Opinião

Trump vs. a verdade

A administração Trump fez o expectável, mas condenável, com o relatório Mueller sobre o conluio com a Rússia: “revelou” um sumário do que lhe convém e escondeu as verdadeiras conclusões. Conhecer a verdade vai ser uma luta de meses... ou anos.

Na sexta-feira (22 de março) ao fim da tarde, o procurador especial Robert Mueller entregou ao Departamento de Justiça as conclusões do inquérito ao conluio da campanha de Donald Trump com a Rússia nas eleições de 2016.

No domingo ao fim da tarde, o novo procurador-geral, William Barr (nos EUA o procurador-geral é também o equivalente a ministro da Justiça), revelou as “conclusões principaisdo relatório de 300 páginas, com um sumário manipulado de quatro páginas concluindo que Mueller disse, e o que não disse, salvaguardando assim a posição de Trump neste escândalo.

Barr foi empossado há dois meses, com a missão de salvar Trump da crise criada com as eleições de 2016. Tinha advogado em público que a investigação, mais do que desnecessária, era inútil e perigosa.

A sua nomeação sucedeu a um período de dois anos em que Trump insultou de forma soez e desprezível o procurador-geral anterior, Jeff Sessions (nomeado pelo próprio Trump), o seu vice e todas as pessoas envolvidas no inquérito. Utilizando a linguagem da mafia, chamou “ratos” aos que depuseram contra ele, incluindo ex-advogados cúmplices em acções potencialmente ilegais.

Não surpreende, pois, que na sua “revelação” Barr, escolhido por Trump para fazer exactamente aquilo que fez no fim-de-semana, tentado utilizar Mueller para ilibar Trump.

Concluiu, citando Mueller, não haver provas de conluio. E concluiu, não citando Mueller (mas querendo fazer parecer que o fazia) que não houve obstrução de justiça quando Trump tentou interferir no inquérito – o que aliás confessou publicamente mais do que uma vez. Ainda estamos lembrados, (ou não?) do dia seguinte à demissão do director do FBI, James Comey, Trump ter dito na Sala Oval ao ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, que o problema com Moscovo fora minorado.

Imediatamente após a “revelação” de Barr, Trump, os seus apoiantes e muitos comentadores apressados declararam a vitória da Casa Branca e seguiram para bingo.

Se é esse o caso, então o relatório devia ter sido revelado na íntegra. O facto de não o ter sido revela, tão só, receio do seu conteúdo e de matéria extraordinariamente lesiva para Donald Trump. Ele sabe o que fez. E por isso passou dois anos a minar e desacreditar o inquérito.

A Casa Branca indicou que vai recorrer ao chamado “privilégio executivo” – destinado a salvaguardar a confidencialidade de certas comunicações entre presidentes e os seus assessores – para impedir ao máximo a divulgação do conteúdo do relatório Mueller. Quem não deve não teme e, pelos vistos, Trump deve a toda a gente.

Ora, a única maneira de saber se Trump é, ou não, ilibado, não só do conluio, como da obstrução de justiça é a divulgação integral e imediata do documento. A integridade de Robert Mueller está acima de toda a suspeita e as suas conclusões devem ser respeitadas por todos.

O que é impossível respeitar, é o jogo do conta-gotas, das revelações manipuladas, destinadas a utilizar o trabalho de uma pessoa íntegra para fins inconfessáveis. Só a verdade pode clarificar o que se passou. A sua ocultação é a vitória da mentira.

Mas há uma coisa que nenhum comentário e manipulação muda: cerca de uma dezena de processos pendentes contra Trump, a sua família e as suas empresas nos tribunais federal e estadual de Nova Iorque. Esta corrida é de fundo, não um sprint.

A única consequência definitiva deste incidente, é o facto de deitar por terra os planos de alguns democratas radicais para impugnar Trump.

Mesmo que Mueller revelasse crimes graves, o Senado republicano é refém de Trump e nunca o impugnaria. Ou seja, ainda que a Câmara dos Representantes aprovasse, como concede o Artº 2º, Secção 4ª da Constituição, a impugnação de Trump, ele teria de ser julgado no Senado, nos termos do Artº 1º, Secção 3ª da Constituição e condenado por uma maioria de dois terços. Isso requeria 67 votos, ou seja, todos os democratas e 20 republicanos. Não há, no Senado, 20 votos republicanos contra Trump e ele nunca seria impugnado. Logo, apresentar-se-ia como uma vítima dos democratas radicais e odiosos mas, no fim, vencedor.

Por isso a líder democrata no Congresso, Nancy Pelosi, diz, quase há um ano e meio, que Trump deve ser derrotado nas urnas e não numa impugnação.

Politicamente penosa, a impugnação existe porque a Constitução aceita que, em casos extraordinários, a justiça destitua um presidente eleito. Mas se não é possível levar o processo a bom termo, ele vira-se contra os instigadores, como aconteceu aos republicanos que tentaram impugnar Bill Clintonem 1997 e 1998.

Para já, a busca pela verdade vai passar pelos tribunais em meses de litígio para se conhecer a íntegra do relatório Mueller. Trump escondeu as suas declarações de rendimentos, escondeu os seus negócios discutíveis com a banca estrangeira, escondeu as falências que desfalcaram investidores, escondeu as fugas ao fisco com que herdou 400 milhões de dólares do seu pai, escondeu sumários oficiais de conversas suspeitas com líderes de outros países... e esconde agora o instrumento que pode esclarecer o que se passou em 2016.

Não é inesperado, mas não é um ultraje menor. A democracia morre no escuro e isto não acaba aqui.

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