Opinião

… E se não houver “blockbusters”?

Benedict Cumberbatch vai regressar como "Doctor Strange"... mas ninguém sabe quando

A situação de pandemia tem afectado muitas produções cinematográficas, incluindo os “blockbusters” ligados aos estúdios de Hollywood. Na prática, pode estar em causa todo o calendário global de distribuição/exibição previsto para 2021.

A noção de que os críticos de cinema estão “automaticamente” contra qualquer filme que pertença ao domínio dos chamados “blockbusters” de Hollywood é um disparate. Desde logo, porque a crítica é feita de muitos contrastes e contradições, não é um rebanho de opiniões coincidentes (felizmente, digo eu…); depois, porque a história dos modernos “blockbusters”, desde o pioneirismo do genial Tubarão (1975), de Steven Spielberg, até às mais recentes produções dos estúdios Marvel, envolve um número imenso de variantes, com resultados naturalmente diversos, suscitando juízes de valor inevitavelmente diferentes.

Isto para lembrar que, na actual conjuntura de pandemia, a reflexão sobre os “blockbusters”, sendo um tema de interessante reflexão crítica, não pode deixar de mobilizar a indústria cinematográfica e, enfim, todos os agentes do mercado global. Porquê? Porque, com filmes melhores ou piores, é indesmentível que, nas últimas duas ou três décadas, os “blockbusters” têm ocupado um lugar decisivo na economia global do cinema — as receitas de tais filmes são mesmo fulcrais nos mercados de muitos países (por vezes, é verdade, marginalizando a própria produção nacional).

Ora, que sabemos dos próximos “blockbusters”? Pois bem, são várias os projectos — incluindo “The Batman”, “The Matrix 4” e “Mission: Impossible 7” — que, depois de um pequeno período de rodagem, estão parados devido à ameaça do COVID-19. No caso de “The Batman”, com Robert Pattinson a estrear-se no papel do Homem Morcego, existia já um primeiro trailer (ou “teaser trailer”, segundo a gíria dos estúdios), divulgado a 13 de fevereiro.

Na prática, estes títulos, a que poderemos acrescentar mais algumas sequelas — como “Jurassic World: Dominion” ou “Doctor Strange in the Multiverse of Madness” — tinham lugar marcado na temporada de primavera/verão de 2021. A nova aventura de Doctor Strange, outra vez com Benedict Cumberbatch, seria o primeiro a chegar às salas escuras, com estreia agendada para 7 de maio do próximo ano.

Escusado será sublinhar que, face à prioridade absoluta das questões de saúde, poucos acreditarão na possibilidade de concretizar o calendário inicialmente estabelecido. No plano específico da produção, o caso de Mission: Impossible 7 será dos mais complexos, não só porque o essencial da rodagem teria lugar em Itália (um dos países mais dramaticamente atingidos pelo COVID-19), mas também porque os cenários italianos, em particular de Veneza, seriam essenciais na acção do filme. Dito de outro modo: as incertezas de programação para o ano de 2021 constituem um dos sintomas mais perturbantes dos problemas que a indústria cinematográfica, com muitos milhares de trabalhadores em todo o mundo, está a enfrentar.