Opinião

“Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos”

Alessandra Tarantino

Terá sido uma das mais difíceis, senão a mais difícil intervenção de Francisco.

Ao entardecer – assim começa também a passagem bíblica lida na ocasião – a praça de São Pedro reflete as luzes que despontam no piso molhado. O imenso abraço elíptico, no cerco da colunata dupla, envolve um imenso vazio. Não seriam estes os planos de Bernini, nem os sonhos do Papa que se apresentou ao mundo noutro dia chuvoso de março, estimulando a mesma perplexidade mediática que hoje volta a colocá-lo no púlpito da história. Terá sido uma das mais difíceis, senão a mais difícil intervenção de Francisco. Não pela pinça literária ou pela narrativa, mas pelo que estas dizem no dramático contexto.

O homem sobe, com lentidão, até ao adro da basílica. Transporta com ele a dor de um país e de uma cidade em regime de cuidados intensivos. Vai falar ao mundo, mas é, primeiro, bispo de Roma e sopro de vida na alma italiana.

O caminho quaresmal até à Páscoa é o período maior na vida das comunidades cristãs. Na impossibilidade de o fazer de corpo presente, os cristãos vivem uma inédita metáfora da penitência e do jejum. Tempo particularmente doloroso para os fiéis e para o pastor. Nestes dias de retiro forçado, o papa argentino foi mantendo a palavra interventiva através dos meios de comunicação social. Como acontece nesta tarde a fazer-se noite.

“Neste barco, estamos todos”, diz o Papa no comentário a uma passagem do evangelho de Marcos, onde se relata o medo dos discípulos durante uma tempestade no mar, incapazes de entender que na presença do mestre nada tinham de temer: “Porque tendes medo? Não tendes fé?” (Mc 4, 35).

O Papa entende que a tempestade destes dias, que serão meses, “desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos” as prioridades e projetos de vida, “põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer” a população mais idosa, faz cair “a maquilhagem dos estereótipos com que mascaremos o «eu» sempre preocupado com a própria imagem” e revela uma inevitabilidade: “é tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é, de reajustar a rota da vida”.

Ladeado pelo ícone de Maria, venerado na basílica de Sta Maria Maior, e pelo Cristo “milagroso” da igreja de S. Marcelo al Corso, antigos símbolos da devoção romana em tempos de peste e epidemias, Francisco tem a expectativa de ver a humanidade “abraçar todas as contrariedades da hora atual, (…) para dar espaço à criatividade”, abrindo “espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade”.

Já é quase noite quando se dirige à custódia, no átrio, colocada sobre um altar improvisado, frente à porta central da basílica, escancarada, para a “adoração do Santíssimo”. De dentro para fora, vislumbra-se a praça vazia. De fora para dentro destaca-se, ao fundo, o sumptuoso baldaquino em bronze, primeira intervenção de Bernini na obra maior de Bramante.

Um longo silêncio varre esta simbólica passagem, a ligar os contornos do divino à realidade, sob um mosaico representando a narrativa da caminhada de Jesus sobre as águas do Tiberíades e, mais uma vez, o medo do discípulo, que vai ao fundo quando hesita em seguir os passos do mestre: “homem de pouca fé, porque duvidaste?” (Mt 14, 24-33).

Se a Humanidade estremece na dúvida, um Papa em grupo de risco ousa pensar e propor para lá da fase aguda de uma pandemia. “Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos”. O barco só agora vai de saída. O vento inesperado e insondável pode ajudar, mas precisamos de braços para navegar. E ao voltar a terra, que se encontre porto novo.

Quando marcou esta jornada, o Papa pediu aos cristãos católicos a “universalidade da oração”, mas também “da compaixão e da ternura”. Entenda-se: a confiança numa intervenção divina não prescinde, e até exige, uma fé comprometida com o outro, próximo ou distante.

Num amanhã longínquo será lida a crónica da pandemia. Nela teremos um capítulo referente a uma praça que, estando vazia como tantas outras, se encheu de procura de sentido. A ilustrar teremos a imagem de um homem de branco, a subir, sozinho, uma escadaria debaixo de chuva.