Opinião

A Trumpalheira

JONATHAN ERNST

A opinião de Luís Costa Ribas.

O que fariam os portugueses se Cavaco Silva tivesse pedido “podres” sobre o filho de Mário Soares a José Eduardo dos Santos?

É difícil, por vezes, perceber à distância a gravidade das suspeitas que pairam sobre Donald Trump, no inquérito de impugnação em curso no Congresso americano.

Trump e várias pessoas à sua volta pressionaram a Ucrânia a investigar malfeitorias alegadamente praticadas por Hunter Biden, filho do ex-vice-presidente americano Joe Biden, atual pré-candidato às presidenciais de 2020.

Não provas de irregularidades praticadas por Hunter, na direção de uma empresa ucraniana quando o pai era vice-presidente. Parece mal. Muito mal. Mas há processos e formulas para investigações judiciais, caso existem suspeitas fundadas de que Hunter cometeu crimes ou delitos.

O que não pode haver, em democracia, é a substituição do trabalho das instituições por ações intimidatórias de amigos de Trump e alguns elementos da administração (que devem apenas representar o Estado), destinadas a promover os interesses privados (a reeleição) de quem ocupa temporariamente a presidência.

Isso parece altamente irregular e o Congresso iniciou um inquérito com vista à possível impugnação de Donald Trump.

Aos observadores portugueses deste processo propõe-se um exercício.

Em Setembro de 1989, João Soares, filho do então Presidente da República, Mário Soares, visitou a Jamba, no Sul de Angola, para assistir ao Congresso da UNITA. Foi acompanhado por Rui Gomes da Silva (deputado do PSD) e Nogueira de Brito (deputado do CDS).

Quando regressavam a Portugal, via África do Sul, o avião que os transportava clandestinamente caiu ao descolar, com presas de elefante a bordo. O MPLA, Governo de Angola e seus aliados, acusaram João Soares, sem qualquer prova, de estar envolvido em tráfico de marfim, em artigos insultuosos e mentirosos. Parece mal João Soares ter estado onde esteve, nas circunstâncias em que esteve. Mas, tal como no caso de Hunter Biden, não há provas da prática de qualquer crime por João Soares.

Adiantemo-nos até 2006, ano de eleições presidenciais em Portugal em que o presidente Cavaco Silva tinha Mário Soares como um dos seus adversários.

Imagine-se que Cavaco Silva, que mantinha boas relações políticas com Angola, telefonava ao então chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, a pedir uma investigação a João Soares para usar os resultados contra o seu pai e adversário político, Mário Soares. Seria, certamente, um escândalo. Como é um escândalo o que fez Trump em relação à Ucrânia. Por isso foi lançado no Congresso dos EUA, um inquérito de impugnação. Um governo é uma coisa, uma Trumpalheira é outra. Por isso foi decidido por um travão, não a uma presidência mas a um abusador da mesma.