Opinião

Como vamos dizer-nos?

Kim Hong-Ji

A opinião de Joaquim Franco.

A definição de uma inevitabilidade não concorre com o paradoxo da liberdade humana. Somos interdependentes e úteis, necessários e necessitados. Formados e formatados para sairmos de nós, sermos mais do que o imediato do instinto e da autopreservação, já desfocámos os contornos básicos da sobrevivência. No pêndulo da consciência, andamos entre a emoção e a razão - é aqui que se constrói o primado - e temos como adquiridos, neste vai e vem que nos define, valores civilizacionais que deviam tranquilizar. A situação é dramática? Sim, é! As estatísticas e as percentagens passam-nos ao lado quando somos confrontados com a mais inevitável das contingências: a finitude. O momento é expectante, porque de ansiedade apocalítica e de incerteza social se alimenta também este tempo comunicacional. Uma vítima mortal nos basta para assumirmos a proximidade impactante. Solta-se a ameaça do mitológico caos, que remete para a matéria primordial, como se a ordem das coisas implicasse a coexistência com uma desordem originária e simultaneamente restauradora. Mas sabemos, ou temos de compreender, que é na doação e na corresponsabilidade que podemos atenuar esse inevitável, assumindo a circunstância sem que esta nos paralise, sem dela ficarmos totalmente reféns.

O medo e a incerteza não deviam condicionar-nos. Se não controlamos tudo - na verdade, mesmo que pudéssemos não era aconselhável - é o imprevisível que por vezes nos tolda. Como no desporto competitivo, podemos prever e preparar a melhor performance técnica e tática, prevenindo-nos para a imprevisibilidade, mas esta está sempre lá, como sal e pimenta da própria competição.

Estes são dias para não ficarmos paralisados ou toldados. É a razão que nos fecha em casa. Não é o medo. Estamos racionalmente a reagir, como coletivo, perante uma adversidade inesperada, invisível e silenciosa, que nos atinge no âmago e nos faz prisioneiros por opção, literalmente. É certo que somos de e em relação, (des)construindo afetos, com os sentidos e com sentimentos, mas se nos tiram esta condição de ser, temos de continuar a ser, enquanto tiver de ser.

Na encíclica Laudato Sí, o papa Francisco recupera a philia aristotélica e realça o "amor cívico e político" como essência da nossa civilização, essa capacidade de o humano ser em relação, valorizando-se coletivamente para se transcender individualmente e na corresponsabilidade.

Testemunhamos mais um apelo da história, uma contingência da existência, um suspiro da Terra. Vivemos momentos que enquadrávamos em ficções mais ou menos legitimadas pela ciência e pelos mitos. E é na medida da resposta que diremos quem somos e como evoluímos desde o último suspiro, da última contingência, do último apelo.

À janela ou no terraço, a dois metros ou à distância de uma videochamada, proativos e atentos, teremos de acordar para outras dimensões da vida sem perdermos o foco da realidade. Sabemos que outros(as), como nós, travarão batalhas duras nos hospitais, nos lares de idosos... E sofreremos com eles(as).

Resta-nos a confiança nas autoridades e a disponibilidade para, na possibilidade aconselhada, sermos a rede resiliente, próxima e solidária, que faz a diferença. Se outra ação não nos for permitida, não nos esqueçamos, no isolamento, que só somos porque nos afirmamos em comunidade. Acredito que, sem emoção exacerbada, mas em consciência, será já um contributo.