Opinião

O regresso do animal feroz

TIAGO PETINGA

A entrada foi, como sempre, pensada ao detalhe: diante de um molho de perguntas, nada de responder, apenas parar para passar a mensagem que se quer e depois agradecer e seguir, sempre com os tiques de "antigamente".

O nó da gravata, impecável, a gravata lisa, como quase sempre - dizem os estudiosos da moda, do comportamento e das duas coisas juntas que a gravata lisa representa falta de personalidade o que, manifestamente, não parece ser o caso - a camisa branca com colarinhos "à Obama", o fato cinzento escuro, tudo impecável, a mesma pose de sempre, peito para fora, aquele jeito de andar, direito, e a profunda impaciência, até algum despudor e sobranceria.

A narrativa - a palavra reentrou no vocabulário político muito por causa dele - vinha bem estudada, sem atropelos, a mensagem era aquela e mais nenhuma, fosse qual fosse a pergunta, a resposta seria sempre a mesma.

A entrada foi, como sempre, pensada ao detalhe: diante de um molho de perguntas, nada de responder, apenas parar para passar a mensagem que se quer e depois agradecer e seguir, sempre com os tiques de «antigamente»:

- "Importa-se de me deixar terminar?"

Nova pergunta, outro tema, a mesma resposta, a mesma irritação, o mesmo enfado.

Lá dentro, com imagem para fora mas sem som, a postura de sempre, afirmativa, combativa, irada, colérica, de quem não quer sequer disfarçar o que está a pensar, o ar de espanto, indignação, a irritação de sempre, o discurso articulado.

Ele não mudou nada.

Se pegarmos em entrevistas e dabetes do "antigamente", está lá a mesma postura, a mesma sobranceria, a mesma certeza, o mesmo despudor.

À saída, outra narrativa, a da «mesquinhez», as respostas iradas, coléricas:

-"Importa-se de não me gritar ao ouvido? não lhe vou responder!"

E lá seguiu, peito para fora, o andar de sempre, camisa impecável, gravata lisa, coerente no que sempre foi, a agir como sempre fez.

O animal feroz está de volta.

E voltou na mesma.

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