Opinião

O impacto da pandemia na prática religiosa

Adriano Machado

A opinião de Joaquim Franco.

Em contexto católico, mais próximo da nossa paleta cultural, a pergunta tem a força da circunstância. Qual é o impacto desta pausa de semanas no culto e reunião de crentes? Esta suspensão, sine die, da eucaristia pública, atravessa o mais importante e sensível tempo litúrgico – a Quaresma, a Semana Santa e a Páscoa –, definidor da própria fé cristã. E é cada vez mais provável que Fátima, pela primeira vez, tenha de restringir ou cancelar as celebrações do 13 de maio no santuário.

Culturalmente enquadrada, a vivência religiosa começa numa adesão pessoal e expressa-se sobretudo em comunidade, no ombro-a-ombro de famílias próximas e alargadas, com códigos de pertença que desenham partilha e relações, sem exclusão de outras dimensões mais individuais e espirituais, com a experiência de isolamento e recolhimento místico que moldou o próprio pensamento da Igreja.

Em meros encontros orantes, qualquer que seja a religião ou comunidade, prevalece este paradigma: há um corpo crente coletivo. Como pêndulo, a celebração comunitária semanal explica e reforça as redes de fé. Prevalece até em cenários de guerra e sob risco de vida.

Com o dealbar dos meios de comunicação social, passou a ser possível acompanhar, à distância, uma cerimónia religiosa. No caso católico, em que a celebração eucarística e da palavra, vulgarmente designada como “missa”, significa a presença mística de Deus pelo pão consagrado no altar, há comunidades que, depois, se organizam e vão entregar a hóstia ao domicílio.

Mas a situação vivida neste momento, com as celebrações religiosas à porta fechada e exclusivas para os ministros de culto, tem outro enquadramento: os crentes mais participativos compreenderam e até incentivaram a situação. No domingo que antecedeu a recomendação da Conferência Episcopal era já visível uma redução de pessoas nas assembleias. Havia uma consciência do perigo e da necessidade.

Não se trata de uma impossibilidade em perseguição religiosa ou na falta de um padre, de um pastor, de um imã, de um rabino. Foram as lideranças religiosas que assim entenderam, e o povo, genericamente, concordou. Só depois foi declarado o estado de emergência que, num dos seus artigos, proíbe o culto religioso público.

No passado bíblico, e até há pouco tempo, o leproso era proscrito e afastado. As narrativas evangélicas contam que Jesus nunca temeu aproximar-se dos doentes, tendo-os como gente do seu “reino”. Como lembra a historiadora Rita Sampaio da Nóvoa[1], na “diacronia da convivência humana com a possibilidade de se ser contagiado ou de contagiar houve ruturas e permanências” ao longo dos tempos. Há 100 anos, para não recuarmos muito no calendário, a gripe espanhola não cessou inicialmente as missas, nem outras atividades económicas, coletivas e sociais, o que veio a revelar-se trágico. Tarde demais, as autoridades locais foram fechando compulsivamente os templos, oferecidos pela Igreja ou requisitados pelo Estado para serem enfermarias. Num século, aprofundou-se o conhecimento científico, as estruturas políticas, sociais e sanitárias, a secularização, a consciência do indivíduo, o direito universal…

A decisão de suspender a presença do povo nas cerimónias, promovendo o afastamento profilático dos crentes – grande parte, seniores em grupo de risco – tem um peso simbólico e inédito, cujas consequências são ainda difíceis de antecipar. Em primeiro lugar, é o sinal evidente de um novo tempo: a razão afirma-se na vivência de fé, comprovando que fé e razão não são necessariamente opostas. O discernimento, tão valorizado e promovido pelo atual Papa, resulta numa evidente conjugação de valores, que se encontram no denominador comum de uma cidadania responsável, legitimada na defesa da vida e na ética do cuidado. Sendo fundamental e identitária, a celebração pública, dependendo do contexto, pode não ser necessariamente essencial quando, em consciência, outros valores despertam. Sem negar a relevância mística no culto comunitário, admite-se pragmaticamente que é mais importante o valor supremo da vida humana. Se é um vírus que afasta os fiéis de um momento que os define enquanto comunidade religiosa, é a responsabilidade individual e coletiva que cuida.

Em 1998, na encíclica Fé e Razão, o papa João Paulo II fazia aos sacerdotes um apelo com largo espectro filosófico: “A todos peço para se debruçarem profundamente sobre o homem”.

Tem sido interessante o debate entre católicos. O que acontecerá depois, quando as portas dos templos voltarem a abrir-se? As pessoas vão voltar ou desabituaram-se?

Os mais clericais e ritualistas entendem que as igrejas nunca deviam ter fechado. Outros, sem rejeitar a importância do encontro dominical, vêem uma oportunidade para a desclericalização, retomando a Igreja doméstica, reavivando a leitura e partilha familiar da Bíblia, à semelhança de outros cristãos.

Em qualquer dos casos, estaremos diante de um teste à resiliência comunitária, que tem de mostrar ser mais do que apenas um espaço de aproximação semanal ao altar para cumprir uma tradição. As correntes de incentivo orante multiplicam-se, sobretudo nas redes sociais, mas terá de haver um impacto real e socialmente útil na vida das pessoas, ou o risco de erosão acentua-se.

Como se reconfigura nestes dias o sentimento de pertença à respetiva comunidade? Os padres limitar-se-ão a mobilizar meios para estar on-line e transmitir a missa pela internet?

A maioria dos fiéis pertence ao grupo de risco que está agora isolado em casa, amedrontado com a ameaça real. O que pensará se, no final da tormenta, tiver experimentado o abandono por parte da sua comunidade de fé?

Não se sabe ainda quanto tempo vai demorar este interregno. Nem se a normalidade voltará segura, uma vez que se admite a hipótese de uma segunda vaga pandémica no próximo inverno. E se, depois da Quaresma e da Páscoa, vier uma provação semelhante em Advento e Natal?

Também para a vivência religiosa, há um antes e um depois da pandemia de 2020.

[1] https://setemargens.com/a-nossa-pandemia-a-peste-medieval-e-o-medo-do-contagio-ensaio/

  • 100 mortes e 5.170 casos de Covid-19 em Portugal

    Coronavírus

    O número de óbitos subiu de 76 para 100 em relação ao último balanço da DGS, enquanto o número de infetados aumentou de 4.268 para 5.170, mais 902 em relação a ontem. A região Norte continua a ser a mais afetada. A ministra da Saúde diz que a incidência máxima da doença deve acontecer no final de maio. Siga aqui ao minuto as últimas informações sobre a pandemia de Covid-19.

    Direto

    SIC Notícias