Opinião

Não chove em Berlim, meu amor

A televisão acabava de dizer que já não era preciso visto para atravessar o muro.

Não chovia em Berlim naquela noite.

A televisão acabava de dizer que já não era preciso visto para atravessar o muro.

O jornalista fez a pergunta:

- a partir de quando?

- de imediato.

As autoridades da Alemanha oriental não estavam prontas para o que viria a seguir.

Uma sucessão de acontecimentos nos meses anteriores não indiciavam que tudo «aquilo» acabaria assim, «de imediato».

Na fronteira, oficiais sargentos e guardas ficaram sem saber o que fazer.

De «de imediato», milhares de berlinenses do lado oriental desceram as ruas em direção à outra Berlim.

À mesma Berlim.

As portas abriram-se, assim, «de imediato», e o mundo entrou num processo que já não tinha como voltar atrás.

Sem tiros, sem polícia, sem forças especiais, sem sangue.

Só com lágrimas.

Não estava em Berlim nessa noite em que não choveu.

As imagens que chegavam pela televisão, os sons, os relatos dos enviados, o muro a ser partido a martelo, à força de braços, gente abraçada, uma multidão a tomar as ruas, a celebrar, os políticos sem saber o que fazer.

E os guardas da fronteira que desistiram de cumprir a ordem.

A polícia de choque não saiu, os militares ficaram nas casernas.

E o povo, o mesmo que marchou semanas seguidas, primeiro cem, depois mil, depois milhares, depois um milhão, essa massa cheia de força - ninguém manda abater um milhão de pessoas - a história a mudar diante dos nossos olhos, eles a fazerem a história naquele momento.

E nós, e eu, que queria tanto estar lá, naquele momento, fiquei apenas a ver a história acontecer.

O triunfo de cidadãos sobre a ditadura, os Trabant a cruzar a fronteira, dois mundos, tão diferentes, tão opostos, tão perto.

Em 2003, no filme «Adeus, Lenine», a história daqueles momentos voltou à minha memória. E a reconstrução de uma realidade que já não existia para manter viva uma fervorosa apoiante do regime tem tanto de amor como de non-sense.

Naquela noite de 89, em Berlim, o muro caiu, o mundo começou a mudar.

Não choveu e eu queria muito ter lá estado.

  • “Entregues à Sorte” – Quarto episódio
    27:01