João Lopes

Opinião

João Lopes

Crítico de Cinema

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Saudades da fábrica de sonhos do musical

João Lopes

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Crítico de Cinema

A estreia de “Rocketman”, sobre Elton John, leva-nos a reconhecer que há toda uma história do cinema musical que poderia ser redescoberta. Afinal, um filme como “Serenata à Chuva” continua a ser um espectáculo a merecer o grande ecrã...

Saudades do cinema musical? Sim, sem dúvida. Quando vemos cartazes como o de “Serenata à Chuva”, uma das obras-primas do género, lançada em 1952, é difícil não experimentar a sensação de que exemplos como esse pertencem a um tempo — e, sobretudo, a um modelo de produção — impossível de duplicar.

A recente estreia de “Rocketman”, filme esforçado, honesto e inapelavelmente menor sobre Elton John, é sintomática das razões da nossa nostalgia. Agora, encontramos encenações mais ou menos pomposas que, na melhor das hipóteses, são variações esquemáticas sobre o universo dos telediscos. Quando vemos ou revemos títulos como “Serenata à Chuva”, compreendemos que estávamos perante a verdadeira “fábrica de sonhos”. E não nos equivoquemos: o essencial não residia na promessa dos “sonhos”, mas no conceito de “fábrica”.

Assim aconteceu. E muito em particular nos estúdios da Metro Goldwyn Mayer. “Serenata à Chuva” é um dos títulos exemplares da unidade de produção dirigida por Arthur Freed (1894-1973), criador com um sofisticado sentido de espectáculo, capaz de reconhecer e valorizar os talentos dos seus colaboradores.

Tudo começou em 1944, com “Meet Me in St. Louis” (entre nós chamado “Não Há Como a Nossa Casa”), espectáculo de delicada exuberância situado no começo do século XX, com a maravilhosa Judy Garland sob a

direcção do grande Vincente Minnelli. Depois, no reinado de Freed (até meados da década de 50), surgiram filmes admiráveis como “Um Dia em Nova Iorque” (1949), de Stanley Donen e Gene Kelly (a mesma dupla que viria a dirigir “Serenata à Chuva”), “Um Americano em Paris” (1951) ou “A Roda da Fortuna” (1953), ambos de Minnelli.

O que todos estes filmes reflectem é um conceito de cinema que está para além do mero “registo” de espantosos quadros musicais, cantados e dançados. Da construção do espaço às nuances românticas, Freed ajudou a consolidar um espectáculo total que, em boa verdade, desapareceu de Hollywood. Porquê? Porque o próprio conceito de género se foi dissipando. O musical, tal como o “western” ou o melodrama, era um domínio criativo com regras muito particulares, apoiado num “know how” tão exigente quanto requintado.

É pena que, de um modo geral, o mercado cinematográfico (não apenas no plano nacional, mas em termos globais) tenha pouca imaginação para valorizar as componentes comerciais de filmes como “Rocketman”. Não seria interessante recuperar filmes que, além do mais, as gerações mais novas nunca tiveram oportunidade de ver em ecrã gigante? Relançar, por exemplo, “Serenata à Chuva” nas salas escuras seria uma maneira de convocar os espectadores para um exercício compensador. Com este lema: vejam as diferenças...

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