Opinião

O entusiasmo do deputado Rui Rio

A entrada de Rui Rio no debate do programa de Governo foi a pés juntos.

A entrada de Rui Rio no debate do programa de Governo foi a pés juntos. Atirou em várias direções, em pontos sensíveis da governação. Mostrou que não hesitará em fazer do Parlamento o palco para vencer as diretas. Costa respondeu-lhe à letra. Deu-lhe gás.

Reparem como, à exceção dos partidos mais pequenos, Rui Rio é talvez o deputado que se apresenta mais livre. Na verdade, tem pouco ou nada a perder, as expectativas foram colocadas tão em baixo que parte sem constrangimentos. Pode arriscar tudo, e dizer o que as pessoas querem ouvir. Esse sinal foi dado, e bem, quando na semana passada se manifestou contra o tempo – apenas dois dias! - para estudar o programa de Governo. De facto, não faz sentido.

Olhem para as bancadas: António Costa diz-nos que “o país está nos carris” e que agora há dinheiro para tudo. Mas nada diz sobre Centeno: fica até quando? Está ou não o Governo a descolar-se do ministro do Eurogrupo? Ouvimos também as críticas da esquerda à governação como se apagassem o retrato conjunto dos últimos quatro anos. E à direita, no CDS, a automutilação é indisfarçável. A nova vizinhança também não ajuda.

O quadro geral é propício ao jogo de Rio. O dia não foi bom para Luís Montenegro, aliás, a chamada oposição interna, insurge-se: está a ser incoerente. Não era ele que defendia acordos com o Governo que agora ataca? Julgo que cometem um erro de leitura, este não é o tempo para medir incoerências ou cotejar intervenções. Rio dirá agora o que for preciso para ganhar as diretas. E está em vantagem. Tem palco e um primeiro-ministro que lhe dá troco.

Até às eleições internas o debate não mudará de tom. É certo que o vão pôr ao nível do Chega ou do Iniciativa Liberal, da oposição de “tabacaria”, mas Rio já avisou que funciona melhor acossado. É verdade que nada disse sobre o baixo crescimento nacional, a elevada carga fiscal e os problemas no investimento, mas compensou com o entusiasmo no ataque. Pode parecer pouco, mas é sempre mais alguma coisa.