Opinião

O Governo, a Oposição, a Covid e o Futebol

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos escreve sobre os aspetos positivos da gestão da crise pandémica. O comentador da SIC estabelece pontes entre a política e o futebol.

Em plena era da Covid-19 até pode parecer impróprio falar de aspectos positivos desta crise, até porque Portugal e os portugueses, percebendo que os próximos tempos serão difíceis e de ajustamentos perante o súbito congelamento das economias, não sabem exactamente e em concreto aquilo que os espera.

Sabemos que serão tempos difíceis, mas há pequenas empresas e rendimentos de pequenos negócios que nunca mais recuperarão deste embate e mesmo algumas médias e grandes empresas já estão a sofrer com o abrandamento da produtividade e das trocas comerciais, com repercussões dramáticas ao nível das receitas e do emprego.

Potencialmente, Portugal é e será sempre um país vulnerável a qualquer tragédia. Somos um país com enormes talentos, mas somos um país pobre com uma dívida pública brutal (só o ano passado conheceu um pequeno desagravamento depois de mais de duas décadas a crescer), com a particularidade de Portugal ter sido um dos países europeus que mais reduziram gastos com a saúde na última década.

Apesar das progressões e dos ensinamentos: basta chover um pouco mais do que o normal e o país fica entupido.

Viu-se como foi com a gestão dos incêndios.

Em caso de ameaça à segurança nacional, por mar, não haverá tempo para retirar a ferrugem da corveta.

Somos, no entanto, um país de salva-vidas, porque convivemos com o sentimento que um dia ninguém nos virá salvar.

Salvamos bancos e perdoamos ‘indigestores’ e colocamos sem pestanejar o nosso dinheiro em todo o tipo de salva-vidas.

Se, em Portugal, o crescimento da pandemia tivesse ocorrido ao ritmo do que aconteceu em Espanha e Itália, apanhados de surpresa pelo vírus, mas também pela sua incapacidade de reagir no tempo certo, ao ponto de não se saber muito bem a quem atribuir a paternidade da traição, o nosso sistema de saúde entraria em colapso num instante e nem a heroicidade do pessoal médico evitaria uma desgraça bem maior e de proporções difíceis de prever e contabilizar.

Também por tudo isto é importante sublinhar os aspectos positivos que emanam desta crise, porque se na verdade a capacidade de resposta do sistema de saúde foi colocada à prova, não restam dúvidas de que a entrada em campo dos médicos e enfermeiros e de todo o pessoal que os assiste, clínica e administrativamente, fica desde logo condicionada por decisões de natureza política.

A cooperação institucional entre o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa, já era evidente na era ‘a.C-19’ e ela serviu para não desencadear uma crise política em cima de uma crise sanitária, o que seria sempre profundamente lamentável.

Depois, independentemente das nossas eventuais simpatias partidárias, o comportamento altamente responsável do primeiro-ministro, António Costa, mesmo no momento de algumas gaffes, como foi aquela de cumprimentar o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, com um aperto de mão, sinal de que somos todos humanos e propensos a deslizes.

Fechar as fronteiras e decretar estado de emergência — ainda que com algum acaso — foram, ab initio, decisões que se estão a revelar muito importantes. Foram golos marcados na baliza do adversário.

É de salientar também a postura responsável da Oposição, principalmente no que diz respeito ao discurso dominante do líder do PSD, Rui Rio, que ainda esta quinta-feira dizia e, muito bem, que isto não está para estados de espirito e o mais importante, neste momento, é o interesse nacional — e não os interesses político-partidários.

Temos tido, na gestão desta crise, um Governo e uma Oposição globalmente responsáveis. O que nos transporta para o futebol.

Há muito tempo que o futebol português está em crise e precisaria — para citar Rui Rio — de um governo de ‘salvação nacional’.

Um governo de salvação nacional que tivesse a FPF e a Liga no mesmo barco, isto é, Fernando Gomes e Pedro Proença. Que nesse barco coubessem ainda o Benfica e o FC Porto e todos os clubes profissionais. Com os seus presidentes interessados em soluções globais e não em soluções individuais.

A gestão desta crise tem sido elogiada internacionalmente e merece o nosso elogio. E, se não facilitarmos, venceremos. Um dia poderá ser observada como exemplo, também naquilo que é preciso mudar nos comportamentos do futebol. Em tempos de crise, a coexistência institucional pode ser decisiva.

Boa Páscoa e… não facilitem!