Opinião

Filmes em quarentena: "Boneca de Luxo"

Audrey Hepburn em "Boneca de Luxo": uma das grandes comédias românticas da década de 60

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Ficou como uma das imagens de marca de Audrey Hepburn: a comédia romântica “Boneca de Luxo” (1961) é também um brilhante exemplo do trabalho do realizador Blake Edwards, sem esquecer a sua lendária canção “Moon River”.

Não se trata de nostalgia compulsiva, mas é sempre bom saber que as plataformas digitais dedicadas ao cinema arriscam dar a ver títulos que estão para além dos destaques dos últimos dois ou três anos. Afinal de contas, as memórias de mais um século de filmes são infinitas…

Um belo exemplo poderá ser “Boneca de Luxo”, produção de 1961 adaptada, em tom muito livre, da novela de Truman Capote editada em 1958 (livro e filme partilham o mesmo título original: “Breakfast at Tiffany’s”). Este retrato de uma jovem que se move na sofisticada sociedade nova-iorquina consolidou a imagem de marca de Audrey Hepburn, símbolo modelar do “glamour” de Hollywood ao longo das décadas de 50/60 (ela que, curiosamente, era uma cidadão britânica nascida na Bélgica). A esse propósito, convém lembrar que, em 1964, Hepburn protagonizaria “My Fair Lady”, de George Cukor, um dos derradeiros exemplos das glórias clássicas do género musical.

Porventura menos lembrado é o facto de “Boneca de Luxo” ser um dos exemplos mais requintados, e também mais elegantes, do trabalho do realizador Blake Edwards (1922-2010) no domínio da comédia romântica, ele que é sobretudo conhecido através de algumas delirantes comédias burlescas, com inevitável destaque para a série da “Pantera Cor de Rosa”, com Peter Sellers. O certo é que Edwards explorou também as muitas nuances do romantismo, como em “A Semente de Tamarindo” (1974), sem esquecer que um dos seus melhores filmes, “Escravos do Vício” (1962), é um drama puro e duro sobre o alcoolismo.

Enfim, não é possível evocar “Boneca de Luxo” sem citar a sua assinatura musical, mais concretamente a canção “Blue Moon”, com letra de Johnny Mercer e música de Henry Mancini, este um colaborador regular de Edwards (autor do tema universal da “Pantera Cor de Rosa”). Interpretada no filme pela própria Hepburn, “Blue Moon” persiste como uma encarnação exemplar do romantismo clássico, tendo sido distinguida com o Óscar de melhor canção de 1961; Mancini ganhou também na categoria de melhor banda sonora. Na lista das “100 canções” do século XX, publicada pelo American Film Institute em 2004, “Blue Moon” surge em quarto lugar, depois de “Over the Rainbow” (“O Feiticeiro de Oz”, 1939), “As Time Goes By” (“Casablanca”, 1942) e “Singin’ in the Rain” (“Serenata à Chuva”, 1952).

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