Opinião

Cinemateca Portuguesa também está online

"Os Verdes Anos": um clássico do Cinema Novo disponível online

Como acontece com todas as empresas e instituições ligadas ao cinema, também a Cinemateca Portuguesa está a diversificar a sua actividade. No seu site, a oferta inclui obras clássicas, filmes de divulgação e um espaço específico para os mais novos.

Em 1963, “Os Verdes Anos”, de Paulo Rocha, foi um dos títulos que contribuiu decisivamente para a afirmação do Cinema Novo português. Interpretando, respectivamente, um aprendiz de sapateiro e uma empregada doméstica, Rui Gomes e Isabel Ruth surgiam como personagens tocantes e vulneráveis de uma nova realidade social, simbolizada pelas “Avenidas Novas” (a zona de Lisboa onde decorre grande parte da acção).

Pois bem, neste momento em que, devido à situação de confinamento, se tem multiplicado a oferta de cinema online, “Os Verdes Anos” é um dos títulos disponibilizados online, em acesso gratuito, pela Cinemateca Portuguesa — o filme pode ser visto no site desta instituição, integrando um ciclo designado através do título de um filme de Alberto Seixas Santos, datado de 1983: Gestos & Fragmentos. Este trailer, com imagens de “Os Verdes Anos”, refere-se a um conjunto de três obras de Paulo Rocha exibidas em 2015.

Está ainda disponível outro clássico do cinema português, “Lisboa, Crónica Anedótica” (1930), de Leitão de Barros, notável testemunho sobre a vida cultural lisboeta em finais da década de 20 e também, pela combinação documentário/ficção, um objecto de inusitada modernidade.

Trata-se de uma programação semanal (neste caso, de 13 a 16) que não se esgota nos filmes. Encontramos também um espaço dedicado aos jovens, prolongando as actividades da já existente Cinemateca Júnior: nele se inclui o registo de um espectáculo de Lanterna Mágica, evocando os antepassados técnicos e estéticos do cinema, e um conjunto de propostas para os mais novos, com actividades para realizar em casa. A oferta envolve ainda a amostragem de objectos do Museu da Cinemateca e a divulgação de textos analíticos sobre obras disponíveis na biblioteca da instituição.

Eis um conjunto de iniciativas de inestimável valor histórico, pedagógico e lúdico. Como escreve José Manuel Costa, director da Cinemateca, num texto de apresentação: “Num período em que, para o bem de todos e de cada um, devemos manter-nos nas nossas casas, esta é a nossa forma de levar um pouco mais do que somos e do que fazemos aos que nos procuram, além de, porventura, no caminho, suscitar o interesse de outros que por esta porta nos descubram.”

Dito de outro modo: somos melhores espectadores de cinema quando temos consciência (entenda-se, antes do mais: informação) sobre o património que envolve filmes, autores, narrativas, tendências e técnicas. A registar: na programação da Cinemateca para as próximas semanas destaca-se a amostragem de vários títulos ligados às memórias do 25 de Abril.