Opinião

A Casa de Raquel

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos utiliza as metáforas utilizadas na temporada 4 da ‘Casa de Papel’ para salientar a importância que o futebol tem nas nossas vidas, mas não ao ponto de colocar em risco a segurança dos jogadores, na hora do regresso à competição

No segundo episódio da temporada 4 da ‘Casa de Papel’, o grupo de assaltantes ao Banco de Espanha reúne-se num mosteiro e, em ambiente de alegria e confraternização, a propósito do casamento de ‘Berlim’, jogam uma partida de futebol.

A cena começa com ‘Tóquio’ na baliza, preparada para defender um pontapé de penálti.

‘Palermo’ tem a bola não mãos e coloca-a na imaginária marca do castigo máximo.

O ‘Professor’ apita para a cobrança, na sua qualidade de árbitro, pois claro.

‘Palermo’ bate o esférico com a parte interna do pé direito e ‘Tóquio’ voa para uma grande defesa, perante a euforia dos vencedores e a desilusão dos vencidos.

O futebol é usado muitas vezes como metáfora nas nossas vidas e também é assim, neste episódio, num determinado momento da narrativa da ‘Casa de Papel’: “ainda nem tínhamos chegado ao fim da primeira parte” e ‘Lisboa’ já estava a 3 kms da tenda e foi obrigada a mudar de equipa (…). Segunda baixa na equipa. Segundo golo contra nós. E ainda faltava acontecer o terceiro, que seria de ‘Palermo’, mas este seria um golo na própria baliza. Ele tinha sido um bom capitão, mas era péssimo a jogar em equipa.

O futebol faz parte das nossas vidas e é importante no lazer de milhões de pessoas e a sua indústria arrasta paixões e muito dinheiro.

É um espectáculo fascinante, apesar da profunda falta de transparência do sector e das sucessivas operações de transferência, muito nebulosas, que se realizam sob um sistema de fraquíssima regulação.

Quando entrarmos na primeira fase positiva do controlo sanitário da Covid-19, vamos começar a sentir a falta do jogo e até das suas ‘pandemias’.

Queremos muito, claro, que o futebol regresse e o mais depressa possível. Mas sem nenhum tipo de risco. Nem para os intérpretes, — jogadores, treinadores, árbitros e estruturas de apoio que sustentam a competição, —nem para a coesão e eficácia do sistema de saúde, nem para as pessoas em geral.

Risco zero é a única coisa que se pode defender, apesar das tomadas de posição muito prematuras dos ‘donos de futebol’ à escala mundial, seguidas entretanto (por deformação sistémica) das respectivas subestruturas que começaram a delinear hipóteses de calendário, como fez a Liga portuguesa, traçando a desejada meta de se acabar a época até 30 de Junho.

Defendi, desde o início, a solução que me parecia melhor: a conclusão desta época sem designação de vencedores para melhor se preparar a próxima (sem mais dilações) e a FIFA encontrar, com as respectivas confederações, as soluções de financiamento para mitigar o impacto económico de 3 meses de paragem.

Na ‘Casa de Papel’, houve uma transferência relevante no guião da história, quando Raquel, a inspectora que no terreno estava do lado da investigação na sua qualidade de agente policial se transferiu, por amor, para a equipa dos assaltantes, adoptando então o nome de ‘Lisboa’.

As transferências no futebol vão sofrer um impasse e as consequências levarão tempo a sarar. Temos de nos convencer que a pandemia não se vai embora por carregarmos num botão. A pandemia já contaminou no Mundo quase 1 milhão e 300 mil pessoas e já fez mais de 70 000 vítimas mortais.

Queremos que o futebol regresse. A Lisboa, ao Porto, a Braga, a Guimarães, a Coimbra, a Faro, a todas as grandes cidades e a todos os lugares onde haja um campo de futebol, uma televisão ou um portátil. À casa da Raquel, da Maria, do José, do Manuel, da Joana, do Pedro, e às casas de todos os que gostam do jogo em qualquer ponto do Mundo, mas com profundo sentido de responsabilidade e, neste âmbito, são úteis as declarações do presidente do Sindicato dos Jogadores, no sentido de não deixar dúvidas algumas de que “os jogadores nunca serão cobaias’.

Acrescento: nem os jogadores nem ninguém.

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