Opinião

E o Benfica, André?

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos escreve sobre o vaivém entre política e futebol. O comentador da SIC reflete sobre as ambições e comportamentos do deputado (benfiquista) André Ventura.

Estavam os portugueses a aprender a conjugar o verbo confinar e André Ventura apresentava a demissão de presidente do ‘Chega’, partido que fundou precisamente há um ano e na liderança do qual conseguiu ser eleito e ganhar assento na Assembleia da República.

Antes, tornara-se conhecido dos portugueses pela forma como defendia o Benfica, enquanto comentador televisivo, e durante muito tempo fez gala de se afirmar como o canal preferencial de informação do presidente Luís Filipe Vieira.

A sua popularidade foi crescendo não apenas no debate futebolístico, mas é sabido como o futebol serviu durante muitos anos como trampolim para a afirmação social (e política) de muitas personalidades que não tinham nada a ver, directamente, com este segmento de actividade mas que se serviram dele para aumentar as suas quotas de protagonismo.

Foi muito assim durante anos e agora é menos, por força das investigações que tomaram conta deste mundo complexo do chamado desporto-rei, que hoje em dia é mais — para manter a linguagem xadrezística — o desporto-cavalo, uma vez que, particularmente em Portugal, se dá muito valor à… dialéctica do coice.

Um coice aqui, um coice ali, e a verdade é que, na política, Ventura tem feito os possíveis para exercitar a técnica do dito cujo.

O último (coice) foi, de facto, o pedido de demissão da liderança do ‘Chega’, que não tem efeito absolutamente nenhum, porque fica tudo na mesma, uma vez que Ventura, com esse golpe de prestidigitação, não apenas varre para debaixo do tapete uns cabelitos que lhe estavam a provocar algumas cócegas debaixo dos pés, como consegue captar mais alguma atenção no contexto mediático.

Ventura conseguiu essa coisa extraordinária de arranjar uma oposição interna no ‘Chega’ que não existe ou, pelo menos, talvez possa ser visível através da ajuda de um microscópio, e isso mostra que o jovem deputado tem uma agenda e, neste momento, a sua agenda é fazer-se ouvir, por tudo e por nada.

Independentemente das convicções e posições políticas que não podem ser despiciendas na avaliação do seu desempenho como político, André Ventura tem neste momento um grande objectivo que é captar a atenção dos portugueses, através de uma espécie de vaivém entre a política e o futebol.

Ele é capaz de ficar na carruagem da política entre o Campo Grande e Saldanha e, de repente, saltar para a carruagem do futebol e nela fazer o trajecto entre o Saldanha e Carnide, captando a atenção de meros viajantes, adeptos ou eleitores, pela sua notória inquietude.

Há um populismo ideológico e um populismo postural, que muitos simplificam ao chamar-lhe apenas ambição.

Ventura é ambicioso, mas corre o risco de se tornar perdidamente ambicioso.

Dir-se-ia que quem ‘ignora’ o alarme à escala mundial, o estado de emergência em Portugal, a morte de centenas de portugueses e mais de uma dezena de milhar de infectados para tentar colocar um bocadinho de holofote na sua demissão presidencial, por causa da efervescência causada pela abertura de uma coca-cola na mesa do ‘Chega’, não bate bem da cabeça.

Trump e Bolsonaro já fizeram pior, eu sei, mas as sociedades estão a ser vítimas de um outro vírus, tão ou mais mortífero que o ‘corona’, que é a falta de ‘sentido de Estado’ ou, se se quiser, antes de se chegar a esse estádio na trajectória da carreira política, a falta de responsabilidade.

Na era do tiktok e do instagram e, portanto, das instataneidades, provavelmente já ninguém se preocupa com isso e Ventura também não.

Vivemos um tempo de feroz criticismo, no qual falta autoridade crítica, e esse é um problema que as democracias vão ter de saber resolver. Há cada vez menos tempo e paciência para ouvir os grandes e verdadeiros pensadores, e isso também é evidente na facilitação da ciência politica.

Ventura pode até achar que está a capitalizar neste vaivém entre futebol e política, porque é o dois em um, em primeira classe, considerando as lógicas de comunicação actuais.

Está contudo a cometer um erro. Ou se fixa na política ou escolhe o futebol. Ou quer amadurecer na política, tentando convencer que o seu projecto inicial de enfraquecer o PSD para fortalecer o seu ideário ainda faz algum sentido (creio que só ele pode acreditar nisso), ou quer ser importante no futuro do Benfica.

No que ao futebol diz respeito, estou convencido de que, neste passo, André Ventura poderia ser o maior opositor de Luís Filipe Vieira, se ele estivesse virado para cometer essa traiçãozinha.

Como não deve ser isso, pode estar a preparar o pós-Vieira, e tem tempo para isso, porque a democracia e a paciência (pós-moderna) tudo consentem.

De facto, neste Mundo, e no próximo, tudo é possível.

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