleitores britânicos foi precisamente essa: vai votar sim ou não ao Brexit.

Pode não haver Brexit?

Pode.

Mas só com um novo referendo, uma mudança de primeiro-ministro e uma gigantesca campanha populista e massiva contra a saída do Reino Unido da União.

Numa esplanada de Oxford Street sentei-me a beber um café horrível e acabei a entrevistar o senhor da mesa ao lado. (VER VÍDEO)

Negro, filho de pais somális, 23 anos, no Reino Unido desde os … 3 anos. Nunca tinha posto os pés em África.

Repito.

23 anos. No Reino Unido desde os 3.

Preocupado.

Falamos, claro, do Brexit.

Não precisou de muitas palavras para prever o que lhe aconteceria, a ele e a milhares de outros como ele, oriundos de várias latitudes, independentemente se se "sentirem" britânicos.

"Com o Brexit, serei como um saco ao vento".

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