Opinião

A miúda deu-lhes um ralhete. E eles bateram-lhe palmas

Carlo Allegri

Opinião de Pedro Cruz, SIC.

Apontou-lhes, apontou-nos o dedo, falou em nome de uma geração que não quer saber de conversas, de bazófias, que cresceu noutro mundo, mais desperto, mais informado – ou, pelo menos, com acesso a mais à informação, o que não é, nem de perto, a mesma coisa – mas às vezes mais radical, muito mais imediato, tão imediato como uma rede social, uma fotografia partilhada, um comentário em poucas palavras.

O GAP geracional é, talvez, o maior de toda a história da humanidade.

Nós usamos as ferramentas que «eles» usam, mas «eles» já nasceram a utilizar essas ferramentas na ponta dos dedos.

Já são deste milénio, não querem saber do passado, das saudades, não imaginam o que foi a era pré-internet, a construção de estados e de países. Não têm fronteiras. A tal «globalização» é isto, uma miúda na Suécia que, através das redes, movimenta milhões em todo o mundo. E, ao contrário de outras greves de estudantes, que eram pretexto para faltar às aulas, desta vez é a sério, percebe-se o que eles querem, têm discursos articulados e que fazem sentido, meio utópicos às vezes, mas com uma necessidade de urgência.

Não há planeta B, de facto.

Não há tempo nem espaço para falhar.

Os políticos habituados a falinhas mansas e à ditadura do:

- «É a economia, estúpido».

Começam a perceber, espero eu, que daqui a nada esta miúda e outros miúdos são os futuros líderes das nações.

É bom que sejam os mais novos a chamar a atenção para os temas que lhes vão assombrar as vidas.

Mas a lágrimas, a emoção na voz, o dedo em riste e o soco no estômago não chegam, por si só, para mudar nada.

Lá será preciso que os políticos - eleitos, recordo – façam o que lhes compete.

Também não chega só aplaudir a miúda que (nos) lhes deu um ralhete.

As palmas não salvam o planeta nem fazem crescer a economia.

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